Como os hondurenhos podem surpreender o Brasil

Os comandados de Jorge Luis Pinto, que guiou a lendária Costa Rica de 2014, querem continuar fazendo história

Como os hondurenhos podem surpreender o Brasil
Foto: Pedro Vilela/Getty Images

A seleção olímpica de Honduras vive uma epopeia na Olimpíada de 2016. Nesta edição, o escrete masculino sub-23 de futebol do país da América Central já atingiu sua melhor campanha em Jogos Olímpicos. Agora, La Bicolor Olímpica quer alçar voos maiores: vencer o Brasil, seleção dona da casa, e chegar a uma inédita final.

O algoz das Honduras na Olimpíada de 2012 foram justamente os brasileiros. La H balançou as redes com Mario Martínez e Jorge Espinoza, mas sucumbiu diante de dois gols de Leandro Damião e um de Neymar - que reencontrará os bicolores no jogo desta quarta-feira, 17.

Os hondurenhos têm noção de que não são favoritos contra o Brasil. Afinal, a Canarinho jogará diante de sua torcida na saga rumo à tão sonhada medalha de ouro olímpica, única conquista que lhe falta. Mas eles já estão acostumados com esse status. E também têm se habituado a quebrar prognósticos.

Não eram favoritos à vaga nos Jogos do Rio. Foram vice-líderes em um grupo com México (derrota por 2 a 1), Costa Rica (vitória por 2 a 0) e Haiti (vitória por 1 a 0) e eliminaram os EUA (2 a 0) no mata-mata. A derrota de 2 a 0 para o México, atual campeão olímpico, na decisão não foi um resultado para envergonhar os catrachos.

Alberth Elis (nº 17) e Romell Quioto (nº 12), a dupla de ataque que vem enchendo a nação hondurenha de esperança (Foto: Divulgação/Concacaf)

Não eram favoritos a uma vaga no mata-mata do Rio 2016 por estarem em uma chave com Argentina, Portugal e Argélia. Classificaram-se em segundo lugar. Venceram a Argélia por 3 a 2, perderam para Portugal - que terminou na liderança do grupo - por 2 a 1 e empataram com a Argentina em 2 a 2 - resultado que eliminou a Albiceleste. Nas quartas de final, voltaram a se superar e bateram a Coreia do Sul, semifinalista em Londres, pelo placar mínimo.

A equipe latino-americana vem se mostrando fiel à filosofia de jogo de seu treinador, o colombiano Jorge Luis Pinto. Preencher os espaços e se dedicar incansavelmente à marcação são as estratégias para se defender. Lá na frente, os requisitos são atacar com velocidade em busca de espaços e ser cirúrgico na finalização. Foi assim que Jorge Luis Pinto levou a Costa Rica às quartas de final da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Os Ticos lideraram o "Grupo da Morte", que também tinha os campeões do mundo Uruguai, Itália e Inglaterra, superaram nas oitavas uma campeã europeia, a Grécia, e caíram para a lendária Holanda somente nos pênaltis.

Pinto deixou La Tricolor devido a divergências com membros da comissão técnica e se transferiu justamente para a rival Honduras. Técnico da seleção principal, que vem brigando por vaga na Copa do Mundo de 2018, ele também conquistou o direito de dirigir a seleção olímpica e segue fazendo história nas quatro linhas.

Quis o destino que o prosseguimento de suas conquistas na área técnica também fosse em terras brasileiras. O colombiano, inclusive, morou no Brasil nos anos 70. Naquele tempo, estudou na Universidade de São Paulo (USP) e adotou o Corinthians como time do coração, conforme declarou em uma conferência de imprensa durante o Mundial de 2014. "Eu sou corintiano. Morei aqui (no Brasil) muito tempo. Estava no título paulista de 77, vi toda a história do Corintians e sigo o Corinthians. Vivi muito e respeito os Gaviões (da Fiel). Tenho muito carinho pela torcida do Corinthians em todo o mundo", disse à época.

Jorge Luis Pinto fez história com a Costa Rica e agora faz história com as Honduras (Foto: Getty Images)

Dos 18 convocados, 16 atuam no país natal, divididos entre os clubes Real España, Real Sociedad, Olimpia, Motagua, Vida, Juticalpa e Marathon. Os únicos internacionais são o meia Elder Torres, do Tampa Bay Rowdles, da NASL, competição equivalente ao segundo nível do futebol dos EUA, e o atacante Anthony Lozano, do Tenerife, da segunda divisão da Espanha. Entre os destaques estão o goleiro Luis López, o defensor Brayan Ramírez e os atacantes Romell Quioto e Alberth Ellis. O capitão é o meia Bryan Acosta.

Todos têm em comum o sonho de conquistar a primeira medalha olímpica de seu país e entrar para a História. Faz-se necessário encher de orgulho e felicidade um povo tão sofrido. De acordo com o Banco Mundial, Honduras tem o maior índice de desigualdade social da América Latina e 60% da população vivem com US$ 1,25 por dia. Recentes estudos da ONG Conselho Cidadão pela Segurança Social Pública e Justiça Penal, do México, colocaram a cidade hondurenha de San Pedro Sula como a mais violenta do mundo. Nela, o número de homicídios chega a 171 para cada 100 mil habitantes. A agência Reuters, por sua vez, define a polícia de Honduras como "uma das mais corruptas do mundo". Desde que se tornou independente da Espanha, em 1821, o país já passou por mais de 100 golpes de estado; o último, em 2009 - um golpe a cada dois anos, em média.

Os hondurenhos esperam que as gerações as quais vêm fazendo bonito nas Olimpíadas agreguem qualidade à seleção principal. Los Catrachos estiveram presentes nas duas últimas Copas do Mundo, tendo caído na primeira fase em ambas.