Copa do Mundo VAVEL: a história do Mundial de 1998
Fotomontagem: Hugo Alves/VAVEL Brasil

Copa do Mundo VAVEL: a história do Mundial de 1998

Dentro de casa, a Seleção Francesa contou com o apoio da torcida e adiou o sonho do penta; Zidane liderou os blues ao primeiro título mundial do país; marcados pela guerra, Croácia consegue improvável terceiro lugar e entra para a história

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Junior Ribeiro

A Copa do Mundo de 1998 trouxe como novidade o aumento no número de seleções participantes, pulando de 24 para 32 nações. O mundial também contou com a volta da França, ausente por 12 anos, após fracassos seguidos em Eliminatórias Europeias. Liderados por Zidane, os bleus conquistaram seu primeiro título.

Esta foi a 16ª edição da Copa, iniciando no dia 10 de junho e tendo sua grande final em 12 de julho. Foram 64 jogos, com 43.366 em média de público. Com a expansão das vagas, o formato do mundial sofreu uma pequena alteração, a partir de então, formaram-se oito grupo com quatro seleções, num total de três rodadas onde os dois melhores classificados de casa fase avançam para as oitavas de final. O sistema está em vigor atualmente e será modificado a partir de 2026.

Um desejo antigo: La France entière veut la Coupe du monde

A vontade de sediar novamente um mundial era antiga. Em 1983, o então presidente da Federação Francesa, Fernand Sastre, comunicou à Fifa o desejo de receber a Copa de 1990. Porém, com a entrada da Itália na disputa, a entidade francesa resolveu adiar sua candidatura. Em novembro de 1986, Jean Fournet-Fayard, novo presidente da FFF, voltou a articular a proposta, sendo oficializada três anos mais tarde com o apoio de François Mitterrand.

Em janeiro de 1991, sete países oficializaram suas candidaturas para a Copa de 1998. No segundo semestre daquele mesmo ano, as três nações restantes tiveram suas propostas analisadas pela Fifa. O resultado final foi divulgado em 2 de julho de 1992, na sede da entidade maior, em Zurique. A França recebeu 12 votos, Marrocos ficou em segundo com sete, enquanto que a Suíça não foi votada.

Stade Vélodrome, 12 de junho de 1998, Inglaterra x Tunísia (Foto: Mark Leech/Getty Images)

Um dos destaques do período pré-copa foi a realização do ‘Torneio da França’ em 1997, competição amistosa preparatória para o mundial do ano seguinte. Lyon, Montpellier, Nantes e Paris receberam partidas. Inglaterra, Brasil, França e Itália disputaram o certame, onde os ingleses foram campeões.

Estádio Cidade Capacidade (na Copa)
Stade de France Saint-Denis 80.000
Stade Vélodrome Marseille 60.000
Parc des Princes Paris 48.875
Stade Gerland Lyon 44.000
Stade Félix Bollaert Lens 41.300
Stade de la Beaujoire Nantes 39.500
Stadium de Toulouse  Toulouse 37.000
Stade Geoffroy-Guichard Saint-Étienne 36.000
Parc Lescure Bordeaux 35.200
Stade de la Mosson Montpellier 34.000

O Comitê Organizador Local soube aproveitar os grandes palcos do futebol francês, apostando na revitalização de centros tradicionais. Os investimentos em estádios totalizaram 600 milhões de euros. O único construído para o mundial foi o Stade de France, que custou 420 milhões de euros. Os outros nove foram reformados, resultando em um gasto de apenas 180 milhões de euros.

Allez les Bleus! O mundo era azul, branco e vermelho

Foto: Getty Images

O contexto que envolve a Seleção Francesa vai muito além do futebol. O time comandado por Aimé Jacquet carregava um peso político e social. O elenco multiétnico gerou controvérsias e até declarações polêmicas no período da Eurocopa 1996. Tal cenário foi utilizado pelo governo para tentar mostrar uma França unida, com o lema “negro, branco e árabe”. Além do craque Zidane, de origem argelina, outros 12 atletas eram de origem estrangeira ou nascidos no exterior.

A França começou sua campanha sapecando 3 a 0 na África do Sul. Depois, diante de 80 mil torcedores, venceram a Arábia Saudita por 4 a 0, no Stade de France. O jogo marcou a demissão do técnico Carlos Alberto Parreira antes mesmo da terceira rodada. No último jogo do Grupo C, a equipe da casa bateu a Dinamarca por 2 a 1.

Naquele momento, em Lyon, acabara a moleza para a França. O mata-mata foi de tirar o folego do torcedor e criar “uma casca” nos Bleus, que se solidificavam moralmente e taticamente a cada conquista. Logo de cara, o jogo histórico diante do Paraguai de Gamarra, que não cometeu nenhuma falta na Copa. Zidane cumpriu seu segundo jogo de suspensão (foi expulso ao pisar em um atleta da Arábia) e não esteve presente na partida. O quase interminável 0 a 0 só acabou quando Laurent Blanc marcou o primeiro Gol de Ouro em mundial.

Nas quartas, o adversário foi a Itália, uma das favoritas, que tinha uma defesa forte e um contra-ataque mortal. Ambas jogavam com fantasmas rondado, medos e frustrações de outrora. Na marca da cal, após empate sem gols, os franceses venceram por 4 a 3. Roberto Baggio acertou sua penalidade, diga-se.

"Estou satisfeito com meu desempenho nesta Copa. Só me faltou uma coisa até agora, que é marcar um gol, e espero marcá-lo na final contra o Brasil."

Zidane, após a semifinal da Copa

A semifinal teve um nome Thuram. Dinâmico, o futebol possui uma linha tênue entre o fracasso eterno e a glória eterna. O lateral-direito falhou no gol de Šuker. Porém, no minuto seguinte, empatou o jogo. O próprio Thuram virou o jogo, comemorou de forma marcante, e gravou seu nome na história dos mundiais. A partida reservou o encontro entre a sensação do torneio e a equipe da casa, pressionada, tendo a obrigação de bater o azarão.

 

O sonho do penta foi adiado

A reta final de preparação da Seleção Brasileira para o Mundial da França foi turbulenta. O técnico Zagallo viu Zico ser incluído em sua comissão técnica, o que não estava nos planos do Velho Lobo. O caso Romário repercutiu mais ainda. A menos de dez dias para o início do torneio mundial, o baixinho foi cortado por conta de uma lesão na panturrilha.

"Não fui eu que cortei Romário, mas fazer o quê? Ele pensa que é o rei da cocada preta. O que esperar de um cara que se acha Deus?"

Zico, em 1998

Quando constatada, o problema foi considerado leve, com recuperação rápida. Porém, dias depois, a comissão médica da seleção entrou em contradição e divulgou que tal lesão era mais grave e não seria curada a tempo do camisa 11 disputar a copa. Romário retornou ao Flamengo e voltou a jogar rapidamente, antes mesmo da final. Zagallo e Zico se tornaram desafetos de Romário e viraram piada nos banheiros da boate “Café do Gol”, que pertencia ao jogador.

Os últimos amistosos foram tenebrosos. Derrota para a Argentina, empate com o Athletic de Bilbao e vitória protocolar diante de Andorra. Após o jogo diante do clube basco, Edmundo acusou companheiros de boicotá-lo, gerando uma crise interna. Vale lembrar que Juninho, Flávio Conceição e Márcio Santos também tiveram cortes não esclarecidos da forma correta pela comissão.

O Brasil teve uma primeira fase turbulenta, vencendo a Escócia com dificuldade, contando com um gol contra para faturar os três pontos. Na sequência, bateram Marrocos por 3 a 0, com gol de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto. A derrota para a Noruega na última rodada escancarou a falta de união do grupo.

Tal fato foi esquecido após a classificação nas oitavas de final, diante do Chile, por 4 a 1. O individualismo marcava a campanha do Brasil naquela ocasião, o coletivo pouco existia e a fragilidade defensiva se revelava a cada fase do torneio. Rivaldo resolveu nas quartas de final e a Dinamarca foi mandada para casa após o placar de 3 a 2.

A semifinal reservou, talvez, o melhor jogo daquele campeonato. Brasil e Holanda empataram em 1 a 1, com grande atuação de Ronaldo. O craque abriu o placar, perdeu várias chances, teve uma atuação individual destacável, mas viu seu time despencar diante da pressão laranja e sobre o empate no fim do tempo normal. Na marca da cal, brilhou a estrela de Taffarel, o herói mais uma vez.

Foto: Mark Sandten/Bongarts/Getty Images

A escalação padrão da seleção era baseada no 4-2-2-2, típico do futebol brasileiro nos anos 90: Taffarel; Cafú, Aldair, Júnior Baiano, Roberto Carlos; Dunga, César Sampaio, Leonardo e Rivaldo; Bebeto e Ronaldo.

Se as pessoas soubessem o que aconteceu...

Divulgado o escândalo que todo mundo tenta não admitir: a França foi superior ao Brasil, aproveitou-se da fragilidade tática e psicológica da então tetracampeã e engoliu o selecionado canarinho na final. Talvez, isso explique a razão do “torcedor comum” apoiar-se tanto na tese de que a Copa foi vendida, até por que é mais fácil usar a desculpa da “venda” do que admitir que o país do futebol se viu perdido em campo diante de 80 mil pessoas e tomou um sonoro 3 a 0. Sim, o fator Ronaldo teve interferência, mas não tira o mérito quase que total dos Bleus.

Galvão Bueno estava fazendo o pré-jogo da final e recebeu o papel com as escalações. O narrador falou: “Prepare o seu coração e torça para que, pela primeira vez, isto [a folha com os titulares e reservas entregue pela assessoria da Fifa] esteja errado”. Após ler a escalação, ele enfatizou: “Ronaldinho está fora da decisão”, indignado, Galvão se mostrou surpreso e uma correria começou na frente da cabine da Rede Globo, que dava a notícia em primeira mão.

Ao vivo, o narrador alertou que estavam recolhendo papeis e, em seguida, avisou ao Brasil que Ronaldinho iria jogar. Bueno também avisava que o árbitro era marroquino, toda sua família morava na França, e todo aquele cenário. A Seleção Brasileira não aqueceu no gramado do Stade de France, fez a atividade dentro do vestiário.

Dia 12 de julho de 1998, seis horas antes da bola rolar, quarto 290 da concentração do Brasil, o melhor jogador do mundo tinha uma convulsão e assustava todos no prédio, desde jogadores até a comissão técnica. Após reuniões e decisões, ficou certo de que o camisa 9 não atuaria, pois o corpo ainda estava sofrendo com os efeitos, estando todo contraído. Zagallo fez a preleção e escalou o time com Edmundo, para não correr riscos, já que Ronaldo foi para o hospital. Restando uma hora para a partida, o atacante demonstrou estar bem, pediu sua escalação na final e foi aquecer. Os relatos são vários, seus companheiros estavam abalados e isso pesou no momento mais crítico. A incerteza e o medo de um lado contra a confiança do outro.

Porém, a França já tinha suas armas bem definidas. Aimé Jacquet entendeu o sistema de jogo do Brasil, descobriu seus pontos fortes, que escancaravam os pontos fracos. A ideia era limitar o máximo o poder dos alas brasileiros, obrigando o adversário a alterar seu jogo e bagunçar de forma completa o que foi proposto. Tal descoberta não foi descoberta no mundial, apenas concretizada. O técnico francês viu as franquezas brasileiras no confronto realizado no ano anterior, famoso pelo gol de Roberto Carlos. Parando os laterais, parava-se todo o sistema brasileiro.

"Olha o que aconteceu!" (Foto: Mark Sandten/Getty Images)

Os Bleus atuaram no 4-3-2-1, que variava conforme o encaixe no meio-campo. Thuram e Karembeu fechavam o setor esquerdo do Brasil, enquanto que Lizarazu e Petit complicavam a vida de Cafú e Leonardo pela direita brasileira. Deschamps cercava pelo meio com o auxilio dos outros dois meias. A marcação superou o rígido sistema tático brasileiro, que não tinha um plano B, no máximo uma recuada de Leonardo para formar o 4-3-1-2, mas que não era efetivo no ataque.

Durante a metade inicial do primeiro tempo, a Seleção Brasileira até criou boas chances através da bola aérea, mostrando o curto repertório. E foi através da bola parada – neste caso uma das alternativas francesas e não a principal jogada – que o jogo foi resolvido. Zidane, cobrador oficial, foi para a área, tal mudança foi fatal e o gênio marcou dois tentos no primeiro tempo, destruindo qualquer esperança brasileira. Djorkaeff foi o autor das duas assistências. No segundo tempo, vimos um Brasil nervoso, acuado, errando bastante. Petit aproveitou para anotar o terceiro e colocar uma estrela dourada acima do escudo da FFF.

Davor Šuker: artilheiro em 1998, terceiro melhor do mundo

Foto: Omar Torres/AFP/Getty Images

Natural de Osijek, Iugoslávia, Davor Šuker assombrou o mundo liderando a Seleção Croata. O atacante quase repetiu o feito de Jairzinho em 1970. Foram sete jogos e seis gols anotados. O camisa 9 não marcou apenas diante da Argentina, na fase de grupos, quando ambas já estavam classificadas. Antes do mundial, seus números eram fora da realidade, 34 gols em 40 partidas pela Croácia. O desempenho na Copa colocou o jogador do Real Madrid na disputa pelo prêmio de melhor do mundo da Fifa, ficando atrás apenas de Zidane e Ronaldo.

“Times pequenos também podem ganhar”

Um país marcado pela guerra. A Croácia conseguiu em 25 de junho de 1991, através de um plebiscito, sua separação da Iugoslávia. Entretanto, um conflito armado iniciou-se após a invasão do exército sérvio, gerando uma guerra civil com a minoria sérvia que habitava a região, além do forte movimento separatista sérvio na sua província de Krajina, na fronteira com a Bósnia. Em 1992, os croatas conseguem o reconhecimento de sua independência, porém todos os problemas internos se arrastaram até o final da década.

A Croácia teve um bom desempenho na Eurocopa 1996, sua primeira grande competição. Classificaram em segundo no Grupo D, com duas vitórias e uma derrota. Nas quartas de final, caíram para a Alemanha por 2 a 1. Naquela edição, Šuker marcou três tentos e entrou para a seleção de melhores do torneio. Este contexto colocava a Seleção Croata “fora do radar”, vista apenas como mais uma participante.

Foto: Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images

Em um grupo onde a Argentina era a grande favorita, os croatas conseguiram a segunda colocação. Venceram Jamaica (3 x 1) e Japão (1 x 0), perdendo para os argentinos (1 x 0) na última rodada. A Romênia foi a adversária nas oitavas, conseguindo a classificação pelo placar mínimo. Nas quartas, o reencontro com a Alemanha. A vingança veio com um sonoro 3 a 0 em Lyon. Na semifinal, o impossível quase aconteceu. Quase, pois os franceses venceram de virada. Na disputa do terceiro lugar, triunfo diante dos holandeses.

Por tudo que cerca a história da Croácia, a terceira colocação não é classificada apenas como a zebra daquela copa, mas também como uma das façanhas mais surpreendentes da história do futebol. A atual geração sente o peso e o fantasma daquela campanha, tentando sempre repeti-la, algo ainda não alcançado.

A expectativa foi a maior vilã para Espanha e Bulgária

Tivemos duas decepções destacáveis nesta Copa do Mundo. A Seleção Espanhola, composta por Zubizarreta, Raúl, Pizzi, Morientes, Hierro e outros ficou ainda na fase de grupos, somando apenas uma vitória e um empate. No mesmo grupo, a Bulgária, que vinha com a expectativa alta após a boa campanha quatro anos antes, também foi eliminada cedo. Ambas eram favoritas na chave D, que teve como classificados Paraguai e Nigéria. Hristo Stoichkov e companhia somaram apenas um ponto.

Vale citar também o vice-campeonato do Brasil, pelas circunstâncias e o sonoro 3 a 0 sofrido pela Alemanha diante da Croácia.

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