Espanha: de 'amarelona' à potência do futebol mundial

Quem hoje aprecia o grande futebol da Espanha com o famoso 'Tiki-taka', mal sabe que a mesma já teve fama de 'amarelona'. Até o começo dos anos 2000, a 'Fúria' era conhecida como uma equipe que prometia muito, mas entregava pouco. Gerações e gerações de jogadores protagonizaram eliminações dolorosas em Copas do Mundo que dificilmente sairão das mentes dos torcedores espanhóis mais fanáticos.

Após décadas de fracassos, um nome viria para mudar não só os rumos, mas também a história de uma pátria que, mesmo entrando como favorita a tudo que disputava e com um cartel recheado de estrelas, não conseguia alcançar o lugar mais alto do pódio: Luis Aragonés.

Já no fim de 2008, Aragonés deixaria o cargo de técnico para Vicent Del Bosque, que esteve a frente do Real Madrid durante anos. Os ex-zagueiro deu continuidade e, após realizar uma campanha perfeita nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, onde não foi derrotado em nenhum jogo, chegou ao topo mais alto do futebol. Abaixo, a trajetória da 'La Roja', que de fama de 'seleção amarelona', passou ser a grande força do futebol mundial.

Os fracassos da Espanha em Copas do Mundo

A primeira grande decepção em Copas do Mundo veio em 1950. Realizado no Brasil e vencida pelo Uruguai, aquele Mundial de 50 teve um gosto bastante amargo para os espanhóis. Além da goleada sofrida pelos anfitriões pelo placar elástico de 6 a 1, a Fúria também foi derrotada por 3 a 1 para a Suécia na disputa do terceiro lugar e voltaram para casa com o gosto amargo do quarto lugar.

No Mundial de 1962, vencido pelo Brasil e disputado no Chile, a Espanha teve outra participação decepcionante. 'La Roja', que naturalizou craques como Puskas e Di Stefano, teve o azar de estar presente no grupo composto por Brasil, México e Tchecoslováquia. Sua estreia, no dia 31 de maio de 1962, foi com derrota para os Tchecos pelo placar de 1 a 0. Na segunda partida, realizada no dia 3 de junho, conseguiu a sua primeira e única vitória daquele mundial: 1 a 0 sobre o México, encerrando a sua participação com derrota de 2 a 1 para o Brasil.

Em 1964, o país foi sede e campeão da Eurocopa de 1964. Alías, este foi o único título importante que a Espanha conquistou antes da Copa do Mundo de 2010. Quem pensou que a conquista da Euro seria reflexo para uma boa campanha no Mundial de 1966 está enganado. A Espanha caiu no Grupo 2 que era composto por Alemanha, Argentina e Suiça e foi novamente eliminada na primeira fase. Em três partidas, perdeu na estreia para a Argentina, venceu a Suiça e encerrou sua participação com derrota para a Alemanha Ocidental, dando fim a mais um ciclo.

Espanha foi sede na Copa de 82, mas novamente decepcionou

Em 1982, a Espanha, anfitriã da competição, entrava como favorita ao título por jogar em casa e ter em seu elenco jogadores como Zamora, Joaquín e Juanito, destaques daquela época. Além de José Santamaría, treinador da seleção, que entrou para a história ao fazer parte da equipe do Real Madrid, destaque nos anos 50. Cabeça de chave no Grupo E, que também contava com Iugoslávia, Irlanda do Norte e Honduras, uma campanha irregular e apenas uma vitória, frente a um empate e uma derrota classificaram os espanhóis na segunda colocação. Na fase seguinte, junto à Alemanha Ocidental e Inglaterra no Grupo 2, veio o baque final. O placar de 0 a 0 contra os Ingleses, em pleno Santiago Bernabéu, a eliminação espanhola na Copa e a desconfiança da torcida para as próximas gerações que viriam.

Já em 2002, a Espanha foi até a Coréia do Sul com a esperança de fazer uma boa campanha na Copa do Mundo, fato que ainda não havia acontecido. Sob o comando de José Antonio Camacho, a Roja teve Paraguai, África do Sul e Eslovênia como adversários pelo Grupo B. Após inúmeros fracassos, o ano de 2002 foi onde a Fúria conseguiu ir mais longe em Mundiais. Entretanto, após se classificar em primeiro na fase de grupos e vencer, nos pênaltis, a Irlanda nas oitavas, a Fúria acabou sendo eliminada nas quartas para a alfitriã Coréia do Sul, em partida de arbitragem polêmica e deu outro adeus a mais um sonho de conquistar a sua primeira Copa do Mundo.

Em 2006, o mesmo roteiro. Espanha novamente rotulada como favorita, mas novamente 'batendo na trave', dando jus ao apelido de 'seleção amarelona'. Caiu nas oitavas para a França, do craque francês Thierry Henry. O placar da partida foi construído por David Villa, para a Espanha, e Vieira, Zidane e Ribéry para a França. Naquele ano, a Itália consagrou-se campeã nos pênaltis ao vencer a equipe francesa por 5 a 3, após empate em 1 a 1 no tempo normal.

A chegada de Luis Aragonés e o bicampeonato europeu

Após décadas de insucessos, a partir de 2008, a Espanha ganharia um destaque no cenário do futebol mundial graças a chegada de Luis Aragonés. Além dele, a Fúria também contava com a boa fase de jogadores importantes como Casillas, Puyol, Xavi, Iniesta e Fernando Torres. Sendo assim, a seleção espanhola foi à Áustria em busca do seu bicampeonato europeu.

Na primeira fase da Eurocopa de 2008, a Espanha não teve dificuldades e venceu todos os jogos, se classificando em primeiro do Grupo D, que contava com Rússia, Suécia e Grécia. Nas quartas-de-final, a Fúria enfrentou a poderosa Itália, de Buffon e Pirlo. Em jogo muito disputado, o clássico terminou empatado sem gols e nas penalidades a Espanha levou a melhor e carimbou o seu passaporte para as semifinais. Nela, os espanhóis venceram com facilidade a Rússia por 3 a 0 e garantiram a vaga para a grande decisão.

Na final, a seleção espanhola venceu a Alemanha por 1 a 0, no estádio Ernst Happel, em Viena, e conquistou a Eurocopa pela segunda vez em sua história. O gol que deu o caneco à Fúria e quebrou o jejum de 44 anos sem título da competição foi marcado por Fernando Torres. Destaque também foi para o volante Marcos Senna. Naturalizado espanhol, ele, que teve boa atuação, se tornou o primeiro brasileiro campeão de uma Eurocopa.

A conquista inédita do Mundial em 2010 e o adeus à fama de 'amarelona'

Já no final de 2008, Luis Aragonés entregou seu cargo de treinador para Vicent Del Bosque. Com ele, a Espanha dava início a mais um ciclo vitorioso e tinha como prioridade, preparar a seleção para a disputa da Copa do Mundo de 2010. Com o titulo da Euro de 2008, a base da equipe era praticamente a mesma, com a exceção de alguns jogadores, como nos casos do volante Marcos Senna e do zagueiro Marchena.

Nas eliminatórias para a Copa do Mundo, a Espanha não teve dificuldades e venceu todas as partidas que disputou, chegando novamente como franca favorita e tendo jogadores que poderiam fazer a diferença, como nos casos de Casillas, Puyol, Xavi e Iniesta. Na fase de grupos do Mundial, que contavam com as presenças de Suiça, Honduras e Chile, a Espanha não teve dificuldades em se classificar. Apesar da derrota na estreia para a Suiça, a Roja se recuperou e terminou em primeiro do Grupo H, após duas vitórias.

Nas oitavas de final, um duelo ibérico: Espanha e Portugal protagonizaram o confronto mais importante da história dos dois países, onde a criatividade prevaleceu sobre a eficiência defensiva. A seleção espanhola dominou a de Portugal durante todo o jogo na Cidade do Cabo e, se venceu por apenas 1 a 0, foi porque o goleiro Eduardo evitou um resultado mais amplo. David Villa marcou o gol da classificação da 'La Roja'.

Pelas quartas-de-final, a Fúria sofreu como nunca para superar o Paraguai por 1 a 0, com um gol chorado do artilheiro David Villa, no estádio Ellis Park, em Joanesburgo, e cravar presença nas semifinais da Copa do Mundo. O gol saiu na parte final de um segundo tempo emocionante, com pênaltis marcados, anulados e ignorados.

Novamente com outra atuação 'cirúrgica', a Espanha conseguiu, mais uma vez, vencer por um gol de diferença e sem levar gols. Desta vez , a vítima foi a poderosa Alemanha, do craque Miroslav Klose. A seleção de Vicente del Bosque jogou demais para vencer os alemães por 1 a 0, em Durban, e garantir presença na grande decisão pela primeira vez. O planeta esperava um campeão inédito: Espanha e Holanda.

A data foi histórica, pois no dia 11 de julho de 2010, espanhóis e holandeses disputavam uma final de Copa do Mundo e a única certeza é que um campeão seria inédito. A Roja, que era rotulada como 'amarelona' em momentos decisivos, vinha de apenas uma derrota em toda a competição e era, mais uma vez, a grande favorita ao título. E desta vez não decepcionou. Noventa minutos que viraram 120. Ou melhor, 115, quando Iniesta estufou a rede e tirou da garganta um grito entalado há uma eternidade. Um título com direito a 0 a 0 no tempo normal, 1 a 0 sobre a Holanda na prorrogação. Na tarde daquele domingo, a Espanha exibiu para o mundo que amarela é a cor da taça na mão dos seus jogadores.

Eurocopa de 2012: a cereja no topo do bolo espanhol

Após chegar ao topo do futebol mundial, a Espanha ainda teve forças para conquistar mais um título importante: a Eurocopa de 2012. Após a o triunfo de 2008, a Fúria foi primeira a conquistar por duas vezes seguidas o troféu da Euro. O Grupo C, formado por Espanha, Itália, Irlanda e Croácia, contava também com as duas seleções que mais recentemente haviam se tornado campeãs do mundo, a Itália em 2006 e a Espanha em 2010, que ironicamente se enfrentariam na final da competição.

O primeiro jogo foi justamente entre estas duas seleções, e terminou em um empate em 1 a 1. Na mesma rodada, os croatas, semifinalistas de 1998, venceram os irlandeses por um placar confortável. No jogo seguinte, a Itália novamente empatou, desta vez com a Croácia, enquanto a Espanha goleou os irlandeses, eliminando-lhes do torneio. Cumprindo a agenda, a Irlanda perdeu para a Itália, enquanto os espanhóis desclassifcaram os croatas com um gol de Jesús Navas nos últimos minutos.

Na época separadas por 13 posições no ranking da FIFA, a Espanha derrotou a conturbada seleção da França nas quartas por 2 a 0 e se classificou para as semifinais da Eurocopa 2012. A partida foi disputada na cidade de Donetsk, na Ucrânia e os dois gols espanhóis foram assinalados por Xabi Alonso, no jogo em que completava 100 atuações pela seleção nacional. O primeiro saiu em uma forte cabeçada, aos 19 minutos da etapa inicial. O placar foi definido aos 46 minutos do segundo tempo, após um pênalti sofrido por Pedro.

Nas semifinais, em Donetsk, na Ucrânia, a Fúria venceu Portugal por 4 a 2, nos pênaltis, e se garantiu na final do torneio pela segunda vez consecutiva. No tempo normal, empate por 0 a 0 e nos pênaltis, a Espanha foi beneficiada pelos erros de João Moutinho e Bruno Alves. Xabi Alonso também desperdiçou para a Fúria. Cristiano Ronaldo, que seria o último batedor do time luso, sequer executou a sua cobrança. No fim, festa dos espanhóis e a vaga garantida para a grande final.

Na decisão, a Espanha mostrou por que não tem adversário na atualidade: goleou a Itália por 4 a 0, no Estádio Olímpico, em Kiev, na Ucrânia, e sagrou-se tricampeã da Eurocopa (1964, 2008 e 2012). Foi o terceiro título consecutivo de peso da Fúria, que, além dos dois torneios continentais, levantou a taça da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Os gols do título foram marcados por David Silva, Jordi Alba, Fernando Torres e Juan Mata. Próximo desafio seria a Copa das Confederações de 2013.

O vice-campeonato da Copa das Conferações de 2013

Até a final contra o Brasil, eram 26 jogos de invencibilidade

Já com um estilo de jogo mais que definido, a Espanha foi ao Brasil disposta a voltar para casa com mais um troféu. Iniciou a competição com 100% de aproveitamento na fase de grupos, que era composta por Uruguai, México e Taiti. Este último fazendo a pior apresentação que um país poderia ter feito em uma Copa das Conferações, sendo goleada em todos os jogos. O placar mais elástico foi um 10 a 0 aplicado pelos espanhóis.

Nas semifinais, Espanha e Itália protagonizaram um duelo sofrido ao qual a Roja não está acostumada e alcançou classificação para a final da Copa das Confederações, no Castelão, em Fortaleza. A vitória não saiu no tempo normal, tampouco na prorrogação. Os campeões do mundo tiveram que recorrer aos pênaltis para não perder um pedaço de seu reinado. Venceram por 7 a 6. Agora, caberia ao Brasil desafiar o talento espanhol.

Na decisão, uma verdadeira hegemonia espanhola. Eram 26 jogos de invencibilidade, sendo a atual campeã europeia e também do mundo. No entanto, os mais de 80 mil presentes no Maracanã daquele 11 de junho não se intimidaram com o retrospecto de 'La Roja' e empurraram os anfitriões até o último instante.

Com a vitória por 3 a 0, o Brasil mostrou ao melhor time do mundo que não era da noite para o dia que cinco estrelas vão parar em um peito. Fred, destruidor, marcou duas vezes. Neymar, eleito o melhor em campo, fez o outro. O Brasil era campeão da Copa das Confederações pela quarta vez.

Copa do Mundo de 2014: má fase dos principais jogadores e adversários difícies podem complicar sonho do bicampeonato

A derrota da Espanha na decisão da Copa das Confederações para o Brasil não significa a necessidade de uma mudança de estilo de jogo, porém, serviu para tirar conclusões e olhar para o futuro. Segundo o próprio comandante Vicente del Bosque "de vez em quando é importante perder". O treinador não perdia um jogo de competição desde junho de 2010, na derrota por 1 a 0 diante da Suíça na estreia no Mundial da África do Sul.

Tendo como base a equipe do Barcelona, jogadores como Pique, Jordín Alba, Iniesta e Xavi passam pela pior fase de suas carreiras no clube espanhol e isso poderá comprometer nas atuações da Roja no Mundial. Além das peças catalãs, a Fúria também carece de um centroavante. Apesar de ter Fernando Torres, atacante do Chelsea, para a posição, a Espanha foi obrigada a naturalizar o brasileiro Diego Costa para tentar suprir essa necessidade.

Pique: Recentemente, renovou seu contrato com o clube catalão até junho de 2019, porém, vive a pior fase de sua carreira. Lesões, falhas graves e erros de posicionamento marcaram o momento do zagueiro no ano de 2014. Apesar disso, conquistou no Barça 16 troféus: dois do Mundial de Clubes, duas Champions League, quatro da La Liga, dois da Copa do Rei, dois da Supercopa da Europa e quatro da Supercopa da Espanha.

Jordi Alba: Destaque da Eurocopa de 2012 e da Copa das Confederações do ano seguinte, o lateral esquerdo também não tem repetido as atuações da última temporada e lesões também tem atrapalhado o jogador, que participou de apenas 16 rodadas da La Liga e 26 na temporada. No clube catalão, conquistou La Liga 2012/2013 e Supercopa da Espanha.

Busquets: Um dos pilares no esquema implantado pelo antigo técnico catalão Pep Guardiola, o volante é outro que não vive grande fase na carreira. Único lance de destaque que o jogador ganhou nesta atual temporada foi o pisão dado no zagueiro Pepe, do Real Madrid, no clássico realizado, em março. Com a Fúria, ele conquistou o Mundial de 2010 e a Eurocopa de 2012.

Xavi: Sua permanência no clube catalão é incerta. O futuro do veterano foi colocado em dúvida após a chegada de Luis Enrique, substituto de Gerardo Martino no comando da equipe. Ainda assim, o meia, que é considerado o cérebro da equpe, também não está no seu auge. Nos principais jogos do Barcelona na temporada, o jogador não conseguiu repetir as atuações que tanto encantaram os torcedores entre 2008 e 2013.

Além da má fase de seus principais jogadores, a Espanha teve o azar de cair em um grupo bastante complicado, no qual terá pela frente Holanda, Chile e Austrália. Sua estreia na Copa do Mundo será contra os holandeses, reeditando a final de 2010, no dia 13 de junho, na Fonte Nova, em Salvador. Além disso, a seleção do Chile também promete ser uma das surpresas da Copa e caso se classifique para as oitavas de final, a equipe poderá enfrentar logo o Brasil, atual campeão da Copa das Conferações. Detalhes estes que poderão comprometer o sonho da Espanha em conquistar o bicampeonato mundial.

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