Oliver Kahn: uma fera debaixo das traves

Oliver Kahn: uma fera debaixo das traves

Melhor jogador da Copa do Mundo de 2002 e reserva em 1994, 1998 e 2006

luisfranciscoprates
Luís Francisco Prates

O goleiro alemão Oliver Rolf Kahn foi um dos jogadores mais explosivos que o futebol já viu. Nunca deixava barato os erros dos companheiros ou as provocações dos adversários em campo. Sempre ia tirar satisfação. Daquele jeito furioso e espalhafatoso que corriqueiramente chamava a atenção de quem acompanhava as partidas, seja no estádio ou pela televisão. Seu temperamento forte ficou marcado a ponto de lhe render os apelidos "primata" e "King Kahn", um trocadilho com "King Kong". Com Kahn não tinha aquela história de que "o importante é competir". O único pensamento era a vitória. Ele é descrito em seu perfil no site oficial do Bayern de Munique como um profissional "impaciente, disciplinado e ambicioso".

Lenda do Karlsruher, onde foi revelado e ganhou projeção nacional e internacional, e do Bayern, onde conquistou todos os títulos possíveis (oito edições da Bundesliga, sete troféus da DFB-Pokal, cinco taças da extinta DFB-Ligapokal, uma Copa da Uefa, uma Uefa Champions League e um Mundial Interclubes), o arqueiro também se consagrou com a camisa da seleção da Alemanha. Sua liderança frente ao elenco e sua qualidade técnica nas quatro linhas - além, é claro, da personalidade estrambólica - gravaram seu nome na história do esporte.

Os primeiros contatos com a Copa do Mundo em 1994 e 1998

Oliver Kahn "estourou" para o futebol na temporada 1993/1994, mais precisamente na grande campanha do Karlsruher, time da sua terra natal e do seu coração, na Copa da Uefa. O campanha do clube da região de Baden-Württemberg foi memorável. A equipe chegou às semifinais depois de despachar os gigantes PSV Eindhoven, Valencia (com direito a uma histórica goleada de 7 a 0!) e Bordeaux (o craque daquele time era ninguém menos que Zinedine Zidane...) e a sensação Boavista. Na oportunidade de chegar à final, parou no Áustria Salzburg (atual Red Bull Salzburg) e na regra do gol fora de casa (0 a 0 na Áustria e 1 a 1 na Alemanha).

Os primeiros passos da fera: Oliver Kahn no Karlsruher (Foto: Tony Marshall/EMPICS/Getty Images)

O excelente rendimento do goleiro na segunda competição interclubes mais importante da Europa, bem como na Bundesliga, onde o KSC foi o sexto colocado, despertou o interesse do Bayern de Munique. O maior campeão alemão desembolsou aproximadamente 2,5 milhões de euros para contratar Kahn, que chegou para ser titular. Àquela altura, ele herdou a vaga deixada pelo ídolo bávaro Raimond Aumann, dono da meta do Bayern entre 1982 e 1994. Na mesma época, esteve entre os convocados para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Foi o terceiro goleiro da seleção que também tinha Bodo Ilgner e Andreas Köpke como opções para a baliza. Naquela ocasião, a Nationalelf, comandada por Berti Vogts, sucumbiu diante da surpreendente Bulgária nas quartas de final.

No dia 23 de junho de 1995, estreou na meta da seleção de seu país. Naquela oportunidade, a Alemanha venceu a Suíça por 2 a 1 em amistoso.

Quatro anos mais tarde, depois de já ter conquistado uma Copa da Uefa (1995/1996), uma Bundesliga (1996/1997), uma DFB-Pokal (1997/1998) e uma DFB-Ligapokal (1997) pelo Bayern de Munique e uma Eurocopa (1996), Oliver Kahn voltou a ser chamado por Berti Vogts para o Mundial. Dessa vez, subiu uma escada: foi o reserva imediato de Andreas Köpke na Copa na França, o mesmo posto ocupado na Euro 1996; o terceiro goleiro foi Jens Lehmann. Os germânicos novamente pararam em uma grande sensação do torneio, a Croácia, também nas quartas de final.

A aposentadoria de Andreas Köpke da seleção nacional, logo após o certame, abriu caminho para a titularidade de Kahn.

O melhor jogador da Copa do Mundo de 2002

​Eleito o melhor jogador da Copa do Mundo de 2002, Oliver Kahn foi vice-campeão após derrota para o Brasil na decisão (Foto: Matthew Ashton/EMPICS/Getty Images)​

O auge no final da década de 1990 e início dos anos 2000, com os títulos da Uefa Champions League (2000/2001) e Mundial Interclubes (2001), além de um tricampeonato da Bundesliga (de 1999 a 2001), mais uma DFB-Pokal (1999/2000) e mais duas DFB-Ligapokal (1998 e 2000), rendeu a Oliver Kahn o posto de dono absoluto do gol da Alemanha.

Capitão da seleção, o arqueiro fez das tripas coração para superar as conturbadas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. A Mannschaft perdeu a vaga direta para a Inglaterra, que lhe aplicou uma humilhante goleada de 5 a 1 em pleno Estádio Olímpico de Munique, e teve de passar pela repescagem, na qual superou a Ucrânia com um empate em 1 a 1, em Kiev, e uma goleada de 4 a 1, em Dortmund.

Passado o rojão, era chegado o momento mais esperado da carreira do então jogador de 33 anos: a titularidade em uma Copa do Mundo e a oportunidade de levar o país à quarta estrela. No Japão e na Coreia do Sul, os já renomados atributos técnicos de Oliver Kahn se engrandeceram diante dos oponentes. Quando os atacantes pensavam em chutar para o gol, lá estava o alemão para afastar o perigo. Dono de excelente reflexo, saídas ágeis do gol e apurada reposição de bola, o goleiro foi o grande nome da campanha que levou a Alemanha à decisão mundial.

Oliver Kahn recebe das mãos de Pelé o prêmio de melhor jogador da final da Uefa Champions de 2000/2001, na qual o Bayern de Munique venceu o Valencia nos pênaltis (Foto: Alex Livesey/Getty Images)

Até a final, a Nationalelf tinha sofrido apenas um gol, no empate em 1 a 1 com a Irlanda na primeira fase. Nas vitórias sobre Arábia Saudita (8 a 0), Camarões (2 a 0), Paraguai (1 a 0), Estados Unidos (1 a 0) e Coreia do Sul (1 a 0), a meta não foi vazada. Pelos resultados magros, pelo pragmatismo daquele time, treinado por Rudi Völler, e pela superexposição do sistema defensivo nas partidas, não fica difícil compreender por que o destaque foi o goleiro. Na grande decisão, em Yokohama, os germânicos perderam para o Brasil por 2 a 0 e ficaram com o vice-campeonato.

Mesmo sem a taça, Oliver Kahn foi eleito o melhor jogador daquela Copa do Mundo. Obteve 147 de 592 votos (25% do total) dos jornalistas os quais cobriram a competição. Contudo, é inegável que ele preferia ter sido campeão do mundo. E o erro no lance que mudou a história daquela final até hoje não sai da sua cabeça, certamente. Kahn tentou encaixar a bola após um chute de fora da área, de Rivaldo, mas ela escapou das suas mãos e sobrou para Ronaldo. O camisa 9 aproveitou o rebote e abriu o caminho para o quinto título mundial da Seleção Canarinho - ele também anotou o segundo gol.

 

"Não há consolo. Foi o único erro que cometi em sete jogos e fui brutalmente punido"

(Oliver Kahn, em 30 de junho de 2002, após a derrota da Alemanha para o Brasil na final da Copa do Mundo)

 

Veja os lances de Oliver Kahn na Copa do Mundo de 2002:

A rivalidade com Lehmann e a despedida na decisão do terceiro lugar em 2006

A Copa do Mundo na Alemanha foi vista por Oliver Kahn como a grande oportunidade para se redimir do erro na final passada. Qual jogador não sonha em ser campeão do planeta, ainda mais diante de sua torcida, no seu país natal? O Mundial era o único título que faltava para o goleiro multicampeão pelo Bayern.

No entanto, uma decisão do técnico Jürgen Klinsmann abalou as estruturas do futebol alemão (e mundial também, por que não?). O comandante determinou que o titular da Mannschaft na Copa em casa seria Jens Lehmann, dono da meta do Arsenal. Durante as Eliminatórias, Klinsmann promoveu um rodízio debaixo das traves para estimular a concorrência entre os dois. E Lehmann, à época com 36 anos, acabou ganhando a guerra de braço - Hans-Jörg Butt foi o terceiro goleiro. Um duro golpe para Kahn, então com 37 anos.

Mesmo no banco de reservas, o ídolo nacional arranjou uma oportunidade para se autopromover. Em entrevista a uma revista alemã, Oliver se mostrou insatisfeito com a escolha do treinador. "Não se tira um número 1 que está jogando bem", enfatizou. Ainda na época da competição que para o planeta Terra durante um mês, o goleiro se negou a responder, em entrevista coletiva, quem ele acharia que seriam os melhores goleiros da Copa. "Qualquer coisa que eu disser pode me comprometer", afirmou.

Oliver Kahn perdeu para Jens Lehman a disputa pela titularidade na Copa do Mundo de 2006 (Foto: Christof Koepsel/Getty Images)

As palavras, evidentemente, chegaram até Lehmann. Ao ser perguntado se entendia a frustração do ex-titular por ter perdido a camisa 1, foi curto e grosso: "Não estou em seu lugar, então não tenho o que responder."

O preparador de goleiros da seleção, o ex-goleiro Andreas Köpker, bem que tentou vender a história de que a relação entre os dois era amigável e o ambiente era perfeito. "Eles se dão bem. Nunca houve qualquer tipo de atrito", falou à imprensa em 2006. Entretanto, a mídia, naquele período, mostrou, em imagens de treinamentos, que os goleiros não conversavam, sequer se olhavam, e participavam de grupos diferentes de jogadores.

Farpas à parte, Oliver Kahn e Jens Lehmann protagonizaram uma cena que entrou para a história das Copas. Ele cumprimentou o colega de posição depois da vitória da Alemanha frente à Argentina por 4 a 2 na disputa de pênaltis, nas quartas de final. A classificação foi conquistada após empate em 1 a 1 nos 90 minutos, resultado o qual persistiu na prorrogação. No desempate por penalidades, Lehmann defendeu as cobranças de Ayala e Cambiasso. Na euforia das comemorações, foi parabenizado por seu "rival".

Não foi só ali. Às vésperas do duelo com os argentinos, Kahn já havia elogiado o concorrente. "As atuações de Jens têm sido absolutamente impecáveis. Ele mostra serenidade e vê o jogo com clareza. É importante dar segurança aos jogadores da defesa, e isso é o que ele está fazendo", afirmou.

Oliver Kahn cumprimenta Jens Lehmann após a Alemanha eliminar a Argentina nos pênaltis, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006 (Foto: Bongarts/Getty Images)

Ao ser questionado sobre os raros elogios ao goleiro titular da Alemanha, o ídolo nacional disse as seguintes palavras:

 

"Não é muito fácil para mim (ser reserva) porque sou, antes e acima de tudo, um atleta que quer jogar. Mas meu grande objetivo é vencer a Copa. Se não for como jogador, ao menos como alguém que fez tudo o que podia para ajudar a equipe. Sou uma pessoa programada para o sucesso, para ser o número um. Por isso, estas semanas não têm sido fáceis para mim. Qualquer um que estiver satisfeito vendo o jogo do banco, deve ser mandado para casa. Naturalmente, ficamos frustrados com a reserva, mas temos força interior suficiente para lidar com isso"

(Oliver Kahn, 28 de junho de 2006, em entrevista coletiva durante a Copa do Mundo)

 

Eliminados pela Itália na semifinal, os alemães decidiram o terceiro lugar com Portugal, superado pela França. Foi aí que Kahn ganhou uma oportunidade. Teve atuação discreta na vitória de 3 a 1. Depois do apito final, com a medalha de bronze garantida, o goleiro do Bayern de Munique anunciou que aquele fora o seu último jogo pela equipe nacional de seu país. Terminava ali a trajetória de "King Kahn" (esse apelido já não é pejorativo; é um carinho da torcida do FCB para com o atleta) em Mundiais.

Depois da Copa do Mundo, Lehmann perdeu o posto de titular do Arsenal para o espanhol Manuel Almunia, No mês anterior à Copa na sua pátria, o alemão foi expulso.na final da Uefa Champions League, em Paris, contra o Barcelona. Naquela ocasião, no Stade de France, os Gunners foram derrotados por 2 a 1, de virada. Mesmo assim, ele continuou a ser convocado para a seleção da Alemanna. E Kahn não desperdiçou a oportunidade de alfinétá-lo, segundo informações do portal UOL: "Um reserva não deveria ser titular da seleção. A era de ouro dos goleiros na Alemanha acabou depois da minha aposentadoria", comentou. Lehmann não deixou barato e lembrou um caso extraconjugal de seu "rival": "Eu não tenho uma namorada de 24 anos. Levo uma vida diferente", retrucou, em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, lembrando a época em que o baladeiro Oliver Kahn trocou sua esposa grávida por uma recepcionista de restaurantes, Verena Kerth, de 21 anos. "Ele gosta de se levar a sério. Eu não gosto quando alguém fica se glorificando", concluiu.

Aposentado desde 2008, Oliver Rolf Kahn será eternamente lembrado pelos fãs de futebol como um protagonista influente dos gramados. E está consolidado como um dos melhores goleiros de todos os tempos. Não à toa foi eleito o melhor da posição pela Uefa por quatro anos consecutivos (1999 a 2002) e foi finalista da Bola de Ouro duas vezes (terceiro colocado em 2001 e 2002) e do prêmio de Melhor do Mundo da Fifa uma vez (segundo colocado em 2002).

VAVEL Logo
CHAT