Brasil x Argentina coloca frente a frente dois técnicos sul-americanos respeitados

Brasil x Argentina coloca frente a frente dois técnicos sul-americanos respeitados
Brasil x Argentina coloca frente a frente dois técnicos sul-americanos respeitados

Agendado para as 21h45 da próxima quinta-feira (10), o superclássico entre Brasil e Argentina colocará frente a frente duas seleções em situações distintas nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2018 e dois técnicos com filosofias de jogo diferentes, mas com renomações parelhas. O duelo particular entre Tite e Edgardo "Patón" Bauza será um espetáculo à parte do embate.

Embalada sob o comando da "Titebilidade", a Canarinho não perdeu pontos desde que o treinador chegou e hoje é a líder das Eliminatórias com 21 pontos. Visitará o Mineirão pela primeira vez depois da histórica goleada de 7 a 1  para a Alemanha em um cenário completamente diferente daquele fatídico 8 de julho de 2014.

Já na Argentina de Bauza, a desconfiança impera e a pressão aumenta com o passar dos dias. Recentemente, a Conmebol decidiu dar três pontos ao Chile em decorrência da escalação irregular do zagueiro Nelson Cabrera por parte da Bolívia - originalmente, o placar do jogo foi 0 a 0. Com isso, La Roja ultrapassou a Albiceleste na classificação - ambas somam 16 pontos, porém os chilenos têm 16 gols pró contra 11 dos rivais - e entrou na zona da repescagem, colocando os argentinos em uma situação que os deixaria fora da Copa do Mundo.

Seleções estão em processo de mudança e em fases opostas na classificação

Brasileiros e Argentinos mudaram o comando técnico pensando a longo prazo. Os gigantes sul-americanos buscam renovar o ânimo de seus jogadores e torcedores. Enquanto a Amarelinha ainda carrega o peso do 7 a 1 sofrido na Copa do Mundo em casa, nossos hermanos estão há 23 anos sem conquistar um torneio de peso e vêm de três vice-campeonatos consecutivos - revés para a Alemanha na prorrogação da final da Copa do Mundo e duas derrotas nos pênaltis para o Chile em decisões de Copa América.

Outro objetivo claro é a retomada da hegemonia sul-americana. As últimas três Copas América foram conquistadas por Uruguai, em 2011, e Chile, em 2015 e 2016.

Insatisfeito com o pragmático futebol proposto por Dunga e tendo noção da geração talentosa de jogadores da qual dispõe, o Brasil demitiu o capitão do Tetra e deu a Tite a missão de guiar o grupo rumo à classificação ao Mundial da Rússia. Campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes da Fifa e bicampeão da Série A pelo Corinthians, o gaúcho chegou ao sonho de todo e qualquer treinador brasileiro e vem fazendo valer a confiança depositada por quem segue a Seleção.

Até agora, o aproveitamento é de 100%, com vitórias sobre Equador, Colômbia, Bolívia e Venezuela - 3 a 0, 2 a 1, 5 a 0 e 2 a 0, respectivamente. Com os resultados recentes, a Pentacampeã Mundial saltou da sexta para a primeira colocação; de nove para 21 pontos. Mais do que a melhora na classificação, vê-se um futebol bonito e envolvente e uma organização tática que estão reaproximando a Seleção dos torcedores. O nome de Tite, inclusive, vem sendo ovacionado pelos torcedores nas arquibancadas. Algo raro se tratando de um técnico de Seleção Brasileira. A fase é ótima e os desempenhos são animadores. Cabe ao técnico não permitir que o oba-oba da torcida interfira no rendimento de seus comandados.

E é na sexta posição onde a Argentina de Patón se encontra hoje. O argentino veio para substituir o compatriota Tata Martino, que pediu demissão após o "bi vice" da Copa América por estar sem receber salários há nove meses e, também, devido à escassez de jogadores até então disponíveis para a Olimpíada do Rio 2016. Depois de intensos dias de negociações, Bauza deixou o São Paulo, que vinha de uma excelente campanha na Copa Libertadores mas estava irregular no Brasileirão, e assumiu um desafio ainda maior: treinar a seleção de seu país em meio à crise política e financeira da AFA. El Patón é acostumado a dificuldades. Afinal, levou a LDU de Quito e o San Lorenzo a inéditos títulos de Libertadores.

A estreia foi deveras animadora, com vitória de 1 a 0 no clássico contra o Uruguai com gol de Lionel Messi, que meses antes anunciara que não mais defenderia a equipe nacional. Resultado simbólico. Contudo, essa, até o presente momento, foi a única vitória da Era Bauza. Depois, os albicelestes empataram em 2 a 2 com Venezuela e Peru, times da parte de baixo da tabela, e foram derrotados pelo Paraguai em plena Buenos Aires por 1 a 0, com direito a pênalti desperdiçado por Sergio Agüero. Sexta colocada com 16 pontos, a Argentina não iria nem à repescagem intercontinental se as Eliminatórias terminassem hoje e vem extremamente pressionada para o Superclássico.

A pobreza em termos de individualidade e coletividade são de deixar o torcedor argentino com a pulga atrás da orelha. Entretanto, os times de Bauza tradicionalmente são plantéis que demoram a se entrosar e engrenar. Talvez o tempo lhe dê razão.

Tite x Bauza: filosofias diferentes, competências iguais

No futebol não existe verdade universal. Se fosse assim, convenhamos, o esporte não teria graça. A diversidade de ideias que se reflete nas filosofias dos treinadores embeleza as partidas. O Brasil x Argentina no Mineirão promete nos proporcionar um duelo com diferentes pensamentos. Enquanto o "filosófico" Tite preza por posse de bola, marcação compacta e sucessivas trocas de passes até chegar ao gol, o "casca grossa" Bauza preza mais por se defender sem a bola e induzir em pressão alta o adversário ao erro para poder "dar o bote".

Apesar dos ideais diferentes, os profissionais têm um fator em comum: são conhecidos por serem exímios estudiosos do futebol - isso poderia ser requisito para todo e qualquer técnico, mas nem todos estudam tanto quanto deveriam, sabem quando têm de evoluir, demonstram amplo conhecimento tático ou são capazes de mudar a história de um jogo. Em seu ano sabático, Tite aprendeu e vem colocando em prática estratégias que ainda não são muito disseminadas no futebol brasileiro, como ataque em bloco e marcação que priorize o preenchimento de espaços sem precisar ser individual. Por sua vez, Bauza acredita que um jogador deve atuar em uma determinada posição conforme exigências das circunstâncias das partidas e a necessidade da equipe. Em suma, há diferenças entre as duas filosofias, mas tanto uma quanto a outra passam por consciência tática e recomposição. 

Em julho deste ano, a revista inglesa FourFourTwo colocou Bauza e Tite entre os 50 melhores técnicos do mundo - ranking este que contou com apenas cinco comandantes de equipes sul-americanas. Sinal de que o reconhecimento pela competência de ambos não é novidade e já ultrapassou as fronteiras da América do Sul. O argentino apareceu em 15º; o brasileiro, em 41º. Os critérios adotados pelo veículo de comunicação foram os desempenhos nas competições, a reputação mundial e a habilidade para mudar, taticamente falando, o andamento dos jogos.

Respeito mútuo

Os sul-americanos se respeitam. "Independentemente de estilo, tenho uma frase feita para este caso: “campeão a gente respeita”. E eu respeito o Bauza pelo campeão que é", disse Adenor sobre Patón em entrevista coletiva antes do Corinthians x São Paulo do Campeonato Paulista deste ano. Eles se enfrentaram àquela ocasião.

Bauza, evidentemente, não deixou de falar sobre o oponente: "Tite é um técnico muito brasileiro. Suas equipes têm ordens táticas que as tornam muito difíceis de se enfrentar e marcar gols. Por isso foi campeão nacional e é um dos melhores hoje"

De acordo com o jornal Lance!, Tite viajou à Argentina em 2014 para assistir à final da Libertadores, na qual o San Lorenzo de "Patón" Bauza superou o Nacional de Assunção e levantou o troféu mais importante do futebol sul-americano pela primeira vez e enterrou as provocações dos rivais - até então, o CASLA era o único clube grande argentino sem uma taça de Libertadores no armário.

Adenor leva vantagem no 'confronto direto' com Patón

Os técnicos que ficarão frente a frente no Mineirão se conhecem de outras praças. Já se enfrentaram três vezes. Duas pela Copa Libertadores e uma pelo Campeonato Paulista. Em 2015, o Corinthians caiu no mesmo grupo do San Lorenzo, então campeão do torneio continental. Venceu pelo placar mínimo em Buenos Aires, com gol de Elias, e empatou sem gols em São Paulo. No início deste ano, o Timão de Tite bateu o Tricolor de Bauza por 2 a 0, com tentos de Lucca e Yago.

Apesar dos números favoráveis em seu duelo particular com o argentino, o brasileiro, como bem conhecemos, não levará isso em consideração e irá preferir manter os pés no chão. O oponente também deve considerar esses números apenas como um mero detalhe. Não à toa fez uma antevisão ousada ao jogo. "Vamos ganhar do Brasil", disse à emissora Crónica. Seria um tremendo feito, tendo em vista que o Brasil jamais perdeu como mandante nas Eliminatórias.