Vanderlei Cordeiro de Lima: a prova de que a vitória nem sempre é o mais importante

Ex-maratonista brasileiro entrou para a história dos Jogos Olímpicos mesmo sem vencer e foi homenageado na abertura da Rio 2016

Vanderlei Cordeiro de Lima: a prova de que a vitória nem sempre é o mais importante
Vanderlei Cordeiro de Lima: a prova de que a vitória nem sempre é o mais importante

Alcançar o status de ícone do esporte brasileiro é uma honra que poucos atletas na história conseguiram. A posição de referência e destaque mundial é ainda mais rara. O maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima foi um dos que alcançaram essa posição por conta de seu desempenho e sua carreira no atletismo. Desde as vitórias e excelentes desempenhos em maratonas conceituadas como as de Tóquio e Nova Iorque até o incidente que marcou sua carreira, na prova dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o brasileiro teve muita história para contar.

Nascido no interior do Paraná, Vanderlei é filho de um casal de nordestinos e tem origem humilde, chegando a trabalhar como boia-fria, cortando cana-de-açúcar para ajudar a família. Como muitos outros, descobriu o esporte na escola, aos 11 anos. Contando com o apoio do diretor da escola, começou a competir em campeonatos interescolares e, aos 14 anos, passou a competir em provas de rua, incentivado por um professor de educação física, vencendo uma prova no interior do Paraná. Sua carreira como maratonista começou oficialmente em 1994 na maratona de Reims, na França.

Carreira antes de Atenas: começo por acidente, coleção de vitórias e recordes

Vanderlei começou sua carreira como maratonista de forma inusitada. Sua participação na prova disputada em Reims era servir como “coelho”, um corredor que dá o ritmo aos outros, mas que não tem ambições de realmente disputar a prova até o fim, nem de vencê-la. No entanto, o brasileiro acabou fazendo uma prova completamente fora do planejado. Se sentindo bem ao chegar à marca de 21km, quando deveria abandonar o percurso, Cordeiro de Lima resolveu continuar correndo enquanto se sentisse bem. No fim, acabou vencendo a prova com um tempo de 2h11min06s.

A partir de então, sob o treinamento do treinador Ricardo D’Angelo, Vanderlei começou a realmente competir como maratonista. Em 1996, venceu a maratona de Tóquio, estabelecendo seu primeiro recorde sulamericano, correndo com o tempo de 2h08min38s. Além da vitória, o atleta conseguiu se classificar para os Jogos Olímpicos de Atlanta, a serem realizados no mesmo ano. Seu desempenho, no entanto, foi prejudicado por problemas com os tênis e Vanderlei terminou apenas na 47ª colocação.

Nos anos seguintes, Vanderlei continuou tendo excelente desempenho nas provas de rua ao redor do mundo, chegando a bater seu próprio recorde sulamericano na maratona de Tóquio de 1998. Em 1999, o começo da consagração: nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, o brasileiro não só foi medalhista, como venceu a prova. Além disso, no mesmo ano, conseguiu uma terceira colocação na maratona de Fukuoka, perdendo para o futuro campeão olímpico Gezahegne Abera. Na Olímpiada de Sydney, em 2000, Vanderlei teve problemas por conta de lesões e acabou apenas na 75ª posição. Três anos depois, acabou vencendo mais uma vez a maratona no Pan de Santo Domingo.

Atenas 2004: preparação intensa, esperança de ouro olímpico e incidente memorável

Os Jogos Olímpicos de Atenas poderiam representar a última oportunidade do atleta brasileiro conseguir um grande desempenho nessa competição, já que Vanderlei tinha, na época, 35 anos de idade. Depois de vencer a maratona de Hamburgo, no começo do ano, o maratonista passou um período treinando na cidade colombiana de Paipa, conhecida como reduto de treinamento de corredores de longa distância por conta da altitude, já que é situada a mais de 2500m acima do nível do mar. O corredor colombiano Jacinto López afirmou, em entrevista, que acreditava que Vanderlei tinha condições de vencer o recordista mundial Paul Tergat, favorito antes da Olímpiada: “Eu acreditava que ele poderia terminar nos cinco primeiros lugares e, talvez, dar a Paipa a sua primeira medalha olímpica. É esse o orgulho que sentimos por ele e o quanto nos sentimos próximos a ele”, declarou, em entrevista ao site da Associação Internacional de Federações de Atletismo, a IAAF, na sigla em inglês.

Antes da prova, o técnico Ricardo D’Angelo entregou a Vanderlei uma carta para apoiá-lo. Do texto que foi divulgado mais tarde, vale destacar o seguinte trecho: “Se você estiver se sentindo bem, arrisque, porque se não arriscar, você nunca vencerá. Minha confiança em você é imensa, então vamos lutar pelo objetivo com que sonhamos há tanto tempo. Não importa o que aconteça no fim, lembre-se que você sempre terá minha amizade e confiança, e também lembre-se que eu o admiro pela pessoa maravilhosa que você é. Então, boa sorte, e vamos tomar uma cerveja juntos depois da corrida”. A confiança do técnico e dos seus companheiros de treino colombianos acabaram por se provar muito bem depositadas, já que Vanderlei teve um excelente começo de prova e liderou a mesma por mais de uma hora.

No entanto, na chegada ao 35km, o brasileiro passou por momentos de tensão que ficaram marcados na história dos Jogos Olímpicos. Liderando a prova com certa vantagem, foi atrapalhado pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan, que o jogou para fora da pista. Ajudado pelo público, Vanderlei conseguiu voltar ao trajeto ainda na liderança, mesmo perdendo parte da vantagem. No entanto, o efeito da intervenção do espectador foi muito maior, fazendo com que o brasileiro perdesse a concentração e não conseguisse manter o mesmo ritmo. Faltando apenas 7km pelo fim, acabou sendo ultrapassado por dois competidores, mas se manteve firme para conseguir o bronze olímpico, chegando ao estádio ovacionado pelo público presente e comemorando como se realmente fosse o vencedor da prova, fazendo o gesto do aviãozinho, com os braços abertos ao se aproximar da linha de chegada.

Repercussão pós jogos: homenagens desde a volta ao Brasil até a honra de acender a pira olímpica no Rio

Vanderlei deixou Atenas com uma medalha de bronze que, segundo ele, "tinha gosto de ouro". O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) tentou entrar com um recurso para que o maratonista recebesse a medalha de ouro, já que estava em vias de consegui-la quando foi atrapalhado pelo padre irlandês. No entanto, tal recurso foi negado e Cordeiro de Lima seguiu com o bronze. Apesar disso, o Comitê Olímpico Internacional (COI) o agraciou com a medalha Pierre de Coubertin, considerada uma das maiores honras da entidade, dada apenas para atletas que valorizam a competição olímpica acima da vitória. Até hoje, ele é o único sulamericano a receber essa condecoração.

Uma pequena homenagem, mas bastante significativa, ocorreu logo após seu retorno ao Brasil. O jogador de vôlei de praia Emanuel, encontrou com Vanderlei em um programa de televisão e retirou a sua própria medalha de ouro do pescoço, oferecendo-a ao maratonista, que recusou. Outra homenagem importante lhe foi concedida em 2014 pelo COB. Vanderlei recebeu o troféu Adhemar Ferreira da Silva das mãos do velejador Torben Grael. Esse prêmio é considerado a honraria máxima do Comitê Olímpico Brasileiro e é concedido a atletas que representem a moral, ética e os valores do esporte.

No entanto, em 2016, Vanderlei teve uma honra muito maior. Com a desistência de Pelé, anteriormente escolhido para acender a pira olímpica no estádio do Maracanã, ao fim da cerimônia de abertura dos Jogos, o ex-maratonista teve a missão de participar desse momento histórico para o Rio de Janeiro e o Brasil. A tocha passou pelas mãos de Gustavo Kuerten, o Guga, e Hortência, antes de chegar a Cordeiro de Lima, que sob os olhos do mundo inteiro, acendeu a pira e consumou o início da Olímpiada do Rio. Ovacionado pela plateia, era impossível não notar a alegria e emoção no semblante do ex-atleta. Um momento histórico e, de certa forma, uma reparação para um grande atleta do esporte mundial.