Atlético Nacional: o primeiro clube colombiano campeão da Libertadores da América

A história de um dos maiores times de todos os tempos da Colômbia e a influência do narcotráfico no futebol e na morte

Atlético Nacional: o primeiro clube colombiano campeão da Libertadores da América
(Foto: Divulgação / Atlético Nacional)

O Atlético Nacional tem o nome estampado na Copa Libertadores da América. Na edição de 2016, chega à sua terceira final e a disputa do bicampeonato só é possível graças ao título conquistado em 1989. Foi o primeiro título de Libertadores de um clube colombiano. A história deste feito envolve mais do que os eventos dentro das quatro linhas, infelizmente.

A influência do tráfico de drogas e da injeção de dinheiro nos principais clubes colombianos na época interferiu diretamente nos resultados obtidos na cancha. Os comandados do técnico Francisco Maturana chegaram ao topo da América do Sul em período turbulento da Colômbia.

A história do narcotraficante Pablo Escobar funde-se aos trilhos do Atlético Nacional de Medellín. Escobar nasceu na cidade de Rionegro, mas a vida de criminalidade começou na juventude em Medellín. Os negócios com o tráfico de drogas tiveram crescimentos astronômicos com uma expansão de mercado da Colômbia aos Estados Unidos. A crescente é registrada desde os anos 1970, estendendo-se à década em questão.

Pablo Escobar inaugura campo na periferia de Medellín (Foto: Reprodução)

Antes da influência no mundo do esporte, Escobar encontrou na vida política uma maneira de ampliar contatos, driblar e subornar fiscalizações e encontrar a empatia da população mais pobre. Na realidade do dinheiro ilegal e das eliminações de concorrência com o cartel de drogas, Escobar também conseguiu melhorias para as populações periféricas, inclusive com a criação de campinhos de futebol (imagem acima). Dessa maneira, ficou como uma figura associada a Robin Hood, tamanha sua ascendência entre os mais pobres.

Em um cenário muito diferente do futebol globalizado de atualmente, a Colômbia não era postulante a títulos sul-americanos ou classificações às Copas do Mundo. A proporção muda com os irmãos Orejuela como líderes do tráfico na cidade colombiana de Cali. Por influência direta dos irmãos, com inflações na conta bancária do clube, o América de Cali chegou às lideranças do campeonato da Colômbia e o venceu por cinco anos consecutivos, entre 1982 e 1986. Por classificações através do torneio local, alcançou o vice da Libertadores em 1985, 1986 e 1987.

Já Pablo Escobar endereçou-se na mesma onda, mas com os clubes de seu território, Medellín. O Independiente e o Atlético Nacional foram os beneficiados da vez. O técnico Francisco Maturana era um ex-jogador dos alviverdes e passou ao comando na casamata em 1987.

A equipe e a campanha histórica

Nacional do técnico Maturana, primeiro (da direita para esquerda).

Vale ressaltar que o Nacional era um clube que, tal qual o nome, apostava em jogadores colombianos. Chegou a receber a alcunha de Los Puros Criollos, pela política de promover jogadores locais. No ano de 1988, a representação verdolaga dava as caras pelo título colombiano, mas este acabou com o Millonarios. A segunda posição, todavia, levou a esquadra de Medellín à Copa Libertadores de 1989. Após seguidos tropeços do América de Cali na final, o Nacional tinha uma grande equipe para conquistar a competição.

O folclórico René Higuita foi um goleiro influente. Tinha elasticidade e reflexo para fazer as defesas na pequena área. Mais do que isso, quando saía a jogar com os pés, tinha qualidade para atuar como zagueiro da sobra, deixando a grande área e iniciando a armação da equipe de Medellín. Mas a defesa passava pela segurança do zagueiro Andrés Escobar. Vindo do rival Independiente, Luis Carlos Perea formava parceria com Andrés.

No meio de campo, a bola desfilava controlada pelo capitão Alexis García e pelo companheiro de meia cancha, Fajardo. O principal atacante dos colombianos foi Usuriaga, jogador de 1,92m, velocidade, passadas largas e poder de decisão fantástico nas finais. Jairo Tréllez possuía ótimo posicionamento na grande área. No comando de Marutana, as características do Atlético Nacional eram de uma equipe veloz e com equilíbrio entre os setores, do bom papel defensivo ao ataque.

Na primeira fase da Libertadores de 1989, o Atlético Nacional reconheceu as mesmas dificuldades do torneio da Colômbia, sofrendo derrota para o Millonarios por 2 a 0. Fora esta derrota, foi superior aos equatorianos do Emelec e do Deportivo Quito, com uma vitória e um empate contra ambos. Classificou em segundo lugar, atrás do Millonarios.

Na fase de oitavas, enfrentou o campeão de 1967, o Racing, da Argentina. O alviverde de Medellín abriu 2 a 0 em casa e a derrota por 2 a 1 na volta o possibilitou ir mais longe. As quartas reservaram o gosto preciso da revanche. Novamente decidindo fora de casa, o Atlético Nacional fez 1 a 0 sobre o Millonarios e arrancou empate por 1 a 1 fora de seus domínios para triunfar à final.

Após embates muito disputados no mata-mata, a semifinal mostrou eficiência da equipe de Marutana. Empate na ida por 0 a 0 e incrível goleada de 6 a 0 sobre o Danubio, do Uruguai. O placar elástico, entretanto, levanta suspeitas exatamente pelas influências externas mencionadas inicialmente nesta história. Algo semelhante ao Argentina 6 a 0 sobre o Peru, da Copa do Mundo de 1978. No Atlético Nacional 6 a 0, foram quatro gols de Usuriaga, um de Alexis García e um de Arboleda.

Na final, Olimpia venceu jogo de ida no Defensores del Chaco

Em 24 de maio de 1989, Olimpia e Atlético Nacional de Medellín começaram a decidir a Copa Libertadores no estádio Defensores del Chaco, no Paraguai. Nacional foi a campo com Higuita; Villa, Luis Perea, Andrés Escobar e Gómez; Perez, Alvarez, Fajardo, Alexis García, Arango e Usuriaga.

Com um tiro no canto, Higuita espalmou para escanteio e evitou a abertura de placar. Usuriaga teve a melhor chance pelo Nacional e chutou na rede pelo lado de fora. Foi em cruzamento pela direita que o Olimpia, em dois toques de cabeça, fez 1 a 0, com Bobadilla desviando às malhas. Usuriaga chegou a empatar o jogo em cabeçada, mas cometeu falta ao empurrar o goleiro Almeida.

O gol que selou o placar da ida veio com Amarilla. Acertou um chute inacreditável, em bola que pingava na entrada da área do Atlético Nacional e surpreendeu Higuita, com a redonda entrando no canto da meta, na chamada bochecha da rede: 2 a 0. Fajardo e García distribuíam jogo pelo meio, mas as corridas do ponteiro Usuriaga não deram resultado nos primeiros 90 minutos.

Atlético Nacional devolveu placar no tempo normal

Urusiaga de cabeça (Conmebol)
Usuriaga no gol de cabeça (Conmebol)

Na quarta-feira seguinte, 31 de maio de 1989, Atlético Nacional e Olimpia voltaram a campo para ver quem ficava com a taça da Libertadores da América. O estádio do Nacional na final de 1995 frente ao Grêmio e até nos jogos de atualmente, é o Atanasio Girardot. Em 1989, porém, o jogo decisivo foi disputado no El Campín, em Bogotá, pois a Conmebol não liberou a casa em Medellín.

O Atlético Nacional foi a campo com camisas verdes por dentro dos calções brancos. O estádio na capital estava abarrotado para acompanhar aos colombianos, na oportunidade da primeira Libertadores ganha pelo país.

Nacional teve a seguinte escalação: Higuita, Carmona, Luis Perea, Andrés Escobar e Gómez; Alvarez, Fajardo (Arboleda), Alexis García e Arango (Perez); Usuriaga e Tréllez.

Em jogo nervoso, a grande chance do Olimpia foi no primeiro tempo. Amarilla recebeu entre os zagueiros, avançou e finalizou por cima, próximo ao ângulo. Poderia ter liquidado o confronto.

Na primeira investida da etapa final, Usuriaga recebeu pela extrema direita, encarou a marcação e cruzou por baixo, a zaga falhou no primeiro pau e a bola pegou no zagueiro Niño para entrar: 1 a 0, em gol contra. Sempre pela direita, de longe, Usuriaga tentou encobrir o goleiro Almeida, mas o arqueiro saltou e espalmou para escanteio, quase junto ao travessão.

Como mandava o protocolo, saiu de Alexis García a bola do empate na decisão de 180 minutos. O camisa 8 lançou da meia-direita, o defensor Niño novamente falhou, cabeceou errado e Usuriaga desta vez estava na entrada da pequena área para aproveitar sua altura e conferir de cabeça, antes do goleiro Almeida: 2 a 0, aos 20 minutos.

Higuita defende quatro cobranças e Nacional conquista América nos pênaltis

O jogo caminhou para o inevitável fim nas penalidades máximas. A decisão por pênaltis iniciou com o erro do goleiro Almeida, que chutou à meia altura e Higuita defendeu. Os demais jogadores vinham acertando, até o craque Alexis García chutar a quarta cobrança nas mãos de Almeida para igualar os erros.

Do Olimpia, González cobrou forte, mas Higuita acertou o canto e fez grande defesa, para invasão antecipada dos fotógrafos, corridos pelo árbitro argentino Loustau. O narrador colombiano Jorge Barón pensou que acabaria, mas Perez chutou com força demais e carimbou o travessão.

Guash chutou para mais uma defesa de Higuita. Gómez, por sua vez, desperdiçou a chance do título, com batida para fora: incrível! Balbuena partiu pelo Olimpia e Higuita espalmou seu quarto pênalti. Performance impressionante como defensor das cobranças e da América.

Seguro durante a campanha, o  zagueiro Perea bateu com força, mas Almeida fez uma defesa monumental para manter as chances do Olimpia. Na nona rodada, Sanabria foi para cobrança em uma cavada marca de pênalti. Chutou embaixo da bola e a redonda foi por cima do travessão. Coube ao volante Alvarez decidir. Ele partiu de perna direita, deslocou o goleiro Almeida e definiu o Atlético Nacional de Medellín como primeiro clube da Colômbia a conquistar a Libertadores!

O estádio tremulou fortemente suas bandeiras e faixas em verde e branco e a invasão de campo foi total. O técnico Francisco Maturana escreveu seu nome na história com a conquista inédita ao país. Uma noite que Bogotá, Medellín e a Colômbia não esquecem pela explosão das cores do Atlético Nacional.

(Divulgação / Nacional)

Breve futuro dos campeões

O treinador Maturana foi convidado a assumir a seleção da Colômbia. O Atlético Nacional ascendia em torcida no país e grande parte do elenco ingressou na seleção colombiana.

Urusiaga com a taça
Usuriaga com a taça
(Divulgação / Nacional)

O Atlético Nacional falhou diante do Milan na disputa mundial entre América do Sul e Europa, perdendo por 1 a 0. Na disputa da Recopa Sul-Americana perdeu para o Boca Juniors em duelo nos Estados Unidos, em março de 1990.

René Higuita, Gildardo Gómez, Luis Fernando Herrera, León Villa, José Ricardo Perez, Leonel Alvarez, Luis Carlos Perea e Luis Fajardo foram chamados pelo comandante Maturana para compor a base da convocação para Copa do Mundo de 1990. O capitão era a lenda Carlos Valderrama, na sua época de jogador na Europa. A Colômbia pela primeira vez passou da primeira fase, mas caiu nas oitavas de final.

Quase todos os atletas campeões da Libertadores integraram a seleção. Ainda em 1990, o Atlético Nacional voltava a ficar sob suspeita. O contato do narcotraficante Pablo Escobar fez com que uma vitória na Libertadores sobre o Vasco, por 2 a 0, fosse anulada na Conmebol. Havia denúncia de que Escobar ameaçava o árbitro da ocasião. Naquela Copa, o Nacional caiu para o Olimpia na fase semifinal.

Higuita colhe louros dos triunfos da época até hoje. Foi goleiro por muitos anos da seleção colombiana e teve uma despedida digna do esporte. O defensor Luis Perea seguiu pelo Nacional mais anos, na seleção e até arriscou um tempo pelo México.

Os jogadores de meio campo, Perez, Alvarez e Alexis García também obtiveram destaque pelo Nacional e pela seleção. Arango foi lendário pelas atuações na banda esquerda do campo, sempre abrindo espaço. Na área, Tréllez seguiu ídolo em Medellín, onde marcou muitos gols.

Violência sepulta dois campeões

Assim como dois jogadores, o líder do tráfico, Pablo Escobar foi morto. Em 1993, a polícia colombiana preparou uma emboscada e o matou em um bairro de Medellín. Apesar do enriquecimento pelas drogas, das ameaças a pessoas envolvidas com futebol e das incontáveis vítimas encomendadas pelo narcotráfico, Escobar manteve sua imagem de Robin Hood para muitos colombianos. Cerca de 25 mil pessoas acompanharam seu enterro.

As tragédias dos heróis de 1989 ocorreram nos casos do zagueiro Andrés Escobar e do atacante Usuriaga.

Ídolo do Atlético Nacional, Andrés foi convocado também à Copa do Mundo de 1994. Marcou um gol contra diante dos Estados Unidos e ficou marcado por isso. Após um mês da eliminação na primeira fase, na volta ao país, acabou morto em um bar. Assassinato atribuído a traficantes que teriam perdido dinheiro com apostas na Colômbia. Situação que escandalizou o mundo e denunciou mais dos problemas sociais no país.

O atacante Palomo Usuriaga, autor de quatro gols na semifinal e o segundo gol da final sobre o Olimpia, também acabou morto. Foi em 2004, quando tinha 37 anos. Ele morava em Cali e foi vítima de assassinato, encomendado por criminosos. Usuriaga teria relacionamento com a ex-mulher de um traficante, o que, de nenhuma maneira, justifica mais uma vítima da violência na Colômbia.

Andrés Escobar
(Divulgação / Nacional)