Todos os lados de uma Juventus campeã


A Campanha

Absurda. Em 35 jogos, foram 26 vitórias e apenas quatro derrotas, em 79% de aproveitamento, o melhor da Itália nos últimos bons anos. "Ah, mas a última temporada foi melhor porque foi invicta", ouvimos dizer. Ao contrário: as quatro derrotas e os cinco empates da Juve em 2012/2013 não são nada se comparados aos 15 empates da temporada anterior. No último título, foram 73% de aproveitamento com nenhuma derrota. Uma Juventus cada vez mais superior.


A Vitória

Eram três minutos no Meazza quando Quagliarella abriu o placar para a Juve. Todos, obviamente, lembraram do jogo do primeiro turno, quando Vidal fez 1 a 0 no começo do jogo e a Inter virou. Todos, obviamente, esperaram o mesmo quando os nerazzurri jogavam melhor e Palacio empatou.
Dessa vez, porém, a Juve não se abateu: quando a torcida da Inter ainda festejava, o mesmo Quagliarella recebeu na linha de fundo e rolou para Matri empurrar para a rede. Vitória bianconera na 30ª rodada.
Em momento algum dessa temporada alguém ousou dizer que a atual campeã não conquistaria o bicampeonato. Porém, vitória contra a Inter, em Milão, deu aos bianconeri aquela sensação de certeza. Não havia no Calcio quem pudesse bater os homens de Antonio Conte.

A Derrota

Com uma péssima campanha e sem perspectiva nenhuma de melhora, o Milan recebia a Juventus no San Siro. Mesmo em Milão, muitos consideravam a Juve com uma vitória certa, afundando ainda mais o rival.
Uma partida truncada, porém, deu a vitória ao rossonero. Num pênalti extremamente polêmico, Robinho marcou e garantiu os três pontos na 14ª rodada. O jogo iniciou uma reação do Milan, que hoje briga pela Champions League. Foi a segunda derrota da Juve em três rodadas, que ligou o sinal de alerta bianconeri. Dali até o título, foram apenas outras duas derrotas em toda a competição.

O Clássico

O Torino ficou anos vagando entre as Series B e C, e o clássico de Turim ficou vazio. Pela segunda vez seguida, porém, a Juve teria seu rival pela frente na primeira divisão, e quis o destino que o segundo Derby della Mole da temporada guardasse uma das maiores emoções do título bianconero.
Há 18 anos sem vencer um derby, o Torino, no Stadio Olimpico, acuou a líder do campeonato, mas não conseguia abrir o placar. Se defendendo bem, o jogo caminhava para um 0 a 0, já na 34ª rodada. Aos 86 minutos, porém, a sorte de campeã que acompanhou a Juve durante toda a temporada. Vidal, sempre ele, bateu forte, com o peito do pé, no canto direito.
Em vantagem, já nos acréscimos, a futura campeã matou o jogo com o meia Marchisio, deixando o 2 a 0 no placar. A vitória em mais um clássico possibilitou a Juventus ser campeã na rodada seguinte, contra o Palermo, diante de sua torcida.

O Baque

Décima-primeira rodada. No Juventus Stadium, a já líder Juventus recebeu a já desacreditada Internazionale. Um minuto de jogo e Arturo Vidal abria o placar. Atual campeã, com um time superior e em vantagem, parecia certeza que a Juve garantiria mais uma vitória. Mais: caso não perdesse, chegaria aos absurdos 50 jogos de invencibilidade no Calcio.
Em um segundo tempo incrível da Inter, o time de Turim acabou se perdendo. Milito marcou dois e Palacio fechou a conta no fim. Uma derrota que, por incrível que pareça, foi fundamental no título bianconero: a utopia em acreditar que alguém, até mesmo essa incrível Juventus de Conte, conseguiria chegar ao recorde de 58 partidas sem derrota do Milan, entre 1991 e 1993.
Os tentos de Milito deixaram a Juventus no chão. Como haviam perdido? Depois de uma campanha irretocável na temporada passada, onde o título veio sim de maneira invicta, a Juventus precisava de uma derrota. Apenas para lembrar que sim, apesar de serem os melhores, nada pode ser tão fácil para o maior campeão da Serie A.

O Capitão

Poucos são tão merecedoers desse título como Gianluiggi Buffon. Em doze anos de Juventus, Buffon se transformou em um dos maiores goleiros da história do futebol. Mesmo campeão nos títulos retirados devido ao escândalo do Calciopoli, o arqueiro precisava de uma conquista assim. Após a saída do ídolo Alessandro Del Piero no ano passado, Gigi assumiu a faixa de capitão, e conquistou seu primeiro título com a braçadeira da Juventus.
Na campanha, teve participação em 32 dos 34 jogos. Ficou de fora na vitória contra o ex-clube Parma, na primeira rodada, e no triunfo contra o lanterna Pescara, poupado, já na 31ª rodada. Sofreu 19 gols, comandando a disparada melhor defesa da Serie A.
Buffon, não de hoje, está na história da Juventus. Tão na história, que há quem ousa compará-lo com o lendário Dino Zoff, que teve onze anos de Juve e seis títulos de Serie A, e o não menos ídolo Gianpiero Combi, cinco vezes campeão entre trezes temporadas nos bianconeri.
Encerrando a discussão, o próprio Zoff deu entrevista, em fevereiro deste ano, exaltando o atual capitão da Juve, até hoje a contratação mais cara da história do clube. "Buffon está no topo. Combi foi grande, Zoff está próximo do topo. Mas o número um na história é Gianluigi", disse. Depois dessa, não há o que contestar.

O Maestro

É verdade que Pirlo não foi, nessa temporada, tão efetivo quanto na do título invicto. Em 2011/2012, foram 13 assistências, líder no quesito. Dessa vez, míseras 5, um número baixíssimo para um jogador do calibre de Pirlo.
A questão, porém, é que o jogador se adaptou em nova função nessa temporada. Antes um meia clássico, que chegava ao ataque com seus brilhantes passes e finalizações de fora da área, o camisa 21 passou a jogar mais atrás. Com uma temporada brilhante de Vidal, viu o chileno avançar mais e mais, se tornando destaque. Viu também Marchisio ser titular diversas vezes, viu Pogba aparecer. Todos jogando mais a frente.
A verdade é que nenhuma jogada na Juventus acontece sem passar por Pirlo. Nos trinta jogos e poucos cinco gols, Pirlo decidia. Não decidia aparecendo, como se acostumou a fazer. Decidia mandando no time.
Jogando bem, liderando a equipe e, até principalmente, dando polêmicas declarações sobre o ex-clube Milan, Andrea Pirlo cai, mais e mais, nas graças da torcida bianconera.

O Defensor

Todo time vencedor tem aquele jogador de raça, que os adeptos vêem como um torcedor em campo. Giorgio Chiellini pode até não ser um torcedor da Juve desde pequeno (nasceu em Pisa, na Toscana, o que o poderia ter feito um torcedor da Fiorentina, talvez do Livorno, onde começou a carreira), mas hoje é o próprio bianconero em campo.
Líder no da linha de três zagueiros de Antonio Conte, Chiellini se empolga com a torcida, e tem, inclusive, uma técnica até rara em zagueiros. Há oito anos na defesa juventina, o bicampeonato consagra o zagueiro - que, com a saída de Thiago Silva pra a França, pode enfim se considerar o melhor defensor da Itália. E com toda a justiça.


O Talismã

Era fim de janeiro, e a Juventus, incrivelmente, passava por uma má fase. Duas atuações irreconhecíveis, em uma derrota, em casa, para a Sampdoria, e um empate diante do Parma. Enfrentando uma Udinese acanhada, que não ofereceu perigo, a vitória era obrigação, pois o Napoli havia empatado anteriormente.
O primeiro tempo, porém, ia acabando em 0 a 0. Jogando mal, a Juve não aparecia para o jogo, e os adeptos já ficavam com medo de mais uma partida sem vitória. Foi quando Paul Pogba, o francês de 20 anos, apareceu: marcou, no fim dos primeiros 45 minutos, um golaço, de fora da área, onde a bola ultrapassou os 100 km/h. Na volta do intervalo, outro gol de Pogba tranquilizou a Juve, que fechou a partida num 4 a 0.
Vindo do United, Pogba fez sua primeira temporada na Juve. Usando a camisa seis nas costas, fez 27 partidas - 18 delas como titular -, e transformou-se no talismã de Conte. Os cinco gols do meia francês foram até pouco pelo tanto que jogou. E, surpreendentemente, pela importância que acabou tendo na campeã.

O Treinador

No fim de agosto, Antonio Conte foi suspenso pela FIGC por dez meses, culpado por uma manipulação de resultados quando ainda era treinador do Siena. A suspensão foi reduzida para quatro meses, e o italiano retornou ao banco de reservas no começo de dezembro. Quando voltou, foi exaltado por jogadores e torcedores, onde sua importância e idolatria foi comprovada.
Lembram do tal torcedor que os adeptos gostam de ver em campo, no momento Chiellini? Na verdade, este é Antonio Conte. Jogou doze temporadas na Juve, e em seu segundo ano no banco de reservas, leva o segundo scudetto. Pouco sofreu, devido a superioridade bianconera contra os rivais, mas continua marcando seu nome na história juventina. Por sinal, a cena do treinador, de cuecas, sendo jogado pelos jogadores numa piscina de gelo, na comemoração do título, é marcante. Sinais que mostram o quanto Conte é ligado a seu elenco.

O Craque

A cena do chileno levantando os braços e comemorando com um coração se repetiu dez vezes nessa Serie A. Quatro nos últimos três jogos. Uma num derby, outra que deu o título à Juventus. Na temporada passada, Vidal chegou tímido, mas conquistou a titularidade e foi importante na conquista invicta. Dessa vez, ditou todo o ritmo da Juventus no campeonato, e firmou-se - disparadamente, diga-se de passagem - como o melhor jogador do Calcio.
Hora marcador, hora matador, Vidal é impressionante. Versátil, corredor, técnico, raçudo, ganhou a confiança da torcida com suas cobranças de pênalti impecáveis e seus chutes de fora da área. Artilheiro da equipe na competição, meio campista que mais marcou gols nessa Serie A, ao lado de Hernanes, da Lazio. E ainda foi o vice-líder em assistências da Juventus.
Se o grande destaque da Juve era o meio-campo, com Pirlo, Marchisio e Pogba, o grande nome geral não é outro a não ser Arturo Vidal. O chileno que, com o passar da temporada, saiu da (excelente, diga-se de passagem) figuração de 2011/2012, para se tornar (um melhor ainda) protagonista. Craque não só da Juve, como de todo o campeonato.

A Defesa

Chiellini, Bonucci, Barzagli. Buffon. O trio de zagueiros e o goleiro capitão que, rapidamente, se transformaram na defesa da Squaddra Azzurra. Foram ridiculos 20 gols sofridos em 35 partidas. Ridículos porque são números absurdos. A segunda defesa mais vazada, a do Napoli, levou 31. As únicas duas vezes em que a Juventus levou mais de um gol, foram nas derrotas em casa - Internazionale e Sampdoria.
Restando três jogos para o fim da competição, a Juventus pensa em manter a equipe titular em campo - se não levar gol nos três jogos restantes, terá sofrido o mesmo número de gols da defesa invicta no ano passado.
Em todo o caso, é uma média incrível. Tanto que, se hoje a Itália voltou a ser conhecida como uma equipe de forte porte defensivo, isso se deve a Juve. Acompanhados, as vezes, pelo lateral De Sciglio, do Milan, os quatro pilares defensivos da Juventus comandam a Azzurra. E foram fundamentais para o título.

O Ataque

O ataque juventino é democrático. Foram 67 tentos anotados - menos apenas que a Roma, que até agora marcou 69 - e, uma divisão que evidencia a carência bianconera de um centro-avante de referência. Após meio-campo Vidal, que anotou 10 gols, os quatro atacantes tiveram números próximos: Vucinic fez nove, Quagliarella marcou oito, enquanto Matri e Giovinco anotaram sete tentos nessa Serie A.
Teoricamente, seria uma solução. Vários atacantes jogando bem, marcando gols. Mas a Juve necessita de um homem de área goleador. Os jogos na Champions League contra o Bayern mostraram isso. Vucinic e Quagliarella tem seus nomes consolidados, mas não são o centro-avante que a Juventus precisa.
A solução? O espanhol Fernando Llorente, já contratado, e que chega ao fim da temporada. Tudo para ser titular.

O Estádio

Mais que o bi-campeonato, essas duas temporadas com título devolveram à Juventus o sentimento de estar em casa. Jogando no Olímpico de Turim de 2006 a 2011, a Juve pode entrar no novo Juventus Stadium para ser temida. Para ser odiada por cada italiano rival que pisasse por lá. Milan e Inter, no San Siro, podem colocar até 80 mil pessoas, enquanto o estádio da Juve tem lotação para, no máximo, 41 mil espectadores.
Em dados, a Juve tem mais quase 95% de média em lotação de sua casa, cerca de 38 mil pessoas por jogo. O vice-líder foi o Napoli: 30% a menos. Sem contar a arrecadação absurda do time de Turim com o novo estádio.
Nessa temporada, foram duas derrotas em casa. Para a Inter, num jogo em que o time perdeu a invencibilidade de 49 jogos, e uma derrota absurda para a Sampdoria, num baque geral da equipe em dois gols do argentino Icardi. Foram 14 vezes saindo do Juventus Stadium com três pontos na bagagem.
O novo lar da Juve vale mais do que o sentimento de ter novamente um estádio, de poder jogar em casa: os bianconeri sabem que ele foi parte fundamental no título.

A Liderança

Só para deixar registrado: a Juventus esteve na liderança da Serie A nas 38 rodadas da competição.

Os rivais

É verdade que a Juventus sobrou no Calcio. Dominou de ponta a ponta, e ninguém acreditou que o título não iria para Turim. Mas, olhando para baixo na tabela, a disparidade bianconera tem muito a ver com os adversários.
O Napoli, que foi o mais próximo que podemos chamar de 'rival pelo título', sofreu com sua eterna instabilidade. Chegou a ficar próxima, e terminou longe: hoje, onze pontos de distância. E, convenhamos, ninguém realmente achou que os napolitanos pudessem chegar.
No resto do campeonato, o Milan teve uma crescente absurda, digna de prêmio pelo limitado time que possui, mas acordou tarde para incomodar. Como a Fiorentina, que começou muito bem, caiu de produção, e só na reta final volta a brigar.
Para não falar de Inter, Roma, Lazio e Udinese, que se matam por uma vaga na UEL, no máximo. O título foi sim incontestável - mas a fraca temporada dos adversários ajudou.

A Polêmica

A Juventus comemorou seu 31º título. A Federação parabenizou-a pela 29ª conquista. Os títulos das temporadas 04/05 e 05/06 foram repassados à Internazionale, pelo escândalo da manipulação de resultados.
A cada dez títulos, a FIGC permite ao clube usar a Stella d'Oro acima do símbolo. A Juve já recebeu a primeira em 58 e a segunda em 82. Conta 31, mas aguarda a temporada que vem para vencer novamente, e conseguir a terceira. Lembrando que os rivais mais próximos tem 18 e 17 (Milan e Inter) conquistas.
Trinta e uma vezes Juventus no campo, vinte e nove na verdade. Como se os bianconeri ligassem pra isso.

A Itália

Pelo time que tem, pelo que anda jogando, pelo dinheiro em caixa, pelo Juventus Stadium, pelos adversários. Seja por qual motivo você quiser escolher, a Juventus só não será favorita na temporada 2013/2014 se algo desastroso acontecer. E, a julgar pelo potencial bianconero daqui em diante, uma nova hegemonia parece estar pintando. A maior campeã da Itália tem tudo para aumentar ainda mais essa diferença.

A Europa

Mas, nem tudo são flores no reino de Antonio Conte. Ok, título, comemoração, vitória, uma superioridade absurda dos rivais italianos. E a Europa? A Juventus eliminou o campeão europeu Chelsea, mas caiu facilmente para o gigante Bayern, que disputará a final da competição. Não, não tinha um time mais forte que os alemães. Sim, poderia ter chego nas semi-finais, dependendo do sorteio.
Mas as derrotas, tanto na Alemanha quanto na Itália, foram primordiais - como foram as na Serie A. A Juve percebe que não tem força para se portar diante os gigantes europeus. Mas chegou longe. E esse é o segredo: acostumar a base da equipe a disputar a Champions League. Com os reforços certeiros que a diretoria promete na próxima temporada - além do já garantido Llorente -, a Juve pode sim sonhar alto. E, como anda o mundo do futebol, só não terá time para ganhar caso os adversários continuem da maneira que estão.

Os jogos

Juventus 2-0 Parma
Udinese 1-4 Juventus
Genoa 1-3 Juventus
Juventus 2-0 Chievo
Fiorentina 0-0 Juventus
Juventus 4-1 Roma
Siena 1-2 Juventus
Juventus 2-0 Napoli
Catania 0-1 Juventus
Juventus 2-1 Bologna
Juventus 1-3 Internazionale
Pescara 1-6 Juventus
Juventus 0-0 Lazio
Milan 1-0 Juventus
Juventus 3-0 Torino
Palermo 0-1 Juventus
Juventus 3-0 Atalanta
Cagliari 1-3 Juventus
Juventus 1-2 Sampdoria
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Parma 1-1 Juventus
Juventus 4-0 Udinese
Juventus 1-1 Genoa
Chievo 1-2 Juventus
Juventus 2-0 Fiorentina
Roma 1-0 Juventus
Juventus 3-0 Siena
Napoli 1-1 Juventus
Juventus 1-0 Catania
Bologna 0-2 Juventus
Internazionale 1-2 Juventus
Juventus 2-1 Pescara
Lazio 0-2 Juventus
Juventus 1-0 Milan
Torino 0-2 Juventus
Juventus 1-0 Palermo
Atalanta - Juventus
Juventus - Cagliari
Sampdoria - Juventus
Buffon e a taça da SuperCoppa, no começo da temporada. O primeiro de 12/13, que pode ser o primeiro, de muitos, em 13/14.
(Fotos: ANSA, Getty, Reuter, Gazzeta, sites oficiais de Juventus, Milan, Torino e Internazionale)
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