Da quase falência à final continental: a trajetória da meteórica da Chapecoense

Clube, que quase fechou as portas em 2006, subiu de patamar de forma espetacular em 10 anos, mas teve sonhos interrompidos por uma tragédia

Da quase falência à final continental: a trajetória da meteórica da Chapecoense
Da quase falência à final continental: a trajetória da meteórica da Chapecoense

A sensação de perder quem amamos é totalmente pesada e indescritível. Foi de forma traumática, em choque e sem palavras que o Brasil amanheceu nessa terça-feira, 29 de novembro de 2016, após a tragédia com o vôo que levava a tripulação da Chapecoense para a cidade de Medellin, sede da primeira partida da final da Sul-Americana 2016. O avião da empresa Lamia caiu durante a madrugada de segunda para terça-feira próximo a cidade de Rionegro, cerca de 30km do aeroporto final. A queda vitimou 71 pessoas, incluindo jornalistas, tripulação e convidados.

Esse foi o fim de uma ascensão meteórica de um dos clubes mais queridos do Brasil. A Chapecoense se encaminhava para sua primeira decisão internacional e carregava no peito a torcida de todo brasileiro apaixonado por futebol. A curta trajetória do Verdão de Santa Catarina deixa desolados milhões de torcedores, sejam eles da Chape ou não.

Surgimento das cinzas

São apenas 43 anos de vida. Fundada em 10 de maio de 1973, o time da cidade de Chapecó se mantinha como um típico time pequeno de interior. Mas se viu num momento extremamente delicado quando parcerias com empresários, no começo dos anos 2000, deixaram enormes dívidas na administração do clube. Eram 1.5 milhão de reais em dívidas, colocando a Chapecoense na beira da falência.

Uma nova diretoria entrou na jogada para tentar resgatar e medidas ousadas foram feitas, como de separar 30% da renda dos jogos e da sua arrecadação para o pagamentos daquilo que devia. A mudança passou a dar certo e em 2006, sob o comando de Agenor Piccinin, o clube conquistou a Copa Santa Catarina, durante o segundo semestre, recolocando uma faísca de esperança em todos da cidade para 2007.

Ascensão

Com o fôlego e a boa fase ainda do ano passado, o Verdão seguiu se superando e conquistou a terceira taça do Campeonato Catarinense, após ótima campanha e decisão contra o Criciúma: vitória em casa e empate fora. A expectativa para 2008 novamente era alta, mas a equipe não correspondeu, foi mediano no estadual, caiu cedo na Copa do Brasil e não chegou nas finais da Copa Santa Catarina.

Classificado para a Série D, o time planejava sonhos maiores em 2009 e voltou à decisão do estadul, perdendo o título para o Avaí. Entre chegadas e saídas, a preparação colocou a Chape como favorita em seu grupo no Nacional. A primeira colocação numa chave com Londrina, Ypiranga e Naviraiense animava o torcedro da cidade catarinense. Na reta final, vaga fácil contra o Corinthians Paranaense e, nas quartas-de-final, uma batalha contra o Araguaia, garantindo a vaga na Série C pelo gol fora de casa.

Na semifinal, o time ficou pelo meio do caminho após encarar o Macaé, mas o maior objetivo foi alcançado, subindo de divisão para o ano seguinte.

O sufoco na C

A animação para 2010 logo foi transformada em apreensão. A Chapecoense conseguiu ser rebaixado no Estadual, mas, para sua sorte, o time do Atlético Ibirama declarou impossibilidade de seguir no futebol e a equipe verde se manteve na primeira divisão. O time inconstante ainda conseguiu chegar nas quartas-de-final, ficando próximo da vaga, mas o sonho para esse ano acabou contra o Boa Esporte.

Em 2011, Mauro Ovelha assumiu o time, que contava com nomes como Aloísio "Boi Bandido" e Douglas Grolli, hoje na Ponte Preta. A equipe dominou o estado e levou mais um estadual, mas novamente não conseguiu se manter regular na segunda fase e acabou sendo eliminada. Mais uma decepção  que acabou resultando na demissão do treinador pra 2012, iniciando a reformulação da equipe.

Certamente 2012 foi uma temporada histórica ao clube. Primeiro porque o treinador Gilberto Pereira começou arrasando com cinco vitórias nas cinco primeiras partidas, vencendo times como Figueirense e Avaí, mas novamente a equipe caiu de rendimento e passou sete jogos sem vencer, resultando na demissão de Pereira. Itamar Schulle foi contratado e comandou o time até a semifinal do Catarinense, quando foi eliminado.

A permanência de Itamar foi fundamental para a Série C. Mesmo eliminado para o Cruzeiro na Copa do Brasil 2012, o time mostrou garra e qualidade, surpreendendo o Brasil e mostrando a força para o Campeonato Nacional daquele ano. Reformulada, a tabela reservava várias partidas e a Chape avançou para as quartas-de-final, encarando o Luverdense. Com a primeira partida em casa, um ótimo 3 a 0 selou a classficação e o acesso para a Série B de 2013.

Azarão na A

Ninguém esperava a Chape como favorita ao acesso à elite do futebol brasileiro. Só que um começo quase perfeito nas dez primeiras rodadas fez o patamar da Chapecoense aumentar e muito, a ponto de se poder sonhar com a vaga. Com duas rodadas de antecedência, o time de Chapecó empatou com o Bragantino e surpreendeu carimbando mais um acesso, mais uma conquista história e vaga na Série A do Brasileiro, algo impensável desde a fundação do clube.

Brigar pra não cair? Muito diferente

Quem olhava para a tabela do Brasileirão 2014 colocava a Chape como candidata ao rebaixamento. Ainda mais após um péssimo Estadual, onde o time brigou para não cair e depois de novamente ser eliminado na segunda fase da Copa do Brasil para o Ceará. O torcedor já se preparava para o primeiro rebaixamento de sua história, mas a coisa foi diferente.

A expectativa e briga era pra seguir na primeira divisão. Durante as 38 rodadas, contando com a força do torcedor na Arena Condá e partidas históricas, como a goleada contra o Internacional por 5 a 0, o time conseguiu o objetivo, apesar da campanha muito irregular e a 15ª posição carimbou mais um ano de elite.

O começo da história

Mais conhecida e respeitada, a Chape também começava a somar carinho de torcedores dos grandes clubes brasileiros. A temporada 2015 novamente começou inconstante, com um Estadual sem grandes sucessos e nova eliminação na segunda fase da Copa do Brasil, dessa vez para o Sport nas penalidades. No entanto, a saída da copa classificou o time para o primeiro torneio internacional da equipe, a Sul-Americana.

Se no Brasileiro o time novamente fez o suficiente para se manter na Série A ocupando a metade da tabela, por outro, o time fez história na América do Sul. Na primeira fase, duelo local contra a Ponte Preta e classificação tranquila em casa. Era a vaga na fase internacional, encarando o Libertad, do Paraguai. Na primeira partida fora do país, Camilo marcou e entrou pra história do clube como o primeiro jogador a anotar um gol internacional. O empate deu tranquilidade para carimbar a vaga com a força da torcida, mas ela veio de forma dramática, após novo empate no tempo normal e vaga ganha nas penalidades.

Nesse momento, o time levava a torcida de todo país, ainda mais para encarar o poderoso, tradicional e campeão da Libertadores, River Plate. No gigante Monumental de Nuñez, o time não segura a pressão, mas consegue marcar um gol. A derrota por 3 a 1 era reversível e a Arena Condá estava pulsando. 

No segundo jogo, Bruno Rangel fez o Brasil vibrar, mas o River marcou um gol. A pressão foi enorme, muitos gols foram perdidos e a Chape ficou por um gol da disputa de pênaltis. Apesar da eliminação, todo o país aplaudiu o Verdão. O ano ainda acabou com mais uma goleada contra time grande: uma sapecada por 5 a 1 no Palmeiras.

Chape, iremos sempre te erguer

A nova queridinha do Brasil chegava em 2016 cheia de expectativas e sonhos. A boa temporada passada, com experiência internacional e novas contratações, deixava o torcedor animado. Após um tempo de jejum, o time conseguiu o título do Estadual e entrava tendo boas chances de novamente seguir na Série A. O time, novamente eliminado na Copa do Brasil, tinha planos ousados e, sob o comando de Caio Jr.,ajeitou seu time, trabalhou e novamente surpreendeu.

Com uma campanha mais regular na Série A, a equipe pôde trabalhar melhor o que fazer na Sul-Americana. Na fase nacional, eliminou o Cuiabá se garantindo em casa. Depois, a façanha só foi aumentando.

Tendo apoio cada vez maior e irrestrito do torcedor brasileiro, o time encarou o Rey de Copas, Independiente. E a vaga veio no sufoco, nas cobranças de pênalti após dois empates por 0 a 0. Danilo foi herói pela primeira vez.

Nas quartas, o Junior Barranquilla, da Colômbia, foi o rival e a coisa estava complicada após derrota fora de casa por 1 a 0. Mas o Índio Condá estava com a equipe. E sob chuva torrencial, a Chape não tomou conhecimento, enfiou 3 a 0 e estava na semifinal pela primeira vez em sua história. O rival? San Lorenzo, o time do Papa.

Em Buenos Aires, Ananias foi o herói ao anotar o único gol brasileiro, trazendo a vantagem do gol fora para cá. Com o placar de 1 a 1, empate sem gols daria a vaga ao time nacional. E ela não poderia vir de forma mais emocionante do que com defesa do grande herói Danilo, defendendo chute à queima roupa com o pé direito, sendo comemorada como gol. Foi a defesa da final. A defesa do final.

A história ninguém apaga

27/11. Domingo. A Chapecoense visita o Palmeiras e sai derrotada da partida, carimbando o título palmeirense no Brasileirão 2016. De olho na decisão contra o temido Atlético Nacional de Medellin, a Chape faz seus últimos acertos.

28/11. Verdão do Sul teria um vôo fretado direto para Medellin, mas precisa parar em Santa Cruz de la Sierra e lá pga um outro avião. Essa nova aeronave não teve seu destino completo. Os jogadores não tiveram seus sonhos completos. O destino não quis, a vida não deixou, mas ninguém apagará o que foi escrito. Ninguém apagará Bruno Rangel, maior artilheiro. Ninguém apagará Danilo, maior ídolo e herói da Chapecoense. Ninguém apagará Ananias, Cleber Santana, motores no meio-campo. Ninguém apagará a chama verde que você, Chapecoense, acendeu em cada amante do esporte e que conquistou nas pessoas que não te conhecia antes do acidente.