Buffon e Pirlo: a não tão fácil quanto parece missão de comandar a Juventus

Duas das maiores figuras da história do Calcio, Pirlo e Buffon sempre tiveram caminhos diferentes, mas trajetórias parecidas. Com idades semelhantes, ambos começaram a carreira profissional em 1995. O goleiro pelo Parma, e o meia pelo modesto Brescia. Pelo time da capital da Emília-Romanha, Gianluigi Buffon conquistou três títulos, todos em 1999, e marcou seu nome na história ao se tornar o goleiro mais caro do futebol mundial, quando foi comprado pela Juventus, em 2001. Pirlo, destaque da Serie B, foi contratado pela Internazionale ainda jovem, aos 19 anos, mas não se firmou nos nerazzurri. Foi emprestado para equipes menores, até que, em 2001, chegou ao Milan, onde se tornou um dos melhores jogadores do mundo.

Eternos rivais pelos maiores clubes da Itália desde 2001, mas excelentes companheiros na Squaddra Azzurra desde que passaram a atuar juntos por lá, em 2002. Em 2006, o ápice: Buffon levou apenas dois gols, enquanto Pirlo foi, talvez, o melhor jogador da conquista da Copa do Mundo, na Alemanha. Quis o destino, porém, que Pirlo, maestro rossonero, deixa-se o lado vermelho de Milão, para atuar na Vecchia Signora. Ali, dez anos depois de sua estreia pelo Milan, Pirlo reencontrou Buffon. Ao lado de uma equipe inexperiente, mas que mostrava uma força tática incrível, lideraram a Juve ao título da Serie A logo na primeira temporada. Ao lado de outros pilares da equipe, como Chiellini, Vidal e Marchisio, Andrea e Gianluigi mostraram sua força, e comandaramn os bianconeri ao título incontestável.
Na atual temporada, isso não mudou. Buffon se mantém, mesmo aos 35 anos, como um dos melhores goleiros do mundo, e certamente o melhor do Calcio. Pirlo, perto de alcançar 34, é o meio campista que qualquer treinador gostaria de ter em seu clube. Juntos, os dois são os donos do time de Antonio Conte. A diferença é que, além dos antigos pilares, novos destaques foram surgindo, o que dava a impressão de que a Juve passou a ser um time mais compacto, e que não dependia tanto de seus dois principais jogadores. Rumo a mais um incontestável scudetto e brilhando na Champions mesmo quando Buffon e Pirlo não decidiam os jogos, parecia nítido que o maior vencedor da história da Serie A estava totalmente pronto.
Aí veio o Bayern.
Em um jogo totalmente irreconhecível da Juventus em Munique, o Bayern fez 2 a 0 e garantiu ótima vantagem no primeiro confronto das quartas da Uefa Champions League. Foi um fraco jogo de todos os bianconeri, mas, em particular, dos dois citados: Buffon e Pirlo.
Nos primeiros segundos da partida, Pirlo errou uma saída de bola, e ela caiu nos pés de Alaba. Um chute forte, de longe, um desvio na zaga, gol. Vinte e cinco segundos de jogo, um a zero Bayern. A Juve desmoronou. Com o desvio no caminho e um efeito impressionante, a bola traiu Buffon. Foi para a esquerda, foi para a direita, e o arqueiro italiano caiu no lado errado. A primeira vista, um ato falho. Vendo com calma, uma bola difícil - mas ainda defensável.
A Juve não conseguiu jogar o resto da partida. Ensaiou uma pressão no meio da primeira etapa, mas não foi longe disso. No fim, acabou fazendo uma de suas piores apresentações na temporada. No segundo gol alemão, Buffon realmente falhou. Mesmo que o tento tenha sido irregular, não dá para esconder que o goleiro espalmou errado uma bola não tão difícil. Deixou no pé do adversário, e Thomas Muller acabou ampliando o placar.
Durante a partida, Pirlo abusava de passes curtos e sem objetivo. Com uma forte pressão no meio-campo, o Bayern acuou o camisa 21, que diversas vezes foi forçado a voltar a bola. Não conseguia escapar. Não conseguia criar. Vendo seu capitão e sua principal estrela mal no jogo, o resto da equipe também não conseguia jogar. Assim, acabou sendo presa fácil para o fortíssimo time alemão, que só não goleou o campeão italiano por pura falta de pontaria.
Claro, Vidal não foi tão incisivo como o costume. Marchisio não foi tão perigoso. Chiellini, voltando de lesão, não se destacou. O zagueiro Barzagli esteve em fraca noite. Conte errou ao começar com Quagliarella. Mas o jogo ruim de Buffon e Pirlo contagiou todos os bianconeri.
O ponto é esse. Na Serie A, a Juve sobra. Se Buffon está mal, o trio de zagueiros compensa, com brilhantes atuações da melhor defesa do campeonato. Se Pirlo não rege o jogo tão bem, os outros quatro ou cinco jogadores do meio campo o tornam mero coadjuvante. Assim, a Juve lidera o torneio com folga, e falta apenas a confirmação oficial para levantar o troféu.
O time da Juventus, porém, continua inexperiente fora da Velha Bota. Quando sai dos limites do Calcio, é uma equipe que visivelmente despreparada. Os dois que estão mais acostumados com competições desse porte, Buffon e Pirlo, precisam estar bem sempre. Não só comandam o time: ditam o ritmo dos onze jogadores.
Assim, fica claro de que os dois são peças que não podem "se dar ao luxo" de ter uma má noite na Champions. Pior: fica claro a realidade do futebol italiano, que ainda está fraco para brigar forte pelas maiores competições europeias.
Semana que vem, a Vecchia Signora receberá o Bayern no Juventus Stadium, onde é soberana. Se Buffon e Pirlo estiverem num bom dia, a Juventus, que manda na Itália, pode sim eliminar os alemães, e sonhar com mandar também no resto da Europa. Muita utopia, porém. O adversário é sim melhor, e muito favorito contra a Juve que não terá Vidal, suspenso.
Não é só de um grande goleiro e de um grande meia que se faz um time campeão da Champions. À Juve, o mesmo recado ao resto dos italianos: ainda falta muito para voltarem a brilhar.

Foto: Reuters
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