Difícil casamento entre técnicos e clubes

Sul do Brasil é protagonista em exemplos de trabalhos a longo prazo e que deram resultado; Outros, sem respaldo de dirigentes, estão no caminho oposto

Difícil casamento entre técnicos e clubes
Rogério Zimmermann está desde 2012 no Brasil de Pelotas (Foto: Ítalo Silva / Grêmio Esportivo Brasil)

No dia da anunciada separação entre Brad Pitt e Angelina Jolie, uma reflexão sobre a difícil vida dos técnicos de futebol no Brasil. O torcedor está mais do que careca de saber que, quando a situação aperta, mesmo em meio a erros de planejamentos de dirigentes e a ineficiência no trabalho de alguns atletas, a cabeça do treinador é a primeira a parar na guilhotina.

A bem da verdade, o trabalho dos técnicos também passou a ser mais contestado após o 7 a 1 da Alemanha. Para muitos, foi surpresa o renomado técnico Luiz Felipe Scolari, campeão de Copa do Mundo em 2002, sofrer sonora e expressiva goleada. O futebol brasileiro, de certa forma, abriu os olhos. Passou a questionar mais esquemas táticos, observar mais as novas formações e ideias desenvolvidas na Europa. A culpa na safra de jogadores foi para o holofote das perguntas sobre a safra de treinadores. Mas as gestões dos clubes também seguem complicadas no país.

Recentemente, a dupla Gre-Nal demonstra uma sucessão de erros, incoerências e desmanches de projetos. Para trazer somente o exemplo destas temporadas, o uruguaio Diego Aguirre foi demitido após eliminação na Copa Libertadores. Argel Fucks assumiu, motivador e terminou 2015 questionado por muitos torcedores. O presidente Vittorio Piffero bancou sua permanência para 2016. O técnico até conquistou o Campeonato Gaúcho, mas, após uma série de maus resultados no Campeonato Brasileiro, perdeu o cargo. A aposta seguinte foi o ídolo colorado Falcão, que teve míseros cinco jogos de trabalho, nenhuma vitória e nova demissão. Celso Roth, motivo até de anedotas por habitualmente socorrer e estancar sangramentos de Grêmio e Colorado, atualmente busca livrar o Internacional, 18º colocado, do rebaixamento.

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Já no Grêmio, Roger Machado, 41 anos, ídolo pelos títulos conquistados como defensor gremista, parecia ter vez e voz. Acertou bastante ao resgatar o Grêmio de Felipão na temporada 2015 e introduzí-lo à zona de classificação da Libertadores no que parecia um ano decepcionante. Com contrato renovado até 2018, mais acertos e o acompanhamento de erros na trajetória dele em 2016. Após eliminações, insistência em atletas contestados, muitos erros em bola aérea e a culminante sequência de seis jogos sem vencer no Brasileirão, Roger largou o cargo. Apesar da queda de rendimento no ano, grande parcela de gremistas queria sua permanência. A perda de atletas no elenco, como Marcelo Hermes, Giuliano e Bobô foi sentida na caminhada. A direção não pareceu oferecer respaldo e o Grêmio perdia assim seu cargo de postulante ao título e ainda dificultou demais uma missão por G-4. Renato Portaluppi, tão conhecido como ex-jogador e duas passagens como técnico, regressou à casamata do Tricolor gaúcho. Por enquanto, só até o final deste 2016.

Ainda no sul do país, exemplos de técnicos com durabilidade nos cargos e resultados satisfatórios. Neste mês de setembro Leocir Dall'Astra deixou o comando do Ypiranga de Erechim após mais de 4 anos. Estava no Canarinho desde fevereiro de 2012. No período, disputou três gauchões, duas divisões de acesso, uma Copa do Brasil e levou o clube para a Série C do Campeonato Brasileiro. Chegou a beliscar classifação às quartas, mas ficou no 2 a 2 diante do sumido Guarani de Campinas. Bom trabalho de continuidade, que deu esperança e um acesso nacional a um clube do interior gaúcho.

Leocir Dall'Astra
Foto: Divulgação/Ypiranga

Quem assumiu a condição de técnico com a maior longevidade no cargo no Rio Grande do Sul foi Rogério Zimmermann, do Brasil de Pelotas. Atual e surpreendente terceiro colocado na Série B, Rogério está no Xavante desde 2012. Conquistou o acesso de volta à primeira divisão gaúcha, com o título. Após, foi duas vezes campeão do interior, em 2014 e 2015, o melhor clube no Gaúcho fora a dupla Gre-Nal. No Campeonato Brasileiro, escalou a Série D com o vice-campeonato, perdido nos pênaltis para Tombense. Na Série C, passou pelo Fortaleza nas quartas e garantiu o acesso à Série B, que o clube não disputava desde 2000.

Agora, com mais de 4 anos de comando, com o grupo escolhido e lapidado por ele, o Brasil luta ponto a ponto por uma triunfante volta à primeira divisão nacional, longe de Pelotas desde os anos 1980. Zimmermann assumiu o Brasil em baixa, desacreditado, nas velhas arquibancadas de concreto do estádio Bento Freitas e só deixará o clube com a consolidação de uma casa remodelada, mais moderna ao torcedor. Modelo de gestão também em funcionamento no extremo sul. Só para se ter uma ideia, desde que o técnico está no Xavante (2012), o Grêmio teve seis treinadores e o Internacional oito. Nenhum deles voltou a conquistar títulos nacional ou internacionalmente.

Para sair do Rio Grande do Sul e aqui lembrar e ressaltar: Claúdio Tencati, do Londrina, o treinador há mais tempo em cargo no futebol brasileiro. Com direito a colher louros de vitórias. Aos 42 anos, chegou ao clube paranaense em 2011, quando tinha apenas 38. Em trajetória semelhante a Zimmermann, foi campeão da segunda divisão paranaense em seu primeiro ano e, mais além, campeão do Paranaense em 2014, para superar os maiores do estado. Escalou as divisões nacionais a exemplo do Xavante, com subida da Série D para C em 2014. Em 2015, foi até a final contra o Vila Nova e perdeu nas penalidades a chance do título nacional. Agora, na Série B, está caçando uma vaga no G-4, sempre ponto a ponto, vitória a vitória em relação ao Brasil de Pelotas.

Tencati
Divulgação / Londrina

Como último exemplo, Antonio Carlos Zago, técnico do Juventude, está desde agosto de 2015. Passou de um ano de comando. Chegou à final do Gauchão 2016 e está na disputa com o Fortaleza por vaga de volta à Série B nacional, após o Juventude amargar temporadas na Série C. Independente do resultado, a expectativa dos jaconeros bancarem o comandante, que, dentre outras atribuições, trabalha muito com atletas das categorias de base.

Em recado final, não se espera um novo Alex Ferguson no Manchester United, alguém com as mesmas 27 temporadas em um clube brasileiro. Mas, quem sabe, trabalhos de alguns anos para melhores avaliações. Espaço para novos treinadores, na casa dos 40 anos, crescerem, estudarem, trabalharem com as peças de seus elencos e jovens de base. Jair Ventura teve bom início para livrar o Botafogo do rebaixamento e almejar primeira página e até G-4 no Campeonato Brasileiro. Ele trabalha com a base botafoguense há anos e tem apenas 36. Mais um exemplo aos olhares do futebol brasileiro, que tem alternativas e precisa se reinventar em diretores e técnicos.