Em busca de renovação, Olympique de Marseille aposta suas fichas em "El Loco" Bielsa

Apelidado como "El Loco" em seus tempos como zagueiro do Newell’s Old Boys, Marcelo Bielsa alimentou a fama de seu apelido e implantou uma filosofia diferente nos times que treinou, levando seleções ao sucesso e alcançando marcas importantes em equipes de Argentina, México e Espanha. O argentino, que teve uma carreira de apenas três anos como jogador de futebol devido à lesões, se tornou um treinador diferenciado e com poder para mudar o perfil de equipes que buscam estar entre as mais competitivas em seu cenário esportivo, e é neste objetivo que Bielsa se tornou o treinador do Olympique de Marseille.

A carreira promissora como zagueiro teve de ser interrompida após uma série de lesões que fizeram Bielsa desistir da carreira de jogador. Mesmo com a precoce aposentadoria, o argentino de Rosário buscou a carreira de técnico, iniciando seus estudos logo após deixar os gramados. Após estudar durante dez anos, "El Loco" recebeu a oferta de treinar a equipe juvenil do Newell's Old Boys e aceitou sua primeira oportunidade, que transformou o jovem treinador em um especialistas em táticas e sistemas ofensivos.

Com seu perfil de jogo ofensivo e a disciplina apurada em táticas, fazendo seus jogadores assistirem vídeos sobre os adversários, Bielsa não precisou de feitos expressivos para se tornar um dos treinadores mais procurados das últimas décadas. O sucesso em times medianos que, ao comando do argentino, estiveram lutando pela ponta da tabela e a tática diferenciada do treinador, consolidou Marcelo à um patamar igual ao de comandantes de equipes de elite.

A consolidação de sua carreira com títulos nacionais

No início de sua carreira como treinador, Bielsa esteve três anos à frente do clube em que jogou boa parte de sua carreira como zagueiro. Com o Newell’s Old Boys, venceu três campeonatos nacionais e marcou seu nome na história do clube antes de se transferir para o México, onde ficou por quatro anos. Passando por Atlas e América, Bielsa não teve sucesso e deixou o país sem nenhum título conquistado.

Voltando ao seu país, "El Loco" venceu mais uma vez o Campeonato Argentino, desta vez no Vélez Sarsfield, com o ídolo Chilavert entre as traves de um sistema forte ofensivamente e sólido na defesa. Com a conquista no início de 98, o treinador argentino decidiu sair da equipe e do continente, encontrando o desafio de treinar seu primeiro time na Europa: o Espanyol. Em sua passagem pelo time catalão, dois títulos (Copa da Catalunha e Troféu da cidade de Barcelona) em apenas uma temporada fizeram de Bielsa um dos treinadores mais procurados no futebol e colocaram o argentino em seu maior desafio até então.

A seleção argentina conheceu céu e inferno durante sua passagem

Em 1998, Marcelo se tornou o técnico da Argentina que buscava esquecer a passagem de Daniel Passarella e escrever um novo capítulo na Copa do Mundo de 2002. Com um longo trabalho pelas Eliminatórias para a Copa, Bielsa colocou sua equipe para frente e implantou diversas táticas em uma Argentina que correspondia às expectativas e se tornava uma das melhore seleções do momento. A primeira colocação das Eliminatórias na América do Sul e com um futebol moderno dentro de campo, a Argentina chegou ao Japão como a favorita ao título Mundial.

O favoritismo durou até o segundo jogo da competição, onde a seleção argentina perdeu para a Inglaterra após uma péssima atuação, colocando a equipe em terceiro lugar de seu grupo. Ainda com uma vitória sobre a Nigéria e uma derrota para a Inglaterra, os argentinos disputariam contra a Suécia a vaga na segunda fase da competição. Precisando da vitória, Bielsa colocou sua equipe para frente mas encontrou uma Suécia bem postada em campo, marcando seu gol no início do segundo tempo e colocando um ponto final na participação da Argentina na Copa, que ainda empatou o jogo nos minutos finais com gol de Crespo.

Mesmo com a precoce eliminação, Bielsa continuou no cargo da seleção de seu país e buscou novamente conquistar títulos com seu sistema ofensivo. Na Copa América de 2004, a seleção aplicou 6 a 1 no Equador e 4 a 2 no Uruguai para se classificar à fase eliminatória, onde venceu pelo placar mínimo a seleção peruana e goleou por 3 a 0 a Colômbia até chegar à final diante de seu maior rival: o Brasil. Mesmo com seu ataque em boa fase e Saviola inspirado, a Argentina ficou no empate com a seleção brasileira e perdeu nas penalidades o título da Copa América.

Os últimos meses de El Loco no comando da Argentina trouxeram a inédita conquista da seleção pelos Jogos Olímpicos de Atenas. Quando os argentinos contaram com um belo futebol de seus jovens e superaram equipes como Brasil, Peru, Itália e Alemanha. A equipe contava com jovens estrelas, como Saviola, Tévez, Mascherano, Lucho González, Coloccini e D’Alessandro. Logo após a conquista do Ouro, Bielsa pediu demissão do cargo alegando problemas pessoais. Foram 85 jogos, com 56 vitórias, 18 empates e 11 derrotas, um total de 164 gols marcados e 70 sofridos.

Bielsa no comando da Argentina pela Copa do Mundo (Foto: Getty Images)

Renovação do Chile passou pelas táticas de Bielsa

Ausente nas Copas do Mundo de 2002 e 2006, a Associação Chilena de Futebol contratou Bielsa para renovar seu estilo e buscar sucesso no cenário mundial, com campanhas expressivas nas competições que disputava, como Copa América, onde havia sido eliminada ainda na primeira fase da edição de 2004, e a vaga na Copa da África do Sul em 2010. Implantando o estilo 3-3-1-3, o argentino buscou jovens jogadores e trabalhou com volantes versáteis para suprir seus três atacantes. O treinador trouxe atletas que não eram tidos como peça principal da seleção e transformou os jogadores em craques da nova geração chilena, como Arturo Vidal, Matias Fernandez, Valdívia e Alexís Sanchez.

Em seu primeiro grande desafvio como comandante de "La Roja", Bielsa se encontrou no grupo mais equilibrado da Copa América de 2007, com México, Brasil e Equador. Derrotado pelo Brasil e ficando em igualdade com o México, o Chile se classificou como o melhor 3º colocado da competição, tendo novamente o Brasil pelas quartas de final. A eliminação da equipe chilena foi marcada como a maior derrota da carreira de Bielsa: o 6 a 1 contando com show de Robinho fez o Chile dar adeus à competição sendo eliminado pelo maior carrasco do técnico e da seleção chilena.

Com 18 vitórias, dez empates e cinco derrotas, o Chile se classificou em segundo lugar nas Eliminatórias para a Copa de 2010, perdendo apenas para o Brasil, que obteve um ponto a mais. Com a favorita Espanha e o ferrolho Suíço, a equipe de Bielsa buscava a vaga para as oitavas em um grupo que Honduras corria por fora. Com vitórias sobre Suíça e Honduras, e sendo derrotada pela Espanha, a equipe chilena se classificou em segundo lugar pelo saldo de gols e enfrentaria novamente o Brasil nas oitavas de final da competição. Novamente os comandados por Bielsa foram derrotados pelo Brasil por 3 a 0 e voltaram para casa, porém, com impressões positivas deixada pela renovada seleção.

Após polêmicas com dirigentes e comandantes da Associação Chilena, inclusive com Jorge Segovia, quando trocaram xingamentos sobre a última Copa, Bielsa pediu demissão do cargo e rumou à Europa novamente. Foram 28 vitórias, oito empates e 15 derrotas sobre o comando de "La Roja".

O Athletic Bilbao teve tudo sob seu comando, menos um título

Em sua segunda passagem pela Europa, novamente na Espanha, "El Loco" se vinculou à um dos times mais tradicionais do país. O Athletic Bilbao encontrou em Bielsa a fórmula para recuperar o futebol bonito que não jogava em muitos anos, e o argentino tratou de extrair o máximo de seus jogadores, que após uma temporada surpreendente, saíram para grandes equipes e mudaram a visão dos próprios no mercado europeu. Com seu famoso e particular esquema 3-3-1-3, o treinador estabeleceu líderes dentro de campo que mudaram a cara do time basco e comandaram atuações memoráveis nas competições que disputou. Javi Martínez esteve à frente da zaga e revezava sua posição assim como o esquema se modificava, os jovens Ander Herrera e Iker Muniain realizavam as jogadas de velocidade entre o meio de campo e as laterais, servindo a grande estrela da equipe Fernando Llorente.

Mesmo terminando na 10ª colocação do Campeonato Espanhol, Bielsa mostrou nas demais competições o quão forte sua equipe havia se tornado. Com uma campanha destacada por goleadas e um ótimo futebol, a equipe do País Basco se tornou uma das favoritas à vencer a Copa do Rei da temporada 2011-12, porém, ao chegar na final, se encontrou com Messi inspirado e acabou perdendo o título após uma derrota por 3 a 0 para o Barcelona.

Além da Copa nacional, o Athletic Bilbao marcou uma histórica campanha pela Europa League da mesma temporada, vencendo equipes favoritas ao título. Com show de Llorente e duas vitórias incontestáveis contra o Manchester United, uma no próprio Old Trafford, os espanhóis provaram que estavam entre os favoritos à vencer a segunda competição de maior expressão na Europa. Vencendo Schalke 04 e Sporting, o time de Bielsa chegou à final da competição contra o, também espanhol, Atlético de Madrid. Novamente a equipe não conseguiu impor seu jogo e perdeu por 3 a 0 para a equipe de Falcão García.

Após alcançar sucesso e reconhecimento em sua primeira temporada, Bielsa perdeu peças importantes em seu elenco, com as saídas de Llorente e Martínez - para Juventus e Bayern de Munique respectivamente, e não obteve resultados positivos em sua segunda temporada, sofrendo goleadas e se distanciando de uma possível classificação para competições da Europa. Ao fim da temporada o argentino pediu demissão alegando que não soube gerir o sucesso e manter um time regular. Em seus dois anos comandando o Bilbao, foram 43 vitórias, 31 empates e 39 derrotas.

Foram 113 jogos no comando do Bilbao (Foto: AFP)

A chance de mudar o Olympique de Marseille em suas mãos

Uma das equipes mais tradicionais da França, o Olympique de Marseille marcou seu nome na história como a equipe ofensiva que venceu tudo em um cenário onde o sistema defensivo estava em alta. O tetracampeonato de 88 a 92 e a inédita Champions League de 93, foi conquistada diante de um ataque fulminante, com o alemão Rudi Völler e o ganês Abedi Pelé. Além das estrelas ofensivas, a melhor equipe da história do time ainda contava com Didier Deschamps e Fabien Barthez, que bateram na ocasião o temido Milan de Fabio Capello.

Com o estilo de Bielsa e a melhor lembrança dos torcedores, a equipe francesa busca renovação sob o comando do argentino para voltar ao topo da França. A temporada 2014-15 reserva a reformulação de uma equipe que busca se consolidar na Ligue 1 diante de PSG e Monaco, que contam com Ibrahimovic e Falcão García para marcar seus gols e conquistar títulos. Marcelo ‘El Loco’ Bielsa chega trazendo competitividade à liga que possui estrelas, mas não conta ainda com um treinador que faz uma equipe jogar como um time grande sem precisar de jogadores de ponta.

A saída de Valbuena pode interferir no início da temporada do clube francês, mas Bielsa já supriu sua saída com a contratação do meia-atacante Romain Alessandrini, que pertencia ao Rennes e possui o mesmo estilo de jogo de Valbuena. Além de Alessandrini, o treinador argentino conta também com as chegadas do zagueiro Brice Djá, contratado junto ao Évian e o jovem atacante que foi sensação do último Campeonato Belga pelo Standard de Liège, Michy Batshuayi.

Pela pré-temporada a equipe de Bielsa venceu seus cinco jogos, sofrendo apenas 4 gols e marcando 15 gols, destaque para a goleada de 4 a 1 sobre o Bayer Leverkusen na estréia do treinador. Diferente de seu esquema adotado nas últimas equipes que passou, o argentino adotou o 3-3-1-3, tendo 6 jogadores defensivos em suas linhas recuadas e contando com Alessandrini e Thauvin pelas pontas, servindo Payet e Gingnac. Resta saber se o sistema tático do argentino será destaque na Ligue 1 e como o Marseille irá reagir com ‘El Loco’ em seu comando.

VAVEL Logo