CRÍTICA | Você nunca esteve realmente aqui

Poesia da violência de Lynne Ramsay

CRÍTICA | Você nunca esteve realmente aqui
CRÍTICA | Você nunca esteve realmente aqui

Não é preciso ter visto mais do que duas obras da diretora escocesa para saber grifar sua característica mais marcante: dar beleza e sutileza a violência.

Precisamos falar sobre o Kevin não foi o único filme ao qual reteve olhares e interpretações das mais diversas dos amantes de cinema. Em seu novo filme Você nunca esteve realmente aqui, a diretora traz a violência quase como que em uma das danças mais delicadas, com direito à trilha sonora e perspectivas deslumbrantes.

O filme conta a história de Joe, interpretado por Joaquin Phoenix, um veterano de guerra que ganha a vida como um matador e que vai em busca de Nina (Ekaterina Samsonov), a filha de um senador presa em cativeiro como escrava sexual. O filme não traz consigo o mesmo clichê das telas que rodeiam a ideia de heroísmo, mesmo que o personagem passe isso para o público em muitos momentos.

A diretora Lynne Ramsay traz em Joe muito mais profundidade e intensidade, mostrando a todo o tempo memórias e fraquezas do personagem em portas que se abrem com lembranças e nunca se fecham por completo. O veterano de guerra vive em contagens regressivas, pensamentos suicidas e constantes saídas do mundo real, em que ele leva o público a imersão junto consigo.

Salvar Nina não é como um ato heróico em que o personagem precisa embarcar para ser ou mostrar alguém melhor, na verdade, Nina nada mais é do que um retrato de Joe.

Não são só as contagens regressivas ou a violência que os equipara, mas a instabilidade, a solidão e os diversos momentos de indiferença em que nenhuma gota de sangue entre os dedos é maior do que a dor que os acompanhou durante toda a narrativa.

Ramsay deixa em evidência detalhes tão visíveis a olho nu quanto vistos com uma lupa, em que até as diversas cenas de aparições de pés não são uma fixação da diretora, mas algo que remete lembranças da vida de Joe.

Não só o cuidado com os detalhes e com toda a fotografia do filme, que nos remete tantas vezes a clássicos como Taxi Driver, a diretora traz uma beleza inigualável em cada olhar, vislumbre, sangue e luto.

O que remete é que a diretora deixa uma fresta aberta nas cenas mais fortes e complexas, para que o telespectador não apenas visualize, mas sinta cada momento do filme e deguste cada segundo quase como que um bom vinho.

Joaquin Phoenix nos mostrou que não ganhou o prêmio de melhor atuação em Cannes ano passado à toa, deixando claro que atuar não é só uma boa expressão, mas vivenciar a obra de forma sincera.

Você nunca esteve realmente aqui mostrou ser mais um filme em que traz uma poesia única, em que não podemos apenas assisti-lo, mas devemos vivenciá-lo segundo a segundo.