CRÍTICA: A Ghost Story, 2017

David Lowery traz um trabalho experimental, introspectivo e reflexivo para nos brindar com um dos melhores filmes do ano

CRÍTICA: A Ghost Story, 2017
(Foto: Reprodução/A Ghost Story)

Uma das obras mais originais e bem produzidas do ano, A Ghost Story é um filme com pouquíssima mídia e baixíssimo orçamento (100 mil dólares), talvez nem chegue aos cinemas do Brasil, mas você precisa assistí-lo.

Antes que você julgue pela capa, não, não é um filme de terror ou suspense, na verdade passa longe disso. É até difícil distinguir seu gênero, mas creio que ele caminha mais próximo do drama, da fantasia e do romance. A Ghost Story nos conta sobre um rapaz que quando morre em um acidente, retorna para casa como fantasma em um pano branco a fim de se reconectar com sua esposa que ficou viva.

Parece simples, mas é um filme muito complexo na forma que é construído, a destacar primeiro pela fotografia. O diretor David Lowery usa um enquadramento 4x3, com movimentos sutis e muitos planos fixos e longos, geralmente distante dos personagens, nos permitindo entrar em contato direto com o cenário. Sim, é um filme incrivelmente imersivo, chegando a causar certo desconforto em alguns momentos por estar observando os personagens.

A trilha sonora é bem melancólica e muito pontual. Mas o grande trunfo do filme são seus silêncios. Há uma cena que eu quero destacar onde a personagem da Rooney Mara passa cinco minutos comendo uma torta, e a câmera está lá, fixa, e não há trilha sonora alguma na cena. Por mais que muitas pessoas digam que é um exagero e que não há necessidade dessa cena, ela é de longe a que mais mostra toda a dor da personagem, e seu desabamento por dentro e por fora.

Por falar na Rooney Mara, ela está incrível nesse filme. Conduz uma personagem devastada perfeitamente sem precisar apelar para sequências de choro, e a química dela com o Casey Affleck também é ótima aqui. Ele também está muito bem, apesar de passar 90% do filme debaixo de um lençol branco sem falar nada. Outro ator que merece destaque é o Will Holdham, ele só tem uma cena, mas dá um show nela com um monólogo sensacional.

Apesar de tudo, não é um filme sobre quem morreu ou quem ficou vivo, é um filme sobre o tempo. A passagem do tempo para o fantasma é diferente do que é para os humanos, e a edição do filme traduz isso perfeitamente, seja com cortes abruptos ou planos sequências que vão nos encaminhando para outro período, digamos assim.

A Ghost Story ainda nos brinda com uma excelente reflexão sem precisar de diálogos expositivos, com um final coeso, preciso e no tempo certo. Não é um filme pra todo mundo, talvez até você ache um tédio, pois é um filme que te exige paciência. Eu recomendo que você simplesmente embarque na viagem de David Lowery, e toda essa lentidão do filme vai começar a fazer sentido, e você vai conseguir captar aquilo que o diretor quis transmitir.

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