Todo o caminho até aqui

Nick Foles brilha, Eagles superam Patriots e conquistam Super Bowl pela primeira vez; Nila Maria é jornalista, torcedora dos Eagles e foi convidada pela VAVEL Brasil para contar seu relato sobre o título

Todo o caminho até aqui
Foto: Getty Images

Eu não sei por onde começar.

Eu estou deitada, imóvel. Só meus olhos e meus dedos se movem, além do pulmão que por várias vezes nessa noite desaprendeu a funcionar. Estou parada, mas dentro de mim tem uma cidade inteira, cheia de vida, de luz, em uma só cor.

Minha mente transita entre presente e passado numa velocidade que eu jamais conseguiria calcular. Penso na última hora e meia, penso nos últimos três anos e meio. Sou levada ao dia em que eu me vi diante de 32 franquias e quis escolher um time. 

Quando eu escolhi o Philadelphia Eagles pra ser meu time eu sabia bem o que me esperava. O time sem Super Bowl. O time sem anel. A piada do grupinho. O pior entre os piores. 

Era engraçado no começo, quando eu não entendia muito do esporte, eu acreditei naquela primeira temporada com tanta inocência. A gente tinha um Quarterback. Nick Foles, o nome dele. Eu soube que no ano anterior ele nos fez chegar aos playoffs, achei que ele era o máximo. Mas aí, ele se machucou e nós não chegamos nem perto, naquele ano. 

Àquela altura eu já estava apaixonada. Sabe como é? Leva um tempo. Tem uma troca de olhares, uma aproximação sutil, toques inocentes até que a paixão nos envolve, e aí não tem mais jeito. Foi assim, meu coração pertencia ao Philadelphia Eagles. Já era.

Só que, com o amor, vêm as dores.

E aí eu chego em 2016. Quase não consegui acompanhar a temporada, naquele ano. Mas me acompanhavam minha bandeira, minha camiseta, meu chaveiro e todo o amor do mundo, além de uma esperança impossível de acabar.

Nesse caminho, tudo mudou: tínhamos um time novo. Um novo treinador, um novo quarterback. Foles já era passado. O nome agora era Carson Wentz, depois de tanto sofrimento. Lembro de dizer, de repetir várias vezes ao longo daquela temporada que aquele ano não daria em nada porque era um período de adaptação. As novas peças precisavam de tempo pra irem se encaixando e eu sabia que não iríamos a lugar algum. 


Mas também não acreditei que as coisas aconteceriam tão rápido. Na verdade, se tinha um nome em que eu apostaria qualquer coisa que ganharia o Super Bowl LII, era o do arqui-rival do meu time, o Dallas Cowboys.


Mas setembro sempre chega. 


E eu via meu time ganhar semana após semana por três semanas. E aí, perdemos. Ergui os ombros e aceitei, já estava acostumada, afinal. Mas depois da queda, eu aprendi com eles, levantamos. E esse levantar perdurou por mais várias e várias e várias semanas, sem parar e eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. 


Até que dezembro chegou e uma notícia difícil de engolir nos atropelou: Carson Wentz lesionado e não volta a jogar nessa temporada. 


Nós precisávamos de um Quarterback competente para substituí-lo. Até aí, eu não tinha me dado conta de que nosso reserva era ninguém menos do que Nick Foles. Eu nunca critiquei e essas palavras só tem verdade saídas da minha boca, porque eu realmente jamais critiquei Nick Foles. 


Escrevi uma carta aberta a ele, dizendo que, acontecesse o que fosse, eu tinha total confiança de que ele era capaz de continuar o trabalho de Wentz e nos guiar por um bom caminho nos jogos que estariam diante de nós. 


Chegamos aos playoffs com tranquilidade. No dia da primeira partida decisiva, contra os Falcons (parece que faz uma eternidade, mas faz menos de um mês) eu fui viajar e estava no trânsito, voltando pra casa, quando o jogo começou. O mundo parecia estar desmoronando dentro de mim. 


Quando cheguei em casa faltavam poucos minutos pra partida terminar e eu não consegui ver absolutamente nada. Foi um jogo difícil e os lances finais de alguma forma me fizeram crer que já não tinha mais jeito, nossa temporada acabava ali.


As lágrimas que já estavam prontas pra cair pela iminência da derrota viraram um rio de alegria quando a vitória foi confirmada. Foi a primeira vez que eu saí do chão. 


Mas no dia seguinte o Minnesota Vikings me fez acreditar que a gente não passaria da próxima semana. E eu aceitei porque, afinal, tínhamos feito uma temporada incrível e minha simpatia pelo time de Minneapolis fazia ser aceitável perder pra eles. 


Não é que eu deixei de acreditar. Eu sempre tive em mente que até o apito final tinha jogo pra jogar e território a conquistar. Eu só, de alguma forma, pensei que já tinha sido o suficiente. Até porque todos os sinais indicavam que eu poderia explodir a qualquer momento se meu time continuasse avançando. Sabe o sonho de Ícaro? 


Mas eu me enganei. 


Há duas semanas eu soube que veria meu time no Super Bowl pela primeira vez e isso demorou muito tempo pra virar realidade na minha cabeça. Na verdade, eu acredito que, até que eu estivesse vendo com meus próprios olhos, minha ficha ainda não tinha caído. 


E então chegou o dia de hoje. 


Minha mente, ao longo de todo o dia, se ocupou em analisar todas as possibilidades. Antes de sair de casa, fiquei com medo. Como se fosse um primeiro encontro, sabe? E se não der certo? E se não rolar? Todos os sintomas eram os mesmos: mãos trêmulas, dor de barriga, coração acelerado. 


Não havia muitos dos nossos, no lugar onde eu estava. Tinha muitas cores, mas poucas eram a minha. Na minha sala do cinema devia ter o quê? 80, 90 pessoas? Mas só tinha eu. 


Parecia um filme. A cada touchdown que eu gritava com toda a minha voz e pulava no meu lugar era como se todo o ruído ao meu redor fosse abafado pelo que aquele momento representava pra mim. Só pra mim. E cada segundo passava desse jeito. Cada segundo demorava uma eternidade e todas as baterias de todas as escolas de samba que vão desfilar na próxima semana estavam no lugar do meu coração. 


E um instantezinho de nada fez meu peito rasgar com uma única palavra: realidade. 


No momento em que o meu jogador tirou a bola da mão de Tom Brady, revertendo a jogada pra uma posse de bola do meu time, alguém disse que o sonho estava vivo. 


E nunca, nesses três anos e meio que eu acompanho esse esporte, o sonho pareceu tão real. Parece que a palavra gritada, sonho, rasgou meu peito pra dar lugar à outra, realidade. 


Calma. Ainda não tinha acabado e até o apito final tinha jogo a ser jogado. 


Os segundos iam passando como milênios. Por alguns instantes eu perdi os sentidos e senti que ia desmaiar. Comecei a rir porque isso seria muito típico de mim, desmaiar na sala de cinema assistindo ao Super Bowl. Voltei a mim. Voltei ao jogo. 


Quando, no apito final, já não tinha mais pra onde correr e o placar mostrava o sonho da maneira mais real que já havia sido em toda a história. 


Minha cabeça demorou muito até processar tudo que estava acontecendo ali. Eu só sabia continuar gritando e as lágrimas não vinham nunca. As pessoas começaram a deixar a sala até ficarem uns poucos, alguns dos meus. 


O Philadelphia Eagles estava vencendo um Super Bowl pela primeira vez e eu estava ali pra ver. Eu estava ali, eu estava na Filadélfia, eu estava em todo lugar. 


Quando eu digo que esse esporte e esse time são capazes de provocar em mim coisas além do humano, é exatamente isso o que eu quero dizer. Eu fui transportada do meu lugar no mundo pra todos os lugares no mundo porque aquilo era muito maior do que qualquer coisa que podia caber em mim. 


Eu vi meu time vencer o Super Bowl. 


Eu vi a história do esporte sendo escrita mais uma vez. 


Vi Nick Foles levantar a Vince Lombardi com uma camiseta do Philadelphia Eagles pela primeira vez na história. 


Aí, eu já havia me afogado nas minhas próprias lágrimas. 


O sonho era real. 


O sonho é real. 


Eu tenho poucas horas pra dormir e quando acordar, vou ver que tudo isso foi de verdade. 


Quando acordar, serei Nila Maria, torcedora do Philadelphia Eagles, campeão do Super Bowl LII.