O inferno verdolaga: poder de fogo em casa carrega Atlético Nacional à final da Libertadores

Com apoio determinante das arquibancadas, a equipe colombiana teve tranquilidade para brilhar em campo e chegar à terceira decisão de Libertadores de sua história

O inferno verdolaga: poder de fogo em casa carrega Atlético Nacional à final da Libertadores
O inferno verdolaga: poder de fogo em casa carrega Atlético Nacional às finais

Está no evangelho da Copa Libertadores e poucos tentam discordar. Uma das receitas para o sucesso no torneio sul-americano se apoia na importância de ter à disposição um estádio fervente e sempre lotado para decidir jogos e ser empurrado pela torcida. E na edição deste ano, o Atlético Nacional pode se orgulhar de sua casa. O estádio Atanasio Girardot, em Medellín, é uma das armas mais eficazes do clube colombiano em jornadas continentais desde os anos 80, além de contar com uma bagagem invejável de histórias e jogos memoráveis.

A campanha atual do Atlético Nacional reafirmou a força da equipe ao jogar como mandante. Auxiliado pela constante festa da torcida, o time de Reinaldo Rueda transformou a cancha da Avenida 70 em um legítimo caldeirão. Entre fase de grupos e mata-matas, o verde não perdeu nenhuma partida jogando em seus domínios e protagonizou um embate épico nas quartas de final. E os motivos que ajudam a entender tanta força dos colombianos quando em sua terra natal chegam a transcender a história.

A construção de uma estrada vitoriosa

Em primeiro lugar, é preciso registrar que Medellín é uma cidade extremamente apaixonada por futebol. Jogado desde os primórdios do século XX nas montanhas da província de Antioquia, o esporte é uma das bases da cultura local. Nos anos 1930, a região vivia um intenso período de industrialização. Naturalmente, os operários das fábricas, que forneciam tecidos e alimentos para o restante do país, eram apreciadores de uma boa partida após as jornadas de trabalho. Com o desenvolvimento esportivo, veio a necessidade de uma praça adequada para os praticantes e em 1946, foi adquirido o terreno onde nasceria o novo espaço.

Em março de 1953, era inaugurada a Unidad Deportiva Atanasio Girardot, dotada do estádio de futebol como principal instalação. O nome escolhido para batizar o complexo não poderia ser mais adequado. Atanasio Girardot foi um caudilho militar que lutou nas guerras de independência da Colômbia e da Venezuela, tendo combatido ao lado de Simon Bolívar em praticamente todo o continente. Nada mais justo, portanto, que nomeasse o epicentro esportivo e cultural de uma das cidades mais guerreiras do país.

Os pioneiros não sabiam, mas o recém-erguido estádio se transformaria num coliseu do futebol sul-americano, parcialmente responsável pela fama e pelos triunfos das equipes locais, sobretudo do Atlético Nacional, em suas participações internacionais.

O reino do jogo bonito

Soberanos de calibre sempre se orgulham de seus domínios e de seu séquito de súditos. É onde são mais fortes, quase imbatíveis. Para o Atlético Nacional, não é diferente. Ao longo de seus 69 anos de história, foi jogando no Atanasio Girardot que os verdolagas conquistaram um dos apelidos pelos quais são conhecidos internacionalmente até hoje: o Rey de Copas.

E a alcunha tem grande razão de existir. De 1990 até hoje, o Nacional decidiu por lá nada menos do que 14 títulos colombianos, contando copas e superligas, e três continentais. O desempenho copeiro da equipe começou ao final da década de 1980 com o título da Libertadores de 1989. A partir daquele ano, os puros criollos se consolidaram como esquadrão respeitado no continente, muito em parte pela legião de torcedores que lhe é fiel no estádio. Nesta Libertadores, o fator casa foi ainda mais determinante.

Até o momento, a equipe disputou seis partidas como mandante, o bastante para alcançar uma média de mais de 41 mil torcedores por jogo. A festa nos dias de jogo também não fugiu à tradição da província. Milhares de guarda-chuvas, trapos e sinalizadores verdes ajudaram a conquistar vitórias colossais, como o 3 a 1 das quartas de final contra o Rosário Central. Tanta determinação tem apenas um objetivo, que está aguardando há 27 anos por uma oportunidade de se cumprir.

A fronteira final

Apesar de jogar um futebol bonito e mortífero, o Atlético Nacional não quer apenas a manutenção da fama copeira, nem mais conquistas. O poder de fogo mostrado em Medellín que encanta e deixou pelo caminho adversários de altíssimo nível os levou à final onde poderão encarar de frente seu Santo Graal: o direito de decidir a Copa Libertadores diante de seu povo.

Em 1989, a partida final foi marcada para o estádio El Campín, em Bogotá. À época, a CONMEBOL alegou que o Atanasio Girardot não contaria com a estrutura necessária para abrigar uma final de Libertadores, o que afastou o Nacional da maior parte de sua torcida e deu à capital colombiana o direito de ser o palco de um dos mais épicos jogos da história do torneio. A geração jovem comandada por Francisco Maturana trouxe a copa para Antioquia, mas o desejo ainda era de conquista-la ali, no solo em que rotineiramente florescem jogadores de raro talento.

Em 1995, a batida na trave diante do Grêmio deixou marcas que poderão enfim ser exorcizadas neste ano. Para os torcedores, é difícil conter a ansiedade. Os mais fervorosos apenas rezam para que os espíritos imortais de 89 estejam em cada um dos jogadores do atual plantel, e para que o sonhado bicampeonato aconteça no doce acolhimento do lar.