Seleções de Chile, Itália, Argentina, Espanha e Brasil experimentam mudança de "ciclos"

Observados por todo o planeta, os trabalhos dos treinadores chegaram ao fim por diversos motivos

Seleções de Chile, Itália, Argentina, Espanha e Brasil experimentam mudança de "ciclos"
Foto: Editoria de Arte/VAVEL Brasil

Por quaisquer que sejam os motivos, trocas de técnicos são frequentes no futebol. Este ano, no universo das seleções nacionais, trabalhos para os quais os holofotes estavam voltados receberam um ponto final. Foram os casos de Jorge Sampaoli no Chile, Antonio Conte na Itália, Tata Martino na Argentina, Vicente Del Bosque na Espanha e Dunga no Brasil.

Sampaoli saiu do Chile pela porta dos fundos

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A saída de Sampaoli do comando da seleção chilena foi inesperada. Afinal, o argentino vinha dando continuidade à filosofia do compatriota Marcelo Bielsa - de quem é fã declarado - e já colhia frutos com uma boa campanha na Copa do Mundo de 2014 e o título da Copa América de 2015. E o trabalho estava sendo devidamente reconhecido. Não à toa foi indicado ao Prêmio Fifa de Melhor Técnico de 2015, juntamente com os espanhóis Pep Guardiola, então do Bayern de Munique, e Luís Enrique, do Barcelona.

Os motivos do fim da Era Jorge Sampaoli na Roja foram puramente extra-campo. O escândalo de corrupção na Associação Nacional de Futebol Profissional (ANFP) derrubou o presidente Sergio Jadue. Ele confessou ter desviado dinheiro da venda de direitos de transmissão de competições como a Copa América e está preso nos EUA. Jadue era o braço direito de Sampaoli na federação chilena. E o técnico teve seu nome associado ao escândalo, fato que o chateou.

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"Nesse ambiente já não quero trabalhar nem viver no país. Nunca imaginei que em tão pouco tempo se destruiria a imagem de um ídolo que tanto deu ao futebol chileno", disse o técnico em entrevista ao site Faro Deportivo"Afetaram a minha honra e minha dignidade pessoal pretendendo me ligar a todos os atos de corrupção do dirigente anterior e de aproveitarem esses momentos para levarem vantagens econômicas. Isso é incrível e inaceitável", completou.

Jorge Sampaoli admitiu que parte de seu salário e os prêmios recebidos no cargo foram depositados em uma conta nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. "Há cinco anos eu ganhava US$ 3 mil. Não considera o senhor justo, então, que eu pretenda economizar depositando meus salários que protejam essa renda legítima e sobre a qual, além disso, os impostos estão regularizados por serem de responsabilidade do empregador?", justificou.

O comandante não tardou em pedir demissão. O novo presidente da ANFP, Arturo Salah, até tentou convencê-lo a ficar, mas sem sucesso. À frente da Roja, Sampaoli colecionou 27 vitórias, oito empates e nove derrotas em 44 jogos.

Para o seu lugar veio o argentino naturalizado espanhol Juan Antonio Pizzi, que estava no León, do México. Tendo como objetivo prosseguir o legado de Bielsa e Sampaoli, Pizzi começou com o pé direito: conquistou a Copa América Centenário nos EUA, ao bater a Argentina - coincidentemente, a mesma rival da decisão de 2015 - nos pênaltis - da mesma forma do ano passado. Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018, os chilenos somam 10 pontos e estão em quarto lugar, posto que lhes daria a vaga direta ao Mundial na Rússia. Já se passaram seis rodadas do certame.

Evidentemente, um técnico do naipe de Sampaoli, cuja filosofia consiste em ocupar os lados do campo e pressionar bastante a defesa adversária, não ficaria muito tempo desempregado. Após o fim da temporada 2015/2016 do futebol europeu, ele acertou com o Sevilla. Na liga espanhola, o "bielsista" tem como potenciais adversários o compatriota Diego Simeone (Atlético de Madrid), o francês Zinedine Zidane (Real Madrid), o mesmo Luís Enrique que o superou na eleição de melhor técnico de 2015 da Fifa e os também espanhóis Ernesto Valverde (Athletic Bilbao) e Marcelino García Toral (Villarreal).

Antonio Conte, o "bombeiro" mais requisitado do futebol mundial

Claudio Villa/Getty Images

Conte chegou à seleção italiana com o objetivo de resgatar o prestígio e o orgulho da Azzurra, que vinha de duas campanhas vexatórias em Copa do Mundo - foi eliminada na primeira fase em 2010 e 2014 - e de uma goleada em final de Eurocopa - 4 a 0 para a Espanha em 2012. O contrato era curto, de dois anos. Mas pode se dizer que o objetivo foi alcançado. Com Conte no comando, a tetracampeã mundial chegou à Euro 2016, onde superou a badalada Bélgica e foi líder do Grupo E. No mata-mata, despachou a Espanha, então bicampeã do certame, e só caiu perante a campeã do mundo Alemanha nos pênaltis.

Os jogadores se mostraram fiéis à filosofia de Conte, que consiste em uma dedicação impecável na marcação, no preenchimento de espaços e em ataques mortais - mas nada de contra-ataque, como ele mesmo já falou. Falando de uma maneira mais transcendental: de jogar cada partida como se fosse a última. O treinador tirou o melhor de seus comandados. Foram 25 jogos, 14 vitórias, sete empates e apenas quatro derrotas.

Antes de chegar à seleção de seu país, Antonio Conte participou do renascimento da Juventus, onde fez história como jogador na década de 90 e no início dos anos 2000. No comando da Velha Senhora, o ex-meio-campista cicatrizou as feridas do polêmico e recente rebaixamento à Serie B - em virtude do escândalo do Calciopoli - com três títulos consecutivos da Serie A - sequência que já vai em cinco taças, com as duas conquistadas recentemente por Maximiliano Allegri.

Conte agora tem um novo desafio. O destino é o Chelsea. O clube inglês está fora das competições europeias pela primeira vez desde a chegada do bilionário russo Roman Abramobich. Segundo a imprensa europeia, o italiano receberá nos Blues um salário anual de 6,3 milhões de libras. O contrato é de três temporadas.

O acordo fora concretizado antes mesmo do início da Eurocopa. Ou seja, vontade de reerguer mais uma grande equipe do futebol mundial é o que não falta a Conte. Ele pode ser considerado o "bombeiro" mais requisitado do futebol mundial. Na Premier League fica a promessa de grandes duelos contra o italiano Claudio Ranieri (Leicester), o português José Mourinho (Manchester United), o espanhol Pep Guardiola (Manchester City), o francês Arsène Wenger (Arsenal), o alemão Jürgen Klopp (Liverpool) e o argentino Mauricio Pochettino (Tottenham).

A vaga deixada por Antonio Conte na Azzurra será preenchida por Giampiero Ventura, que passou os últimos cinco anos treinando o Torino. Ventura é um técnico extremamente rodado. Para se ter ideia, o Toro foi sua 17ª equipe. Ele não chegou a treinar o "Trio de Ferro" nem a dupla da capital. É conhecido, também, por fazer bons trabalhos com elencos limitados e por desenvolver jovens talentos - os zagueiros Leonardo Bonucci e Andrea Ranocchia e o atacante Ciro Immobile são exemplos.

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Saída de Tata Martino escancara crise na AFA

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Os consistentes trabalhos na seleção do Paraguai e no Newell's Old Boys credenciaram o argentino Gerardo "Tata" Martino ao poderoso Barcelona. Nem o trabalho mal sucedido em território espanhol na temporada 2013/2014 - conquistou apenas a Supercopa da Espanha, perdeu a Copa Del Rey para o rival Real Madrid e foi superado pelo Atlético de Madrid nas quartas de final da Champions League e em La Liga - acabou com sua reputação, pois logo ele foi chamado para substituir Alejandro Sabella na seleção argentina.

Sob o comando de Tata Martino, a Albiceleste chegou às finais da Copa América de 2015 e da Copa América Centenário. Foi derrotada pelo Chile nos pênaltis em ambas as decisões. Apesar dos fracassos, as boas atuações apresentadas nessas competições motivaram a Associação do Futebol Argentino (AFA) a bancar a permanência do treinador. Contudo, Tata decidiu renunciar ao cargo por diversos motivos.

Também cotado para assumir a seleção olímpica na Olimpíada do Rio 2016, Martino teria se irritado com a escassez de jogadores disponíveis para os Jogos Olímpicos, segundo o jornal argentino Olé. Apenas seis estavam confirmados: Rulli (Real Sociedad), Gómez (Lanús), Martínez (Unión), Espinoza (Villarreal), Lo Celso (PSG) e Correa (Atlético de Madrid). Além disso, o técnico não recebia salário há nove meses.

Logo depois da final da Copa América Centenário, o atacante Lionel Messi declarou que não pretende mais defender a seleção argentina. O desabafo do craque gerou comoção nacional. Outros jogadores como Agüero, Mascherano, Banega, Biglia, Lavezzi e Di María também podem abandonar a bicampeã mundial. Seria um protesto contra a AFA?

A federação argentina está mergulhada em uma grave crise política e financeira. Devido a uma investigação sobre o desvio de recursos do programa federal de apoio ao futebol do país, os poderes Executivo e Judiciário da Argentina interviram na campanha presidencial do carro-chefe do futebol argentino. A eleição, que deveria ocorrer no dia 30 de junho, definiria o substituto de Luis Segura, que renunciou ao cargo - ele comandava a AFA desde 2014, quando Julio Grondona faleceu.

A Fifa não esconde sua preocupação com a situação, tendo em vista que, pelo estatuto da entidade máxima do futebol, é proibida a intervenção do governo de um país na federação de futebol local. Nesse caso, a lei prevê a exclusão da federação em questão.

"Devido à indefinição na designação de novas autoridades da Associação do Futebol Argentino e os graves inconvenientes para conseguir formar a equipe para representar o país nos próximos Jogos Olímpicos, a comissão técnica da seleção decidiu apresentar sua renúncia nesta data", disse um comunicado divulgado pela AFA em 5 de julho.

Martino deixou a Albiceleste com 19 vitórias, sete empates e três derrotas em 29 jogos. Ele é cotado para voltar a treinar o Paraguai, que está sem técnico desde o fim da Copa América. O também argentino Ramón Díaz pediu para sair após a eliminação precoce.

Enquanto isso, a AFA definiu Julio Olarticoechea, ex-técnico da seleção sub-20 e da seleção feminina do país, como técnico da seleção olímpica. Ele foi campeão mundial em 1986, como jogador. Por outro lado, o cargo de treinador da seleção principal continua vago. O nome mais cotado é o de Marcelo Bielsa, que recentemente cometeu mais uma de suas loucuras: rescindiu com a Lazio dois dias depois de assinar contrato.

A Argentina está em terceiro nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo com 11 pontos, dois atrás dos líderes Uruguai e Equador.

Fim de uma era: Vicente Del Bosque deixa a Espanha

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Cento e catorze jogos, 87 vitórias, 10 empates e 17 derrotas; 254 gols marcados e apenas 79 sofridos, com saldo positivo de 175 gols. Uma Copa do Mundo e uma Eurocopa conquistadas. O retrospecto de Vicente Del Bosque na seleção espanhola fala por si só: é um dos trabalhos mais vitoriosos da história do futebol. Del Bosque pegou uma base preparada por Luís Aragonés que já fora campeã continental em 2008. Veio com a missão de dar prosseguimento ao trabalho de seu lendário antecessor. E a cumpriu com louvor.

A melhor forma de se defender e de bater o adversário é ter a bola dos pés. Com essa filosofia de jogo - que, vale dizer, tem Pep Guardiola como um dos seus grandes seguidores -, La Fúria tornou-se a seleção a ser batida durante muito tempo. A vitória sobre a Holanda pelo placar mínimo na final da Copa do Mundo de 2010 e a goleada sobre a Itália na decisão da Euro 2012 foram os ápices.

Depois vieram a acachapante derrota para o Brasil na final da Copa das Confederações de 2013, a eliminação precoce na Copa do Mundo de 2014 e a campanha modesta na Eurocopa de 2016. Talvez sejam indícios de que a seleção precisa reinventar seu repertório. Pode se dizer que Vicente Del Bosque saiu na hora certa.

Del Bosque detém um recorde difícil de ser igualado no mundo do futebol: é o único profissional que já foi campeão da Uefa Champions League (duas vezes, ambas com o Real Madrid), do Mundial Interclubes (também com os merengues), da Eurocopa e da Copa do Mundo, todas como treinador.

A saída da equipe nacional da Espanha foi uma decisão do próprio Vicente Del Bosque. Ele também anunciou sua aposentadoria da área técnica e não deu pistas sobre o seu sucessor. Joaquín Caparrós (ex-Sevilla, Deportivo La Coruña, Athletic Bilbao, Levante e Granada), Julen Lopetegui (ex-seleções de base da Espanha e FC Porto), Paco Jemez (Rayo Vallecano) e Jose Miguel González, o "Michel" (ex-Getafe, Sevilla e Olympique de Marseille) estão entre os cotados.

Dunga por Tite: uma troca mais do que necessária para o Brasil

Mateus Schuler/VAVEL Brasil

Esta certamente é a troca mais necessária desta lista. Ídolo da Canarinho pelo papel de liderança que exerceu dentro de campo - não à toa foi capitão e, merecidamente, ergueu a taça do mundo em 1994 -, Dunga aceitou o desafio de fazer história na Seleção também na área técnica. Entre 2006 e 2010, o gaúcho acumulou 42 vitórias, 12 empates e seis derrotas. Conquistou a Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009. Na Copa do Mundo, foi eliminado pela Holanda nas quartas de final. Resultados longe de serem ruins com uma geração de transição entre a dos anos 2000 e a dos anos 2010.

Entretanto, o treinador não mostrou evolução em termos de ideias e táticas em sua segunda passagem, que se iniciou após a saída de Luiz Felipe Scolari, em 2014. Muito pelo contrário, pareceu ter regredido. Mesmo com jogadores mais talentosos e mais apurados tecnicamente em relação aos da sua primeira passagem, Dunga proporcionou um futebol coletivamente pobre à Seleção. O pragmatismo se refletiu na má campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 e nos fiascos nas Copas América.

Na corrida pelas vagas no Mundial da Rússia, o Brasil é apenas o sexto colocado com nove pontos. Se as Eliminatórias da Conmebol terminassem hoje, a Seleção Brasileira estaria fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história.

Na edição de 2015, no Chile, o escrete verde e amarelo foi eliminado pelo Paraguai nas quartas de final, nos pênaltis. Na Copa América Centenário, nos EUA, a campanha foi ainda pior: a Seleção caiu na primeira fase depois de ficar atrás de Equador e Peru e à frente apenas do Haiti. A situação do treinador ficou insustentável, e a "Segunda Era Dunga" de maneira melancólica. Nos números, 18 vitórias, cinco empates e três derrotas em 26 partidas. Estatísticas maqueadas pelos amistosos.

As glórias no Corinthians credenciaram Tite ao lugar de Dunga, e o conterrâneo do ex-capitão da Canarinho aceitou o desafio. O maior de sua carreira, certamente. Mais do que fazer o Brasil voltar a jogar bonito e levá-lo à próxima Copa do Mundo. Tite também tem como objetivos reaproximar a Seleção do torcedor e resgatar o orgulho dos brasileiros pela Amarelinha, fatores que estão em falta desde o fatídico 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

Não será uma tarefa fácil - treinar a pentacampeã do mundo, em qualquer que seja a circunstância, nunca é fácil. Mas o campeão gaúcho de 2000 com o Caxias, o campeão da Copa do Brasil de 2001 com o Grêmio, o campeão da Sul-Americana de 2009 com o Internacional, o campeão brasileiro de 2011 e 2015, da Libertadores e Mundial de 2012 e da Recopa Sul-Americana de 2013 com o Corinthians tem a confiança de grande parte dos brasileiros.

O pontapé inicial da "Era Tite" será dado no dia 1º de setembro, no Estádio Olímpico Atahualpa, em Quito, contra o Equador, pelas Eliminatórias.