A necessidade faz o acaso?

“Escuridão Total sem Estrelas” de Stephen King, mostra em quatro contos como pessoas normais podem ter suas vidas mudadas e destruídas pela cobiça, inveja, vingança e mentira

A necessidade faz o acaso?
Além da capa preta, paginas tem bordas escuras. (Foto: Fernando Rhenius)

Transformar pessoas normais em assassinos frios e dissimulados. Estimulados por situações comuns em suas vidas simples e sem graça. Este talvez seja uma das principais qualidades de Stephen King, autor conhecido por contos e histórias de terror e suspense. Não é atoa que King é um dos preferidos dos estúdios de cinema, quando diretores havidos por boas histórias, sabem aonde encontrar sangue, medo e finais inesperados.

Não são poucos os livros que ganharam as telas, “A espera de um milagre”, “Carrie, a estranha”, “IT” e mais recentemente “Sob a redoma”. Seus contos misturam elementos reais a demônios, surtos psíquicos e mundos paralelos.

É mais ou menos isso que o leitor vai encontrar em “Escuridão Total sem Estrelas”. O livro foi lançado em 2015 pela editora Suma de Letras. Reunindo quatro contos que mostram pessoas comuns tendo a vida destruída ou transformada em questão de minutos. A disposição das histórias começa com o conto “1929”. Tudo se passa nos anos 1920 e é narrada por Wilfred Leland James, fazendeiro simples, casado com Arlette, mulher mandona e que toma as decisões da casa. O casal tem um filho, Henry um adolescente quieto, sempre com um jeito desconfiado.

O enredo gira em torno da vontade de Arlette vender as terras herdadas do pai, algo que Wilfred tenta a todo custo impedir. A partir dai, começa uma série de tentativas de mudar a opinião da esposa. A narrativa é cheia de detalhes, situações que poderiam ser descritas em poucas linhas, podem ter paginas e mais páginas de detalhes, uma das características de King. O que pode parecer cansativo para quem não está acostumando com suas obras.

“Quando o trabalho já estava quase acabando, parei e levantei a cabeça, a respiração presa no peito, os olhos arregalados e o coração parecendo pulsar em minha mão esquerda mordida. Ouvi o barulho de algo sendo arranhado, que parecia vir de todos os lugares.” (Página 111, Conto 1922).

O final pode até parecer óbvio. Os personagens que aparecem no decorrer da história botam mais dúvidas do que certezas nas ambições do fazendeiro. Ele vai conseguir mudar os anseios da esposa para permanecer com as terras? O filho vai ficar do lado da mãe ou ceder a pressão do pai

Em “Gigante do volante”, King nos leva aos dias atuais. Tess uma escritora bem sucedida. Seus livros da série “Sociedade do Trico de Willow Grove”, são o seu ganha pão somado a palestras sobre literatura. Com hábitos simples, não deixou que a fama por conta de suas publicações subisse a cabeça. Dirige um carro normal para os padrões americanos, reside a mesma casa a anos. Talvez a única concessão seja seu mac. Sua vida muda após uma palestra a poucos quilômetros de casa.

“Então Tess correu, mas só em sua mente. O que ela fez no mundo real foi continuar pressionada contra a lateral da picape, olhando para ele, um homem tão alto que bloqueava o sol, deixando-a sob sua sombra. Ela pensou, então, que menos de duas horas antes quatrocentas pessoas – a maioria senhoras de chapéu – a aplaudiam em um auditório pequeno, mas satisfatório.” (Página 165, conto Gigante do Volante).

Livro é editado pela Suma de Letras. (Foto: Fernando Rhenius
Livro é editado pela Suma de Letras. (Foto: Fernando Rhenius

Instruída a pegar um caminho mais rápido para chegar antes da janta e alimentar seu gato Fritzy, Tess acaba caindo em uma armadilha. Brutalmente estuprada, a escritora acaba conseguindo sair de seu cativeiro. Orientada por vozes que veem do seu GPS, Tess não se acua frente a desgraça e busca vingança. Quem estaria ao seu lado em um momento desse? Dos quatro contos este é o mais pesado. O autor explora com detalhes os momentos de terror que a mulher de vida simples passa. Além do desejo de justiça e os meios de conseguir isso, King perpetua a mensagem de que grandes traumas podem ser a porta para grandes mudanças em nossas vidas. O que nem sempre é algo ruim.

A inveja é cobiça são o pontos altos do terceiro conto do livro, “Extensão Justa”. Streeter, portador de um câncer terminal, nunca teve uma vida fácil. Emprego mediano, falta de dinheiro e um casamento que se desgastou mais pelas dificuldades do dia a dia do que pela falta de amor.

“Streeter contemplou a ideia de mais 15 anos de vida com uma avidez melancólica. Parecia muito tempo, principalmente se comparado ao que realmente tinha pela frente: seis meses de vômitos, dores cada vez piores, coma e morte. Além de um obituário que, sem dúvida, incluiria a frase “após uma longa e corajosa batalha contra o câncer”. Blá-blá-blá.” (Páginas 272/273, Conto Extensão Justa).

Voltando para casa depois de um dia de trabalho rotineiro e estafante, acaba parando em uma barraquinha de beira de estrada aonde conhece um vendedor, George Odabi. O que chama a atenção de Streeter é o jeito demoníaco do vendedor e principalmente o que ele oferta em sua barraca, absolutamente nada. Mas como um bom vendedor Odabi oferece algo para Streeter “extensões de vida”. Como tudo na vida é uma troca, o que o misterioso vendedor pediria para um portador de câncer? Ou o que é pior. Qual o valor que uma pessoa sem grandes feitos na vida poderia dar em troca da cura definitiva?

O último conto assim como Gigante do volante, tem como personagem central a figura feminina. “Um bom Casamento” retrata Darcy, esposa de Bob Anderson um contador que largou a profissão para se dedicar a numismática. Com uma vida tranquila, um marido apaixonado nada poderia abalar seu casamento, a não ser a mentira.

“- Este não é um daqueles filmes em que o marido psicopata persegue a esposa apavorada pela casa. Se você decidir me entregar à polícia, eu não vou levantar um dedo para impedir. Mas sei que você já pensou no que isso faria às crianças. Você não seria a mulher com quem me casei se não tivesse pensado. O que talvez não tenha passado pela sua cabeça é no que isso faria a você.” (Página 351, conto Um bom casamento).

Todos tem segredos, e os que Darcy descobriu sobre seu marido podem mudar a vida de muitas pessoas. Este é o menor dos contos, e mesmo sendo o último pode ser o primeiro para quem quer iniciar a leitura. Esta também é o menos rico em detalhes de ambiente e dos personagens, mas nem por isso menos intrigante e com um final revelador.

Sempre preferi as publicações de contos do autor. São nelas que todos os superlativos que falam a respeito se profetizam. A diversidade de histórias, a qualidade da escrita é uma verdadeira aula. Assim como “Sobre a Escrita”, aonde King ensina sobre a arte de transcrever as ideias para o papel, “Escuridão”, é aquele tipo de livro em que o leitor se pergunta se todas as histórias foram feitas pela mesma pessoa. Porém uma coisa é inconfundível. O medo, pavor e repudia que temos dos personagens no decorrer da narrativa, a marca registrada de Stephen King.

Ficha técnica.
Editora: Suma de Letra
Edição: 1
Ano de Edição: 2015
ISBN: 8581052754
Páginas: 392
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Site do autor (em inglês)