Lendas da Copa do Mundo: Zinédine Zidane
Arte: Hugo Alves/VAVEL Brasil

Lendas da Copa do Mundo: Zinédine Zidane

Craque, gênio, herói e vilão; Zidane viveu momentos distintos em três Mundiais: a glória máxima, a impotência e o peso da derrota

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Junior Ribeiro

Zinédine Zidane tem seu nome gravado com letras de ouro na história da Copa do Mundo. Protagonista em duas finais, o francês conquistou a glória máxima em seu país, sacrificou-se pela equipe na edição seguinte, onde o fracasso era iminente, e pendurou suas chuteiras passando ao lado do troféu dourado após um ato que chocou o mundo, mas perdoado pelos seus.

O craque e os mundiais, momentos que vão muito além de destruir o Brasil em duas oportunidades. A história não é feita apenas de momentos positivos, Zidane viveu muitas situações em três Copas do Mundo. Desconfiança, vilania, heroísmo, tristeza, retorno, redenção, liderança e o fim. Zizou teve sua despedida dos gramados em uma final, transformando aquele momento em uma das maiores cenas da história do futebol.

Nascido em Marselha e com descendência argelina, Zidane fez parte de uma geração que carregou dois pesos, além do futebolístico: o político e o social. O camisa 10 raramente se envolvia em questões políticas, mas sabia – assim como seus companheiros – que seus resultados tinham impacto gigantesco na sociedade e que seus triunfos eram usados como objetos de manobra.

Copa da França, 1998: o herói nacional

Foto: Christian Liewig/Corbis Sports/Getty Images

Zidane teve seu período pré-título mundial marcado pela desconfiança. Jogava muito bem pela Juventus, mas não repetia tais atuações pela Equipe de France. Convocado desde 1994, o jogador era criticado pelo desempenho apagado. Todo este cenário desfavorável se agravou durante a Copa. Ele não marcou nenhum gol antes da final, estreou razoavelmente diante da África do Sul, mas foi expulso contra a Arábia Saudita.

Aos 71 minutos, o camisa 10 pisou no capitão Fuad Amin e recebeu o cartão vermelho, além da suspensão automática, ficou de fora de mais um jogo, voltando apenas nas quartas de finais. Naquela altura, uma eliminação nas oitavas já o consagraria como vilão antecipado. Após o sofrimento diante do Paraguai, Zizou estava de volta para as quartas de final. Empate sem gols no tempo normal e prorrogação contra a Itália. Primeiro nas cobranças, ele converteu. Lizarazu perdeu para os franceses, logo depois, mas Albertini e Luigi Di Biagio desperdiçaram para os italianos.

Foto: Daniel Garcia/AFP/Getty Images

Na semifinal, mais um duelo complicado. A França encarou a surpresa da competição, a Croácia. Davor Suker abriu o marcador, mas Lilian Thuram marcou duas vezes e colocou os Bleus na decisão contra o Brasil. 

O contestado meio-campista entrara para a história do futebol 12 de julho de 1998. O Stade de France recebeu mais de 80 mil pessoas naquela decisão. Dono das bolas paradas, Zidane fugiu da regra e foi para a área.

Foram dois cruzamentos de Youri Djorkaeff e duas cabeçadas mortais do craque, abrindo dois gols de vantagem apenas no primeiro tempo. Diante de uma Seleção Brasileira apática e tendo suas poucas ações ofensivas anuladas pelo esquema de Aimé Jacquet, ficou fácil para os franceses. Título em casa, por 3 a 0, diante da maior campeã. O povo, nas ruas, gritando “Zidane Presidente”. A glória máxima de um futebolista foi alcançada por Zinédine.

Copa da Coréia e Japão, 2002: a lesão e o sacrifício

Campeã na última Copa, a França garantiu vaga direta no mundial seguinte, o último país a ter este privilégio, depois daquela edição, apenas o país sede detém tal benefício. A estreia estava marcada para o dia 31 de maio, diante de Senegal. Cinco dias antes, a Equipe de France realizou um amistoso contra a Coréia do Sul, vencida por 3 a 2. Foi uma vitória dolorosa, Zidane sofreu um estiramento na coxa.

Impossibilitado de jogar a primeira partida, o craque viu sua seleção perder para Senegal por 2 a 1. O empate em 0 a 0 diante do Uruguai complicou a França, Zidane mais uma vez ficou de fora por conta do problema físico. O derradeiro jogo do Grupo A era contra a Dinamarca, para a classificação eram necessários dois gols de diferença. Zizou foi para o sacrifício, mas nada adiantou e o time nórdico venceu por 2 a 0. A atual campeã estava eliminada na primeira fase em um grupo relativamente fácil. Impotência era o sentimento a respeito de Zidane naquele mundial.

Zidane jogou com uma proteção na coxa esquerda (Foto: Tony Marshall/Getty Images)

Copa da Alemanha, 2006: cavadinha e cabeçada

O contexto prévio para o Mundial de 2006 foi turbulento para Zidane. O francês anunciou sua aposentadoria dos Bleus após a eliminação na Eurocopa 2004, mas meses depois voltou atrás e ajudou o time nacional a garantir vaga na Alemanha. A temporada 2005/06 – sua última como jogador profissional – não foi das mais brilhantes, pelo contrário, foi considerada apática. O craque avisou que iria pendurar as chuteiras em definitivo naquela edição. A Copa teria a honra de ser a derradeira competição de um dos gênios da bola.

Porém, o início não foi nada animador. Dois jogos e dois empates, o primeiro contra a Suíça por 0 a 0 e depois em 1 a 1 com a Coréia do Sul, aquela mesma de triste lembrança para Zizou. Neste segundo jogo, o camisa 10 recebeu seu segundo cartão amarelo e ficou suspenso da terceira partida, diante de Togo. Menos mal que os franceses venceram por 2 a 0 e garantiram a classificação em segundo lugar.

Zidane demonstrou bom futebol nas oitavas de final, onde bateram a Espanha por 3 a 1. O craque anotou o terceiro gol, nos acréscimos. O triunfo deu moral para os franceses, que recuperaram a confiança. Nas quartas, mais uma exibição de gala, passeando em cima do Brasil. Desempenho individual sublime, coroado com uma assistência para o icônico gol de Thierry Henry. Pela segunda vez, a Seleção Brasileira sofria nas mãos dos Bleus. Zizou foi eleito o melhor em campo, em partida marcada pelo chapéu que aplicou em Ronaldo.

Foto: Corbis Sports/Getty Images

Na semifinal, o adversário seria a surpreendente equipe de Portugal, tentando superar o feito de 1966. O tento único do duelo foi marcado pelo nosso protagonista, tomando pouca distância ao bater um pênalti sofrido por Henry em uma disputa com Ricardo Carvalho. A França teve chances de ampliar o placar, não aproveitou. Cristiano Ronaldo quase empatou em cobrança de falta. Zidane, após aquele jogo, ganhou antecipadamente o prêmio de melhor jogador do mundial, assim como o goleiro Kahn, em 2002.

Berlim, 9 de julho de 2006. Itália em busca do tetra e a França querendo seu segundo título. Zidane atuou no centro do 4-2-3-1 do sistemático Raymond Domenech. Ribéry e Malouda tinham liberdade pelos lados e Henry era o centroavante. Em uma escapada de Malouda, veio o pênalti. O camisa 7 se jogou ao ver um iminente choque com Materazzi, o zagueiro conseguiu evitar tal contato, mas o árbitro apontou a cal. Diante de Buffon, o careca mandou uma cavadinha, um pouco forte, é verdade. No alto, a bola pegou no travessão, pingou dentro do gol e saiu. França na frente do placar.

Pouco depois, Pirlo cobrou escanteio da direita e Materazzi cabeceou para as redes. Luca Toni ainda colocou uma bola na trave. Zidane quase marcou após tabela com Sagnou, a testada do francês parou em Buffon.

No segundo tempo da prorrogação, o craque acertou uma cabeçada em Materazzi e recebeu o cartão vermelho após o árbitro ser notificado da agressão. Nos pênaltis, a Itália levou a melhor, afastou um velho fantasma e levantou a taça dourada pela quarta vez. Zidane seria o vilão nesta história, abdicar de conquistar o título para responder insultos de um catimbeiro, deixar seus companheiros sozinhos no gramado, ter um final de carreira melancólico. Mas recebeu o perdão de seu povo, que compreendeu sua situação. O zagueiro italiano teria proferido duros xingamentos a sua mãe e irmã antes do acontecido.

Zidane deixava o futebol como jogador passando ao lado da Copa do Mundo, em uma das imagens mais perturbadoras e simbólicas da história do esporte.

Foto: Roberto Schmidt/AFP/Getty Images

Curiosidades

O francês disputou apenas quatro jogos de Eliminatórias para a Copa do Mundo em sua carreira. Todas em 2005, quando retornou para os Bleus. Em 1998, a Equipe de France não disputou a competição por ser país sede. Na edição seguinte, por ter sido o último campeão.

Seu retrospecto em Copas é muito bom. Foram 12 partidas em três edições, com cinco gols anotados. Ele acumula sete vitórias, quatro empates e apenas uma derrota, aquela para a Dinamarca em 2002.

Ele é apenas o quarto homem a marcar em duas finais de Copas do Mundo, repetindo os feitos de Vavá, Pelé e Paul Breitner.

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