Lar doce lar: Del Valle transforma o Olímpico de Atahualpa em caldeirão na briga pelo título

Obrigado pela Conmebol a se mudar para Quito durante a competição, o Independiente Del Valle encontrou uma forma criativa e solidária para ganhar simpatizantes e ir em busca do título

Lar doce lar: Del Valle transforma o Olímpico de Atahualpa em caldeirão na briga pelo título
Estádio Atahualpa lotado na partida entre Independiente Del Valle e Pumas: união de criatividade e solidariedade (Foto: AFP PHOTO / JUAN CEVALLOS)

A Copa Libertadores da América de 2016 reservou uma grande surpresa para todos os amantes do futebol: a passagem do Independiente Del Valle, um pequeno time do Equador, para as finais do torneio, que serão disputadas diante do Atlético Nacional (COL).

O time do Equador classificou-se na primeira fase com 11 pontos, na segunda colocação do grupo 5, deixando para trás o poderoso Colo-Colo. Já na fase de mata-mata, eliminou dois gigantes do futebol sul-americano: Boca Juniors e River Plate.

O clube também eliminou o bom time do Pumas-MEX. Entretanto, a campanha dos equatorianos teve uma diferença: desde as oitavas de final, a equipe não vem atuando em seu estádio, tendo que se deslocar até a capital, Quito.

O POLÊMICO REGULAMENTO

Para a primeira fase e a fase de grupos da Copa Libertadores da América, a capacidade mínima exigida pela CONMEBOL é de 10.000 espectadores. Entretanto, clubes que joguem em estádios que comportam pouco menos que isso podem entrar em acordo junto à confederação. Já nas fases de oitavas e quartas de final, o mínimo requerido pela entidade é de 20.000 torcedores. Nas semifinais, o número aumenta para 30.000. As finais devem comportar no mínimo 40.000 pessoas.

Já vimos outros casos na história em que clubes foram “obrigados” a mandar jogos fora de seu estádio devido a tal regulamento. Em 2005, por exemplo, o Atlético-PR teve que jogar a primeira partida da final da Libertadores diante do São Paulo no Estádio do Beira-Rio, em Porto Alegre, já que a Arena da Baixada não comportava o número de espectadores pedido pela CONMEBOL. Entretanto, a equipe sentiu a falta de sua casa, e apenas empatou por 1 a 1  com os paulistas, resultado que não foi suficiente para a equipe levar uma vantagem para o Morumbi – posteriormente o Furacão foi derrotado por 4 a 0, amargando o vice-campeonato.

Cinco anos mais tarde, foi a vez do Santos ser obrigado a mudar de casa numa final de Libertadores. A equipe alvinegra disputava a decisão daquele ano com o Peñarol-URU, e sua casa, a Vila Belmiro, não tinha a capacidade mínima exigida pela CONMEBOL. Assim sendo, o Peixe foi obrigado a jogar a partida no Pacaembu, em São Paulo. Todavia, o clube pareceu não sentir falta de seu “alçapão”, e venceu os uruguaios por 2 a 1, diante de um estádio lotado, levando o terceiro caneco da competição para a cidade praiana.

SOLIDARIEDADE E CRIATIVIDADE: COMO “CRIAR” UM NOVO LAR

O Independiente Del Valle é um clube fundado no ano de 1958, e localizado na cidade de Sangolquí. O local onde costuma mandar seus jogos é o acanhado Estádio Municipal General Rumiñahui, com capacidade para cerca de 7.200 pessoas. Entretanto, a partir das oitavas de final, a CONMEBOL exige que os estádios devem ter a capacidade de, no mínimo, 20.000 espectadores. Sendo assim, o pequeno clube de Sangolquí foi obrigado a “se mudar” para a capital Quito, mais especificamente o Estádio Olímpico Atahualpa, que pode comportar cerca de 40.000 torcedores.

A princípio, a mudança poderia fazer com que a equipe perdesse sua força, já que o clube não conta com um número de torcedores suficiente para “encher” o Olímpico de Atahualpa. Entretanto, uma estratégia da diretoria do Independiente Del Valle transformou o estádio num verdadeiro caldeirão, com uma atmosfera que empurrou o pequenino clube de Sangolquí até as finais da Copa Libertadores da América de 2016.

Em abril deste ano, um terremoto atingiu em cheio a costa do Equador, principalmente a província de Manabí. Cerca de 660 pessoas morreram e mais de 30 mil ficaram desabrigadas. E foi com o desastre que surgiu uma brilhante ideia da diretoria do Independiente Dell Valle: convocar os equatorianos torcedores de outros times a comparecerem nos jogos da equipe, e doar a renda arrecadada para as vítimas do terremoto. Com a ação, a equipe não só aumentou seu número de simpatizantes, como teve uma atitude solidária que poucas vezes vemos no “mundo” do futebol.

Em entrevista, o presidente do clube equatoriano, Santiago Morales, fez um apelo aos torcedores de outros times para apoiarem o clube no Olímpico de Atahualpa.

“Temos claro que talvez o Independiente del Valle não tenha fãs suficientes para encher o Estádio Olímpico Atahualpa, mas estamos fazendo um chamado aos fãs de todos os times do Equador para ver um estádio cheio”, disse Morales.

No jogo diante do River Plate, por exemplo, 34.283 pessoas assistiram à vitória por 2 a 0 dos equatorianos. Já nas quartas de final, diante do Pumas, cerca de 31.150 torcedores assistiram novamente à vitória do Del Valle (2 a 1). E, diante do Boca, 38 mil pessoas assistiram à vitória por 2 a 1. Até agora, cerca de 341.535 dólares foram arrecadados para as vítimas do terremoto, mas o valor ainda deve aumentar, já que as rendas dos jogos diante do Boca Juniors e o da final de amanhã, diante do Atlético Nacional, ainda não foram contabilizadas.

O Independiente Del Valle pode até ser derrotado para o Atlético Nacional, talvez até sentindo a falta de seu estádio, em Sangolquí. Todavia, a lição de como ser solidário e ao mesmo tempo criativo para se sentir bem numa nova casa, já foi mostrada.