CRÍTICA: Construção de personagens é a chave do primeiro ano de Preacher

Mesmo com ritmo lento, a nova série da AMC se destaca pelos aspectos técnicos e roteiro bem escrito

CRÍTICA: Construção de personagens é a chave do primeiro ano de Preacher
(FOTO: Divulgação/AMC)

Quando Preacher foi anunciada, eu já esperava algo muito bom, tendo conhecimento de que é uma produção do canal AMC. E a série atendeu muito bem as minhas expectativas em seu primeiro ano e já é com sobras a melhor série baseada em HQ's da DC Comics.

A série acompanha a história de Jesse Custer (Dominic Cooper), um pastor texano que é possuído por uma força espiritual chamada Genesis, o que lhe dá a habilidade de fazer com que qualquer pessoa lhe obedeça. A partir daí, Jesse começa uma jornada para encontrar Deus a fim de encontrar as respostas que procura.

Como a grande maioria das séries da AMC, a fotografia é a primeira coisa que chama a atenção em Preacher. Enquadramentos lindos, belíssimo trabalho de controle de luz, movimentos sutis de câmera e a paleta de cores em tom de sépia em sua maior parte, dando um tom de faroeste, nos brindam com uma das mais belas fotografias do ano na TV. Sua trilha sonora impecável também contribui para construir a ambientação da série, com muito country e blues. Além de suas composições originais compostas pelo mesmo compositor de Breaking Bad.

A maquiagem da série também impressiona, principalmente no personagem Eugene (Ian Coletti), mais conhecido nas HQ's como "cara de cu", que possui o rosto deformado devido a um tiro de espingarda que sofreu. Os efeitos visuais são bastante convincentes, são usados em favor da história e nunca fica exagerado demais. As cenas de ação também são ótimas, há um plano sequência em um quarto de hotel que é simplesmente espetacular, talvez a melhor cena de toda a temporada.

O problema mais claro da série é o ritmo. Eu gosto de séries lentas, mas em alguns momentos parece que a série não está indo para lugar nenhum, tem alguns plots desnecessários e um piloto bem confuso pra quem não tem intimidade com esse universo. Há também alguns arcos sem conclusão, que ainda não sabemos se foram abandonados ou guardados para a segunda temporada. Mas é fato que 10 episódios acabaram sendo exagerados demais, poderia ter uns 2 ou 3 episódios a menos sem interferir no desenvolvimento do enredo.

Porém, o que falta de desenvolvimento na história, sobra em desenvolvimento de seus protagonistas. As séries da AMC geralmente são assim em suas temporadas de estreia, preparam bem o terreno para o que vai vir futuramente. Além do Jesse, a Tulip (Ruth Negga) foi uma personagem que teve um desenvolvimento absurdo e tomou pra ela o protagonismo da série em vários momentos. Outros personagens como Cassidy (Joe Gilgun), Eugene e Emily (Lucy Griffiths) receberam uma ótima introdução e devem ter mais espaço nas próximas temporadas.

O elenco é ótimo, Dominic Cooper, Joe Gilgun, Lucy Griffiths, Tom Brooke, todos estão muito bem. Mas o maior destaque vai para a Ruth Negga que dá um show como Tulip, uma personagem decidida, empoderada, sarcástica e que não tem medo de nada. Alguns personagens secundários deixam um pouco a desejar, mas tem pouco tempo em cena, então não chega a incomodar.

Seth Rogen e Evan Goldberg ficam por conta do roteiro e direção e dão um show, dá pra perceber algumas influências deles nos trabalhos do Quentin Tarantino. Como não sou leitor dos quadrinhos, não posso dizer se a história foi fiel, mas é um roteiro muito bem escrito, dando espaço para seus personagens ganharem carga emocional. A série tem um humor negro muito bom, a season finale tem umas cenas hilárias. Nada de piadas forçadas ou cenas espalhafatosas, a série consegue dosar muito bem entre o drama e a comédia.

Preacher tem problemas de ritmo e alguns episódios a mais do que deveria, mas possui ótimos aspectos técnicos e um roteiro muito bem escrito.

NOTA: 8.0