Cesta da esperança

Conheça o Basquete Cruzada, projeto social que ajuda jovens em comunidade da zona sul do Rio de Janeiro

Cesta da esperança
Projeto se mantém a partir da venda de camisas da marca Basquete Cruzada (Foto: Alexandre Braga)

Alguns insistem em dizer que esporte se resume apenas a mais uma ferramenta de entretenimento, mas a cada dia podemos ver mais exemplos de como essa ideia está errada. Um deles é o projeto social Basquete Cruzada, que reúne jovens e adultos há 18 anos na Cruzada São Sebastião, zona sul do Rio de Janeiro, para ajudar a formar não só atletas, mas cidadãos, como eles mesmos gostam de enfatizar.

O projeto começou apenas com o basquete, mas com o sucesso da ideia, modalidades como futebol, artes marciais e handebol também foram envolvidos. Com mais ou menos 120 alunos, Wagner da Silva, fundador e gestor, conta com a ajuda de mais dois professores fixos e leva atletas e técnicos de grandes clubes para as aulas. Além disso, eles ainda têm um grande compromisso com a parte social, colocando os jovens em contato com abrigos e ajudando os mais necessitados.

Ter um projeto social nunca é uma tarefa fácil. Além das dificuldades para chamar jovens e crianças e mantê-los interessados, os incentivos financeiros são, na maior parte, limitados. Para o Basquete Cruzada, a solução veio na expansão da marca e na venda de camisas personalizadas, que acontece até hoje.

Wagner explicou de onde surgiu a ideia e como ela fez sucesso no mundo do basquete: "Estamos aqui desde 1998. O projeto sempre veio rastejando, mas, como conheço muita gente, sempre pedia doação de material para os clubes ou amigos que são atletas. Em 2007 a gente pensou em uniformizar, mas acabamos colocando na gaveta. Em 2013 decidimos fazer isso aqui dentro, mas o pessoal da comunidade começou a perguntar por que não vendia para ajudar a manter o projeto".

"Fiquei enrolando, mas a comunidade do basquete viu a camisa e começou a pedir, não só no Rio de Janeiro. Com muita insistência decidimos vender e foi um estouro. Muita gente apoiando, comprando as camisas. As pessoas sabem para onde o dinheiro está sendo direcionado. Compra de material, fazemos cestas básicas, alguns investimentos para ajudar alguns atletas que tem problemas particulares", completou.

(Foto: Marcelo Braga/Basquete Cruzada)

Gerson da Silva tem 38 anos e é morador da Cruzada desde que nasceu. Começou a frequentar o projeto já no início e depois de um tempo sugeriu a criação do núcleo das lutas, onde dá aulas hoje. "Comecei treinando aqui, já praticava em outros lugares, mas a gente se reunia aqui para treinar. Viemos sempre com o objetivo de socializar e educar, a ideia que o esporte transmite pra gente. Comecei a treinar em outras academias, lutei profissionalmente, mas sempre trabalhando aqui. Durante esse tempo tivemos a ideia de fazer com a luta e o Wagner abraçou todo mundo”, explicou.

Graças ao projeto, seu filho joga basquete atualmente na categoria sub-15 do Flamengo e isso é motivo de grande orgulho. “Sou da luta, ele já ia comigo para as academias, mas começou a praticar basquete e se apaixonou. Começou a se destacar aqui e o Wagner levou para fazer teste no Flamengo há uns 4 ou 5 anos. Agora o basquete só não é 24 horas porque obrigo a ir para a escola”, comentou o professor.

Rafael Lima tem 19 anos e há quase três é aluno do projeto. O amor pelo basquete o levou até as quadras, mas foi a qualidade do trabalho que o manteve lá: "Via basquete na televisão e sempre gostei, mas não tinha lugar para jogar, até que um amigo da escola me chamou para vir aqui. Gosto do projeto, das pessoas, sair de casa um pouco e jogar basquete. Me ajudou em várias coisas. O Wagner sempre está tentando ajudar a gente, procurando bolsas, ajudando na escola, sempre perguntando. O projeto sempre me incentivou a continuar estudando, até mesmo tentando virar jogador, mas continuar estudando”.

O conselheiro tutelar, Jaime do Nascimento, tem 41 anos e contribui para o projeto dando conselhos e tentando ajudar os envolvidos a superarem os problemas do dia a dia. "Meu trabalho aqui é mostrar para eles o poder da cidadania, os direitos da criança e do adolescente. Faço algumas palestras, dou alguns conselhos para as crianças que estão com dificuldade na escola. Ajudo na melhoria da autoestima deles também. É sempre bom fazer esse trabalho”. E ainda completa: “A gente tenta dar uma luz para eles, mostrar que tem uma coisa melhor lá na frente”.

As dificuldades são inúmeras, mas a vontade de ajudar supera tudo: "A gente tenta sempre tirar desse caminho, botar em um lugar melhor. Cada dia é um caso diferente. Evasão escolar tem muita, nós conversamos, tentamos ajudar psicologicamente. Nosso papel não é afastar, mas estar junto”, disse Jaime.

Ítalo começou como aluno em 98 e hoje, aos 25 anos, também é um dos professores do projeto. Antes, se tornou jogador profissional e chegou a atuar pelo Botafogo, Tijuca, além das seleções carioca e brasileira. Hoje, ele tenta se formar em educação física e sua maior motivação lá é fazer o que Wagner fez por ele anos atrás: tornar os alunos cidadãos. "Está muito mais fácil ir pro mundo, fazer outras coisas do que estar aqui treinando, com responsabilidade, tomando bronca. Cobramos muito”.

Estrelas de Orlando Magic e Flamengo foram até a Cruzada entregar a quadra reformada (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)
Estrelas de Orlando Magic e Flamengo foram até a Cruzada entregar a quadra reformada (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Em 2015, um grande reconhecimento chegou após tantos anos de trabalho duro. A NBA trouxe mais uma edição do Global Games ao Brasil, dessa vez com Orlando Magic e Flamengo, e essa foi inesquecível, pelo menos para os jovens da Cruzada. Graças ao NBA Cares, a quadra do Basquete Cruzada foi reformada e entregue em um evento que reunia jogadores dos dois clubes. O orgulho do feito está escancarado nos olhos de quem faz parte.

"Conseguimos o contato do grupo TGF, que é a empresa de marketing que trabalha para a NBA. Eles vieram aqui, fizeram a reforma da quadra e foi um momento histórico. Eu sempre sonhei. Quando eles vieram da primeira vez, enchi o e-mail deles, mas não tive resposta. Da segunda vez a mesma coisa. No terceiro decidi não mandar e veio o convite. Foi um sonho realizado, a molecada adorou", explicou Wagner.

"O bairro, que é de classe média alta, olhou pra cá e reconheceu. As crianças vieram, assistiram, pediram autógrafo. Foi muito bom, deixaram a quadra de herança, todos vem ver", falou Gérson. "É uma coisa que o Wagner já estava correndo atrás há muito tempo. A NBA se juntou ao Flamengo e ele é cria do Flamengo, jogou lá a vida inteira. Isso aqui ficou conhecido internacionalmente. Vieram jogadores da NBA e foi muito legal", comentou Ítalo. "Deu uma motivação a mais aos alunos. Nosso projeto aumentou em mais ou menos 20%. Chegou bastante gente, está cada vez maior”, completou.

Wagner ainda fez questão de enfatizar o esforço e, assim, deixa claro a todos o tamanho da influência de seu projeto na comunidade. “Acho que isso é fruto de um trabalho. Nada foi assim de graça. Tivemos a força de todos os professores que apoiaram durante esse tempo, familiares, colocamos muitos atletas em clubes e todos eles reconhecem isso, sabem que o projeto é importante para a comunidade. Assim que conseguimos ter os olhos deles. Falta muito as confederações e instituições reconhecerem os projetos sociais”, disse.

Com o sucesso do projeto, foi inevitável atrair os olhares dos clubes. "Atualmente temos 22 atletas em clubes, mais ou menos. Ao longo do tempo foram muitos. O Basquete Cruzada pode ser o projeto que mais colocou atletas em clube, mesmo sem ser nosso foco. A gente trabalha para integrar o garoto de comunidade na sociedade e abrir esse leque pra eles. Se conseguirmos a oportunidade, beleza, mas o mais importante é a educação”, disse Wagner.

Através do esporte, queremos atingir a cabeça das pessoas e tentar produzir uma comunidade mais ativa, mais disposta, atlética e bem educada. Da comunidade partir pro nosso bairro, município, de passo em passo. O Basquete Cruzada tem grandes ideias para nós da comunidade e para a sociedade", disse Gerson.

Wagner é o gestor do projeto (Foto: Ana Luisa/Basquete Cruzada)

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