E se um magnata comprasse o Luch Energiya Vladivostok, da segunda divisão russa?
Montagem: Luís Francisco Prates/VAVEL Brasil

Neste domingo (12), o Luch Energiya Vladivostok enfrentou o Dynamo Moscou na capital russa, pela 26ª rodada da temporada 2016/2017 da National Football League, a segunda divisão russa. A distância entre Vladivostok e Moscou é de aproximadamente 6.500 quilômetros. Trazendo para mais perto da nossa realidade, essa quilometragem quase corresponde à distância entre Porto Alegre, capital do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, e Caracas, capital da Venezuela (6.700 km).

O clube de Moscou, que na temporada passada foi rebaixado pela primeira vez em sua história, venceu por 2 a 0 e deu grande passo rumo à Premier League russa. Soma 58 pontos (17 vitórias, sete empates e duas derrotas) e é o líder do certame com sete pontos de vantagem sobre o vice-líder FC Tosno.

Já a campanha do Luch é irregular: com 33 pontos somados (nove vitórias, seis empates e 11 derrotas), os orientais militam na 10ª colocação. Mesmo estando no meio da tabela, têm que ficar de olho: estão apenas com quatro pontos a mais que o Spartak Nalchik, primeiro clube da zona de rebaixamento.

A cidade-sede do Luch Energiya, Vladivostok, é o ponto final da Ferrovia Transiberiana, é base de boa parte da Marinha russa (legado da Guerra Fria), é o ponto mais à leste da Rússia, é banhada pelo Mar do Japão e fica próxima à China e à Coreia do Norte. Muito longe da parte europeia do território russo. A Rússia é o maior país do mundo em dimensões territoriais: tem vastos 17.100.000 quilômetros quadrados.

Mapa com a localização das equipes da segunda divisão russa. Vejam onde está o Luch. (Foto: Reprodução/Wikipédia)

Deve dar muito trabalho governar um país desse tamanho, com tantos recursos naturais, setor industrial forte, armamento pesado e movimentos separatistas espalhados por diversas regiões, não é?

Como apenas seis times do segundo escalão do futebol russo são do lado asiático, isso significa que o Luch quase sempre têm de viajar milhares de quilômetros para jogar. Também vale sublinhar: o vasto território rende muitos fusos-horários à Rússia. De acordo com o site Curso de Russo, o país tem 11 fusos-horários. Portanto, é necessária uma tremenda logística para uma viagem dessa dimensão.

Luch já foi o "terror" da primeira divisão russa

Em 2007, após derrota de 4 a 0 para o Luch Energiya, o goleiro do CSKA Moscou e da seleção russa, Igor Akinfeev, mostrou-se irritado com a longa viagem e com o resultado e afirmou que o time de Vladivostok deveria jogar o campeonato japonês (Foto: Getty Images)

Fundado em 1958, ainda na época da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o Luch Energiya Vladivostok tem como principais títulos um troféu da segunda divisão (2005) e três taças da Divisão Leste da terceira divisão russa (1992, 2003 e 2013). Apesar de ser tradicionalmente de escalões mais baixos, o time já viveu sua época áurea na elite do futebol local.

A primeira vez a gente nunca esquece

Em sua primeira participação na Premier League, somou 41 pontos (12 vitórias, cinco empates e 13 derrotas) e ficou na honrosa sétima colocação. Considerando que os times da zona europeia da "Mãe Rússia" dominam o primeiro escalão, imaginem o drama de quem tinha que ir a Vladivostok... Mas, sejamos justos: quem mais sofria era o Luch, que, não muito diferente de hoje, viajava bastante à Europa.

Onze das 12 vitórias do escrete oriental na edição 2006 da PL foram em casa. Dentre elas estiveram triunfos expressivos sobre Spartak Moscou (1 a 0), Dynamo Moscou (3 a 1) e Rubin Kazan (2 a 1).

O ano de 2006 também reservou uma das histórias mais emblemáticas do futebol russo. Três torcedores do Zenit São Petersburgo tiveram a insana ideia de viajar de São Petersburgo a Vladivostok de carro. com o intuito de acompanhar o duelo entre Luch e Zenit. A loucura acabou valendo a pena: os visitantes venceram por 2 a 0. No entanto, o carro que os levou ao jogo, um Honda Civic, não resistiu à longa viagem de 9.600 quilômetros - distância maior do que a de Quito, capital do Equador, para a Groenlândia, território pertencente à Dinamarca que fica no Pólo Norte - e quebrou.

Ficou a dúvida: como voltar para casa? Sensibilizada com a história, a diretoria do Zenit bancou a viagem de volta dos três adeptos - de avião, claro - e ainda os presenteou com um Toyota Corolla 0 km. O Civic está no museu do Zenit.

O Stadion Dynamo, casa do Luch Energiya, tem capacidade para 10.200 torcedores (Foto: Divulgação/Soccerway)

"Deveriam jogar o campeonato japonês"

Em 2007, a campanha não foi das mais consistentes. O Luch fez apenas 32 pontos (oito vitórias, oito empates e 14 derrotas), mesmo desempenho do vice-lanterna Kuban Krasnodar. Escapou porque levou vantagem no confronto direto (em casa, venceu por 1 a 0; longe de seus domínios, empatou em 1 a 1).

Mas isso não impediu que o time continuasse dando o que falar. Na 12ª rodada, o time de Vladivostok goleou o CSKA Moscou, à época o atual campeão do certame, por 4 a 0, em casa. Após o jogo, o goleiro do CSKA e da seleção da Rússia, Igor Akinfeev, mostrou profunda irritação com a longa viagem e falou com todas as letras à imprensa russa: "Eles deveriam jogar o campeonato japonês".

Rebaixamento

O "conto de fadas" do Luch Energiya terminou em 2008. Nesse ano, a equipe venceu apenas três jogos, somou irrisórios 21 pontos e acabou sendo rebaixada com uma das piores campanhas da história da liga russa.

Duas dessas três vitórias vieram contra o Shinnik Yaroslavi (1 a 0, em casa, e 2 a 1, fora de casa), que, coincidentemente ou não, foi o clube que o acompanhou na degola. O triunfo restante veio contra o Dynamo Moscou: 1 a 0 em seus domínios.

E se o clube fosse rico?

Reprodução/YouTube

Se com três anos na elite do futebol russo o rebuliço já foi grande, já pensou como seria se o Luch Energiya Vladivostok jogasse competições internacionais? Isso certamente seria possível se um bilionário do nível de Roman Abramovich, Khaldoon Al Mubarak e Nasser Al-Kelaifi, respectivos "manda-chuvas" de Chelsea, Manchester City e Paris Saint-Germain, adquirisse o clube para "brincar de futebol".

Vamos imaginar que, numa hipotética edição da Uefa Champions League, os orientais, agora com status de nova potência russa, caíssem num grupo com Benfica, Liverpool e Celtic. Benfiquistas, Reds e Bhoys teriam que percorrer, na ordem, 13.642 km, 12.321 km e 12.586 km. E, claro, os russos explorariam tais distâncias para os jogos fora de casa. É muito chão, viu?

E se os adversários do Luch na Champions fossem Juventus, Real Madrid e Ajax? Bianconeros, Madridistas e Godenzonen teriam que viajar 11.959 km, 13.176 km e 11.512 km, respectivamente.

Jogadores do Luch Energiya Vladivostok celebram gol contra o FC Khimki em 2008 (Foto: Dima Korotayev/Epsilon/Getty Images)

Suponhamos que o Luch Energiya esteja na Uefa Europa League e tenha como adversários na fase de grupos o Marítimo, o Borussia Mönchengladbach e o Shakhtar Donetsk. Os portugueses da Ilha da Madeira, os alemães da Renânia do Norte-Vestfália e os ucranianos da Crimeia percorreriam as respectivas distancias de 14.853 km, 11.451 km e 9.440 km.

E se os oponentes na UEL fossem Las Palmas, Roma e Saint-Étienne? Canários, Giallorrossis e Stéphanois viajariam, respectivamente, 15.037 km, 12.139 km e 12.096 km.

De dimensões continentais, essas distâncias foram calculadas pelo Google Maps. Pensa no desmantelo...

O Luch Energiya seria o "clube europeu mais asiático" de todos os tempos. Afinal, Vladivostok fica mais perto da capital do Japão, Tóquio, do que da capital da Bélgica e da União Europeia, Bruxelas: 3.245 km e 11.620 km, nesta ordem.

Distâncias superarim até mesmo as já registradas na Libertadores

Tais números seriam maiores até mesmo do que as que costumam ser registradas na América do Sul, nos jogos da Libertadores. Segundo o portal Trivela, os argentinos do River Plate viajaram 7,9 mil quilômetros à cidade mexicana de Monterrey para enfrentar o Tigres na final do certame. Os Millonarios seguraram o 0 a 0 no México e ficaram com a taça graças à vitória de 3 a 0 na Argentina.

Ainda de acordo com o site, a maior distância da história da Libertadores foi vivida pelos brasileiros Corinthians e Palmeiras e pelo mexicano Tijuana: 9,7 mil quilômetros.

As maiores distâncias nas copas europeias

Benfica e Astana viajaram mais de 6 mil quilômetros para se enfrentarem em 2015, na Champions League (Foto: Isabel Cutileiro/SL Benfica)

As maiores distâncias já percorridas em competições europeias envolvem times da Escócia, Portugal e Cazaquistão. Conforme noticiou o Trivela, o Aberdeen , da Escócia, viajou 5,5 mil km para enfrentar o Kairat Almaty, do Cazaquistão, nas fases preliminares da Europa League, em julho de 2015. Naquela ocasião, os cazaques levaram a melhor: ganharam de 2 a 1 em casa e empataram em 1 a 1 fora. Dois anos antes, o Celtic também voou mais de 5 mil km para medir forças com o Shakhter Karagandy, também do Cazaquistão. Perdeu por 2 a 0 longe de Glasgow, mas reverteu a desvantagem em seus domínios: 3 a 0.

Em novembro de 2015, Benfica e FC Astana fizeram as maiores viagens da história das copas europeias. De acordo com o jornal português Record, nada mais nada menos que 6.164 quilômetros separaram as equipes de seus compromissos pela fase de grupos da Uefa Champions League 2015/2016. No Cazaquistão, empate em 2 a 2. Em Portugal, vitória encarnada por 2 a 0.

Ainda que essas distâncias sejam absurdas, elas parecem fichinhas perto do que aconteceria com quem enfrentasse o Luch, não é?

O clássico do leste russo

Divulgação

O grande rival do Luch Energiya Vladivostok é o SKA Khabarovsk. Khabarovsk está situada a 800 quilômetros ao norte de Vladivostok e fica na fronteira da Rússia com a China. Em número de população, Khabarovsk é a segunda maior cidade do leste russo. Tem 577.441 habitantes e é superada somente pelos 592.034 habitantes de Vladivostok. Os dados são do Censo russo de 2010.

Fundado em 1946, o SKA Khabarovsk manda seus jogos no Stadion Lenin, cuja capacidade é de 15.200 pessoas. O clube nunca esteve na elite do antigo Campeonato Soviético nem na do atual Campeonato Russo. Na temporada 2012/2013, o quarto lugar no segundo escalão deu ao SKA a oportunidade de jogar o playoff de acesso e rebaixamento. No entanto, os Estrelados foram superados pelo Rostov.

O último "dérbi" disputado entre Luch e SKA aconteceu em 15 de outubro de 2016 e terminou com vitória do escrete de Vladivostok por 1 a 0. Mesmo com a desvantagem no confronto direto, o time de Khabarovsk vem fazendo ótima campanha na segunda divisão nacional: é o terceiro colocado com 43 pontos, oito a menos que o vice-líder FC Tosno e 15 a menos que o líder Dynamo Moscou. Se o campeonato terminasse hoje, o SKA Khabarovsk estaria classificado aos playoffs de acesso e rebaixamento do campeonato russo e teria outra oportunidade para subir de divisão e navegar em águas mais profundas.

O rival Luch e os times do oeste da Rússia devem estar secando muito o SKA, não é?

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