Atletas paralímpicos nos ensinam que o esporte é sinônimo de resiliência

A VAVEL Brasil reuniu paratletas da Rio 2016 com histórias marcantes

Atletas paralímpicos nos ensinam que o esporte é sinônimo de resiliência
Foto: Christophe Simon/Getty Images

Abra um dicionário e procure pela palavra "Resiliência", substantivo feminino. Entre as definições está "Habilidade de se adaptar com facilidade às intempéries, às alterações ou aos infortúnios". Nesse sentido, talvez não exista exemplos melhores que os atletas paralímpicos, esses heróis os quais lutam diariamente por uma sociedade mais inclusiva às pessoas com necessidades especiais - talvez eles sejam os militantes mais significativos dessa causa - e nos ensinam que cada dia vivido é uma conquista.

Entre os dias 7 e 18 de setembro, o Rio de Janeiro teve a honra de receber o maior evento destinado a paratletas. Sem dúvidas, um lindo capítulo dos 454 anos de história do município.

A VAVEL Brasil reuniu paratletas da Rio 2016 com histórias marcantes.

Daniel Dias (Brasil)

Buda Mendes/Getty Images

Com as nove medalhas conquistadas nos Jogos do Rio 2016 (quatro de ouro, três de prata e duas de bronze), o nadador brasileiro Daniel Dias chegou à incrível marca de 24 medalhas paralímpicas, somando-se às nove de Pequim 2009 (quatro de ouro, quatro de prata e uma de bronze) e às seis de Londres 2012 (todas de ouro!), e se consagrou no nadador mais vencedor da História paralímpica. O posto pertencia ao australiano Matthew Cowdrey e suas 23 medalhas - ele competiu em Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012.

Em solo brasileiro, Daniel Dias conquistou o ouro nas categorias 100m livre classe S5, 50m costas S5, 200m livre S5 e 50m livre S5. A prata veio nos 100m peito SB4, no revezamento misto 4x50m livre e no revezamento masculino 4x100m livre. Já o bronze foi conquistado nos 50m borboleta S5 e no revezamento 4x100m medley 34 pontos.

O paulista de Campinas, que nasceu com os braços e os pés mal formados, já recebeu três vezes o troféu Laureus, considerado o "Oscar do Esporte", pelos ótimos desempenhos como paradesportista. Apenas outros três brasileiros já foram agraciados com esse prêmio: os ex-jogadores de futebol Pelé (2000) e Ronaldo (2003) e o skatista Bob Burnquist (2002). O cidadão de Camanducaia, Minas Gerais, onde viveu durante sua infância e adolescência, é um fenômeno do esporte.

Zulfiya Gabidullina (Cazaquistão)

Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

Aos 50 anos, Zulfiya Gabidullina levou o Cazaquistão ao ponto mais alto do pódio na prova dos 100m livre categoria S3 da natação feminina. O relato da atleta após a inédita conquista foi forte. "Idade não é obstáculo. É só algo que está escrito no meu passaporte. Não sinto minha idade", destacou.

Quando tinha apenas cinco anos de idade, Gabidullina sofreu lesões na medula ao ser atingida por uma moto. Sua primeira participação em Paralimpíadas aconteceu em Londres 2012. Ela lembra que o desempenho àquela altura não foi satisfatório, mas foi possível juntar os cacos para construir um lugar na História. "Em Londres, eu fiquei em penúltimo lugar. E, agora, aqui estou eu, em primeiro! Isso me diz que em quatro anos fui capaz de realizar algo que queria provar a mim mesma que poderia fazer. Se outros podem fazer, então eu também posso", comemorou.

A nadadora não perde tempo e já mira o futuro. "Eu estava buscando esta vitória há 25 anos. Eu estava ansiosa por esta vitória, treinei muito por ela, e é muito bom saber que eu era capaz de realizar meu objetivo. Espero ter ainda mais vitórias e recordes no futuro", frisou.

O recorde mundial alcançado pela cazaque na disputa foi a "cereja do bolo". Ela completou a prova em 1:30.07 minuto.

Abdellatif Baka (Argélia), Tamiru Demisse (Etiópia), Henry Kirwa (Quênia) e Fouad Baka (Argélia)

A. Loureiro/Getty Images

Por que reunimos tantos atletas em um mesmo "bloco"? A resposta é simples e deixa os amantes do esporte de queixo caído: o desempenho dos irmãos argelinos Abdellatif Baka e Fouad Baka, do etíope Tamiru Demisse e do queniano Henry Kirwa, atletas dos 1.500 metros rasos classe T13, prova destinada a corredores com baixa visão, renderia medalhas de ouro na Olimpíada a todos eles!

O vencedor Abdellatif Baka completou a corrida em 3m48s29. Este ano, o norte-americano Matthew Centrowitz correu a prova nos Jogos Olímpicos em 3m50s. O tempo de Tamiru Demisse, que ficou com a prata na Paralimpíada, foi 3m48s49. Henry Kirwa foi bronze com 3m49s59. Já o quarto colocado Fouad Baka apareceu com 3m49s84.

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, a diferença se deve às estratégias adotadas nas competições. Na corrida realizada na Olimpíada, os atletas preferiram se poupar durante a prova e aumentar o ritmo nos momentos finais. Com isso, a disputa foi considerada mais demorada do que o comum. Contudo, esse fator não tira o mérito e a grandeza dos feitos dos atletas paralímpicos, os quais ficaram "ligados no 220" a todo instante.

Na prova da Paralimpíada, existem três classificações de acordo com o grau de deficiência visual: T11, T12 e T13. Quanto maior for o número, menos grave é o caso.

Ibrahim Al-Hussein (Síria/Atletas Paralímpicos Independentes)

Divulgação/Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur)

O nadador refugiado sírio Ibrahim Al-Hussein compete pela delegação dos Atletas Paralímpicos Independentes, na qual faz companhia ao iraniano Shahrad Nasajpour, também refugiado. Há quatro anos, Al-Hussein fugiu da Síria em uma cadeira de rodas. Em sua terra natal, uma explosão o fez perder a parte inferior da perna direita. Enquanto fugia da guerra civil que assola seu país, o atleta passou pela Turquia e cruzou o mar Egeu em um bote que saiu da cidade turca de Izmir e chegou à ilha grega de Lesbos. Esta é a rota da maioria dos refugiados do Oriente Médio.

Ibrahim Al-Hussein hoje vive na Grécia, onde conseguiu asilo e busca se aperfeiçoar na natação e no basquete em cadeira de rodas. Antes da tocha olímpica chegar ao Brasil, ele carregou o instrumento no campo de refugiados de Eleonas, em Atenas.

Mesmo competindo em uma delegação independente, o sírio jamais esqueceu sua pátria. Ele também nunca escondeu do público seu desejo pelo fim da guerra civil que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), já matou mais de 300 mil pessoas e já deslocou mais de 65 milhões de pessoas mundo afora desde o seu início, em 2011. De acordo com o jornal Extra, a família de Al-Hussein ficou na Síria, e ele só conversa com seus pais a cada 10 dias, seja por mensagem no celular ou pela internet.

Um dos principais porta-vozes da causa dos refugiados, o nadador fez um apelo à imprensa internacional. "Todos sabem qual é o problema da Síria. Convoco todos os países a pararem o derramamento de sangue. Não importa quem vença, quero é a paz", disse. "Eu gostaria de avisar ao mundo todo que entre nós refugiados existem esportistas com potencial, entre homens e mulheres", completou.

Ele marcou presença nas provas de 50m e 100m livre classe S9 e não conquistou medalhas, mas conquistou o carinho do público, a quem deu satisfação. "Preciso treinar mais para obter melhores resultados futuramente. Mas se isso não é fácil, me dá muita motivação para melhorar. Eu não olho para trás, eu sigo em frente", garantiu.

Ibrahim Hamadtou (Egito)

Lucas Uebel/Getty Images

"Nada é impossível". Esta frase é o estímulo do mesa-tenista Ibrahim Hamadtou para seguir em frente. E ele o faz com louvor. Seu estilo de jogo encanta o planeta. Ele pega a bolinha de tênis de mesa com os dedos do pé direito e a levanta. Quando o objeto fica acima de sua cabeça, ele gira o pescoço e saca a bola com a raquete a qual segura pela boca. A cabeça age como um braço, e a boca age como uma mão. Sua jogada se consagrou mundialmente através de um vídeo com mais de 2 milhões de visualizações no YouTube.

O próprio atleta já admitiu publicamente que demorou três anos para adquirir tamanha habilidade.

Hamadtou perdeu os dois braços quando tinha 10 anos e foi atingido por um trem. Após a tragédia, venceu a depressão. "Depois do acidente, ele se trancou em casa por três anos. Não queria sair", disse seu técnico nos últimos 20 anos, Hossameldin Elshoubry, à AFP. Isac, seu antigo treinador, já falecido, ajudou Ibrahim a superar a depressão. "Depois que fez isso (entrar no tênis de mesa), sua vida mudou. Ele quis voltar a estudar", completou.

Hoje, Ibrahim Hamadtou é casado, tem três filhos e é o atual campeão nacional e vice-campeão africano de tênis de mesa. No Egito, ele treina crianças de 10 a 12 anos que não têm braços.

A mensagem que esta lenda do tênis de mesa (palavras do mesa-tenista britânico David Wetheril, que é outro fenômeno da Internet, apoia-se sobre muletas por ter nascido com uma deficiência chamada DIsplasia Epifisária Múltipla, que atinge as pernas, e foi adversário de Hamadtou nos Jogos) nos deixa está em uma declaração à CNN: "Eu acredito que nada é impossível enquanto você trabalha duro".

Mesmo após perder para Wetherill, Hamadtou não deixou de esbanjar felicidade. "Estou feliz de ter vindo do Egito, de estar aqui nos Jogos Paralímpicos e de ter jogado contra um campeão", afirmou.

Antônio Leme, Evani Soares e Evelyn de Oliveira (Brasil)

Raphael Dias/Getty Images

O trio que compõe a equipe brasileira mista classe BC3 da bocha fez história ao trazer o primeiro ouro do Brasil na categoria. Antônio Leme, Evani Soares e Evelyn de Oliveira fizeram o Hino Nacional Brasileiro tocar na Arena Carioca 2 após vencerem a favorita Coreia do Sul pela expressiva contagem de 5 a 2 na decisão.

Evani, cuja paralisia cerebral compromete seus movimentos, definiu o apoio da torcida como fator fundamental para a conquista. "Nunca numa partida de bocha tem essa barulheira toda. Incentivou mais ainda, deu mais gás para irmos atrás, deu mais gás para correr atrás e a gente conseguiu", disse a profissionais de imprensa depois da vitória.

Antônio, o "Tó", tem paralisia cerebral que reflete no seu corpo e na sua fala. Tudo que ele diz.é interpretado por Fernando, um de seus irmãos. "A bocha mudou a minha vida. Amo o que faço", disse Antônio após o ouro.

Já Evelyn, que não tem movimento nos membros inferiores em decorrência de uma atrofia muscular espinhal, define o esporte como um divisor de águas da sua vida. "Eu vivia essa realidade da pessoa com deficiência, dentro de casa, só estudava, não tinha muito contato com a sociedade. Passei a praticar o esporte e descobri que limites que eu acreditava que tinha, na verdade não existiam", disse à Agência Brasil.

Alessandro Zanardi (Itália)

Andreas Solaro/AFP/Getty Images

Ex-piloto da Fórmula 1 e da Fórmula Indy, o italiano Alessandro Zanardi perdeu as duas pernas após um acidente em 2001, quando ainda pilotava na Indy. No circuito EuroSpeedWay Lausitz, na Alemanha, Zanardi era postulante à vitória na prova e, após um pit stop, rodou e ficou atravessado na pista. Foi atingido em cheio pelo carro do canadense Alex Tagliani e quase perdeu a vida.

Zanardi teve uma recuperação surpreendente. Dois anos depois do trágico acidente, voltou à mesma pista, onde pilotou um carro adaptado às suas necessidades e foi homenageado.

Em 2007, dois anos  adotou o paraciciismo, que se converteu em sua mais nova paixão. Nos Jogos de Londres 2012, foi ouro nas categorias contrarrelógio e de estrada e prata no revezamento por equipe, todas na classe H4. No Rio, vieram mais dois ouros e uma prata. Ficou em primeiro lugar na categoria contrarrelógio e no revezamento por equipe; no ciclismo de estrada, ficou em segundo - esta medalha de prata, inclusive, foi conquistada na última quinta-feira (15), exatos 15 anos após o acidente que lhe tirou as duas pernas. Com esses resultados, Zanardi tornou-se o paraciclista mais bem sucedido da História.

"Esse dia me faz lembrar que tive muita sorte de sobreviver, de ter uma segunda chance. E acredito que tenho feito bom uso dela", comentou à imprensa após a prata. "Hoje, 15 anos atrás, renasci. Uma prata no meu aniversário. Nada mal!", sublinhou.

Volta e meia, "Alex" Zanardi mata a saudade do automobilismo. Em 2014, disputou a temporada do Mundial de Gran Turismo. Em 2015, participou das 24 Horas de Spa.

O italiano nos ensina que todo dia é uma oportunidade para renascer, uma chance para reconstruir a vida.

Marieke Vervoort (Bélgica)

François Nel/Getty Images

O esporte pode ser uma razão para viver. Este é o lema da atleta belga Marleke Vervoort. Desde 2008, ela tem autorização do governo da Bélgica para recorrer à eutanásia quando "seu corpo lhe proporcionar mais dias ruins do que bons". Circulou-se na imprensa de seu país a informação de que ela iria recorrer à prática logo após os Jogos do Rio. Ela, contudo, alegou ter sido mal interpretada e disse aos jornalistas que "o suicídio está totalmente fora de questão".

"Se eu não tivesse os papéis, acredito que já teria cometido suicídio. Acredito que haveria menos suicídios se cada país adotasse uma legislação de eutanásia", disse a atleta, forte defensora do direito à eutanásia. Ela revelou que enfrentou dificuldades para convencer os médicos a aprovarem o seu pedido. "Espero que todo mundo veja que isso não é assassinato, mas faz as pessoas viverem por mais tempo", pontuou.

Por outro lado, admitiu que este era o seu último ano nas pistas. Vorvoot encerra uma carreira vitoriosa, com quatro medalhas paralímpicas (ouro e prata em Londres 2012 e prata e bronze no Rio 2016), título mundial no paratriatlo e recordes em provas de cadeiras de rodas. Agora, o discurso se baseia em aproveitar a vida.

"Terei mais tempo para meus amigos e família. Quando estava treinando para a Paralimpíada, não podia dar atenção. E vou me dedicar a outras coisas que quero fazer. Tenho uma enorme lista de desejos. Mas sei que meu próximo esporte, que já pratiquei duas vezes, é o paraquedismo indoor, que te dá uma sensação de liberdade, onde você não precisa de uma cadeira de rodas", revelou. "Nunca pensei que fosse possível fazer isso. É maravilhoso, você se sente livre como um pássaro e não precisa treinar duro todo dia. Minha mente diz: 'Continue treinando, continue correndo', mas meu corpo diz: 'Não!'. E eu preciso ouvir meu corpo, porque se eu continuar, vou regredir", acrescenta. "Quero fazer tudo sem pressão agora e curtir cada coisinha. Dinheiro e materialismo não me dizem nada, mas me considero muito rica por ter muitos amigos que estiveram do meu lado nos momentos ruins e bons", completou.

Independentemente do seu posicionamento em relação à eutanásia, você deve reconhecer que Marleke Vervoort, prata nos 400m em cadeira de rodas e bronze nos 100m da classe T52, ensina-nos sobre o quão importante é aproveitar cada momento que a vida nos proporciona.

Seleção Brasileira de Futebol de 5 Paralímpico

Washington Alves/CPB

Volta e meia a frase "O Brasil é o país do futebol" é objeto de debates. Afinal, o Brasil é ou não o país do futebol? No que depender da seleção de futebol de 5, essa afirmação é verídica. Desde que o futebol para pessoas com baixa visão ou sem visão alguma foi implantado nas Paralímpiadas, em Atenas 2004, os brasileiros jamais conheceram uma derrota em Jogos Paralímpicos. No Rio 2016, chegaram ao tetracampeonato.

Este ano, o Brasil ficou com a liderança do Grupo A ao bater Marrocos (3 a 1), Turquia (2 a 0) e empatar com o Irã (0 a 0). No mata-mata, despachou a China (2 a 1) e conquistou o ouro ao superar o Irã pelo placar mínimo na grande decisão. O gol do título foi anotado pelo pivô Ricardinho, artilheiro do certame ao lado do compatriota e companheiro de posição Jefinho.

Estes foram os heróis da quarta conquista consecutiva da Seleção Brasileira no Futebol de 5:

Goleiros
Luan de Lacerda Gonçalves (AGAFUC/RS)
Vinícius Tranchezzi Holzsauer (APADV/SP)
 
Fixo
Cassio Lopes dos Reis (ICB/BA)
Damião Robson de Souza Ramos (APACE/PB)
 
Alas
Gledson da Paixão Barros (APADV/SP)
Severino Gabriel da Silva (APACE/PB)
Tiago da Silva (URECE/SP)
 
Pivôs
Jeferson da Conceição Gonçalves (ICB/BA)
Raimundo Nonato Alves Mendes (ADVP/PE)
Ricardo Steinmetz Alves (AGAFUC/RS)

Técnico
Fábio Vasconcelos