Triunfo do planejamento e da vontade: a história do Atlético Nacional finalista da Libertadores

A fé no longo prazo e o desenvolvimento de um futebol primoroso passo a passo levaram os colombianos até a terceira final continental de sua história depois de seis anos de planejamento.

Triunfo do planejamento e da vontade: a história do Atlético Nacional finalista da Libertadores
(Foto: Getty Images)

Exatamente 18 de junho de 2011, noite elétrica em Medellín, decisão do Apertura colombiano. Javier Araújo, do La Equidad, tenta uma cavadinha na última cobrança da série penal e pára nas luvas do goleiro Gastón Pezzuti, do Atlético Nacional. Os anfitriões ficam com o título e voltam às competições internacionais depois de uma ausência de quatro anos. Das tribunas, o presidente verde, Juan Carlos de la Cuesta, programa um telefonema para o velho magnata Ardilla Lülle, pensando em já iniciar junto ao dono do clube o planejamento do ano seguinte. A diretriz é uma só: voltar a vencer a copa mais desejada da América do Sul.

Nem o mais otimista vidente colombiano poderia prever que ali nascia um dos projetos de longo prazo mais bem construídos e bem-sucedidos do futebol mundial nos últimos tempos. O sonho ambicioso de de la Cuesta iniciado com a marcante defesa de Pezzuti, completou cinco anos no último mês, mas atingiu o ápice na noite de ontem, quando o Atlético Nacional bateu o São Paulo por 2 a 1 pelas semifinais da Copa Libertadores de 2016 e voltou à decisão mais importante do continente depois de 21 anos da última aparição.

Dada a campanha do escrete paisa nesta edição do torneio, a chegada à final parece natural. Os colombianos são donos do melhor ataque, da melhor defesa e sofreram apenas uma derrota ao longo da competição. O futebol envolvente dos comandados de Reinaldo Rueda é elogiado por seu senso de posicionamento, toque de bola, aplicação tática, mas principalmente por aliar esse leque de talentos à costumeira vibração de quem disputa uma Libertadores para ganhar. O sucesso, porém, começou bem antes do presente e passou por mais mãos do que se pode imaginar.

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Plantando no presente para colher no futuro

Voltemos, portanto, ao Apertura de 2011, que decidiu os rumos da direção dos verdolagas até aqui. O título foi conquistado sob o comando do treinador Santiago ‘Sachi’ Escobar, que já contava com opções que forneceriam a base do projeto continental e ocupariam papéis de destaque em pelo menos uma temporada posteriormente, como Macnelly Torres, Sebastian Pérez, Orlando Berrío, Edwin Cardona e Dorlan Pabón.

Jogando num 4-2-2-2 que explorava toda a vitalidade dos homens de frente, Sachi implantou a filosofia que nenhum de seus sucessores abandonou. O toque de bola e a brilhante ocupação de espaços não foram um problema com tanto talento à disposição. Infelizmente para o Atlético Nacional, havia uma pedra no meio do caminho.

Na Libertadores de 2012, os colombianos pararam nas oitavas de final diante do Vélez Sarsfield. Entre os dois jogos da primeira eliminatória, a queda de Escobar, que foi substituído por Juan Carlos Osório, mas deixou seu espólio à disposição do compatriota. Apesar dos tropeços, a direção estava correta.

A era Osório: ousadia e inovação para voar mais alto

Juan Carlos Osório é um verdadeiro gentleman. Formado na escola inglesa de treinadores, desempenhou funções na comissão técnica do Manchester City durante entre 2001 e 2006, ainda distante dos petrodólares. Foi o suficiente para que ele conquistasse uma licença A de treinador pela UEFA e dominasse os atributos que marcariam sua passagem histórica pelo Atlético Nacional: o bom trabalho com jovens jogadores e a visão para encontrar peças úteis e pontuais onde a maioria dos analistas enxerga mais do mesmo, ao melhor estilo Moneyball.

Nada disso, contudo, o impediu de sofrer críticas nos primeiros meses de comando da equipe. Torcedor do Nacional, o administrador de empresas Sebastian Morales, 31, entrevistado pela VAVEL Brasil, aponta que a vida do Profe não foi fácil. “A princípio, ele não caiu bem entre a torcida. As primeiras partidas foram ruins e chegaram a pedir sua saída. Os jogadores pareciam não o entender e não gostavam da rotação no elenco, que eram mais de sete, às vezes, de uma partida para outra. Mas ele se manteve apesar das dificuldades e ganhou tudo, seis títulos nacionais em três anos”, conta.

O problema é que pela Libertadores, o elenco não engrenava. Em 2014 e 2015, o Santo Graal de Osório lhe escorreu pelas mãos duas vezes consecutivas e a barra pesou. O técnico rumou para o Brasil deixando em Medellín um legado incontestável: fez os rapazes de verde jogarem o melhor futebol jamais visto na América em décadas e conquistou uma legião de devotos, até hoje nostálgicos ao falar de seu nome.

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Botões de flor: a primavera se aproxima de Antioquia

Enquanto Osório se digladiava com a imprensa na Barra Funda, o paisas anunciavam sem alarde a chegada do discípulo maior, se é que houveram outros, do vitorioso treinador. Era Reinaldo Rueda, 59, ex-comandante da seleção equatoriana de futebol. Os detalhes são desnecessários. Em um ano, captou o que havia de melhor nos trabalhos de Escobar e Osório e potencializou o estilo, transformando-o em além de vencedor, mortífero e capaz de eliminar os últimos fantasmas continentais.

O toque de bola está lá, o talento simples, menino e que é gostoso de assistir, também, mais presente do que nunca. A modernidade tática de Osório e a aplicação e entrega de Escobar se uniram ao futebol bonito, que funciona e traz os resultados. Com a palavra, a torcida. “Rueda fez o que faltava em todos esses anos, trouxe o jogo bonito que dá alegria à torcida. Também conquistou um recorde estatístico impressionante e nos deixa cada vez mais perto da segunda Libertadores de nossa história”, diz o sorridente Morales.

Não é para menos. Na Copa Libertadores de 2016, o Nacional teve a melhor campanha absoluta da edição. A primeira fase foi fechada sem derrotas e sem sequer sofrer gols. Guiado pela visão de Macnelly Torres, sempre maestro, e pela movimentação precisa e incessante de Alejandro Guerra, o elenco encontrou liberdade para passear em campo e simplesmente resgatar o espírito pueril da boa, representado nos dribles de Marlos Moreno e na ousadia e o peito estufado de Orlando Berrío. A vítima mais recente, o mesmo São Paulo que também recebeu os ensinamentos de Profe Osório, sucumbiu mesmo no Morumbi aos gols do atrevido Miguel Borja.

O Atlético Nacional está mais perto do que nunca de provar uma vez mais o sabor de conquistar o continente. Perguntado sobre um possível título, Sebastian assume falar em nome de todos os companheiros torcedores. “Todos nós estamos esperando por esse momento ansiosamente, poder celebrar o campeonato da América em Medellín pela primeira vez. Em 89, a CONMEBOL não nos queria vencedores e mandou o jogo em Bogotá, agora chegou nossa vez”, diz confiante.

O bicampeonato da Libertadores ainda passará por duas batalhas de alta tensão, mas os torcedores já têm seu mantra, o mesmo entoado no Tango del Rey, famosa música dos fãs: “Y tus hinchas sólo esperan que esta vuelta sea tuya, y que llegues triunfalmente a la meta de campeón!”

(Foto: Getty Images)
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