Análise tática: contra adaptada Argentina de Bauza, Tite terá novo estágio de desafio com Brasil

Dois meses após assumirem seus respectivos cargos, Tite e Bauza caminham em sentidos contrários nas campanhas de suas seleções; duelo no Mineirão traz desafios diferentes aos técnicos

Análise tática: contra adaptada Argentina de Bauza, Tite terá novo estágio de desafio com Brasil
Fotomontagem: Hugo Alves/VAVEL Brasil

Nesta quinta-feira (10), Brasil e Argentina farão mais um de seus marcantes encontros. Em Belo Horizonte, situações e trabalhos completamente diferentes nos dois lados. Como semelhança, apenas a época em que cada treinador assumiu sua respectiva equipe para comandar: tanto Tite quanto Edgardo Bauza obtiveram o comando de suas seleções após a Copa América Centenário, neste ano.

Desde setembro, a nova campanha mudou o destino dos hermanos. Com Bauza, a Argentina venceu apenas um dos seus quatro jogos disputados - curiosamente, o único em que o craque Lionel Messi esteve em campo, com o jogo decidido em um gol dele. Nas outras partidas, empates fora de casa contra Venezuela e Peru, além de uma derrota, dentro de casa, para o Paraguai, em uma queda que culminou com a parcial desclassificação para a Copa na Rússia em 2018. Com total instabilidade, Bauza chega ao Brasil com um time diferente, ideias novas e um plano renovado para tentar a vitória diante do atual líder das Eliminatórias para a Copa do Mundo

Desde a estreia, no dia 1 de setembro, quando a Argentina teve Messi e venceu o Uruguai por 1 a 0, o time sempre atuou em um imutável 4-2-3-1 - com ou sem o craque argentino em campo. Sem a bola, duas linhas de 4 mais Messi avançado e, à frente do gênio barcelonista, o centroavante em questão. Contra o Brasil, o plano será parecido: deixar Messi livre, à frente das duas linhas, para ter liberdade no terceiro quarto de campo e, assim, potencializar o que os argentinos têm de melhor em seu setor ofensivo. 

Reprodução: beIN Sports
Reprodução: beIN Sports

Instável em muitos momentos, a defesa de Bauza passará por um enorme teste e, por isso, uma novidade deve ocorrer em relação a jogos anteriores: bem como na Copa do Mundo, Enzo Pérez mais uma vez deve atuar aberto em um dos lados do campo. Enquanto em 2014 ele atuou pela esquerda, substituindo, àquela época, o lesionado Di María, desta vez, deve usar o lado direito do campo. O plano deve ser posto em prática especialmente visando conter Neymar e Marcelo, em um setor que o Brasil associa muito bem seus jogadores e toca melhor a bola. No meio-campo, Biglia e Mascherano dão ao time uma característica mais fixa com seus gestores, e poderemos ver, em muitos momentos, o que ocorre no Barcelona: Messi se juntando à dupla para arquitetar o jogo desde o grande círculo.  

Com cinco gols sofridos nos últimos três jogos, o mais provável é que a Argentina seja mais reativa no Mineirão: esperando o adversário, compacta, para buscar contragolpes e explorar Messi entre as linhas brasileiras. Atuando no 4-4-1-1, o time argentino terá a sua zaga habitual, com Otamendi e Funes Mori, de algumas atuações contestadas nesta temporada, tanto na Argentina quanto em seus clubes (Manchester City e Everton, respectivamente). Como novidade, Más, que foi treinado pelo atual técnico da Argentina na época de San Lorenzo, na esquerda - Rojo, que desta vez não está entre os convocados, atuou nesta posição nas últimas partidas -, um lateral que é mais móbil e pode dar mais profundidade, agrupando-se a Di María e Biglia por aquele lado. Na frente, Higuaín deve ser o preterido de Bauza como o jogador a atrair a dupla de zaga brasileira, ainda tendo Kun Agüero e Lucas Pratto no banco de reservas. 

Enzo Pérez volta ao time titular da Argentina, provavelmente aberto pela direita. Na Copa do Mundo, Enzo também jogou nesta função, mas pelo lado esquerdo, substituindo Di María, e teve boas atuações (Foto: Ronald Martínez/Getty Images)
Enzo Pérez volta ao time titular da Argentina. (Foto: Ronald Martínez/Getty Images)

No lado brasileiro, pouca coisa deve mudar em relação ao que foi feito por Tite nas últimas partidas. Sem segredos, o Brasil deve repetir o 4-1-4-1 utilizado em todos os jogos desde setembro, com mudanças pontuais. Na lateral-esquerda, Marcelo volta à equipe após se recuperar de uma lesão que o tirou da última convocação, dando ao time mais opções de jogo com passes, por dentro ou por fora. Como primeiro homem no meio-de-campo, Fernandinho mais uma vez ocupará a vaga de Casemiro, lesionado, e protagonizará outro duelo com Messi em sua zona de campo. Aberto pela direita, Coutinho, que vive seu melhor momento com o Liverpool, deve ganhar mais uma vez a titularidade, em disputa com Douglas Costa e Willian. Além deles, soma-se toda a qualidade de Neymar, que retorna de suspensão.

Em campo, o que dá para esperar da seleção brasileira é um time mais controlador, tendo posse de bola e os meio-campistas bem próximos uns dos outros, facilitando a fluidez de jogo. Com Fernandinho organizando desde trás, Paulinho e Renato Augusto em seu suporte, levando o time à frente, e Coutinho-Neymar, ora abertos, ora por dentro, dando opção de passe e armando as jogadas pelo meio-de-campo. Na frente, Gabriel Jesus será responsável por atrair a última linha argentina e, por alguns momentos, trocar de posição com Neymar e Coutinho, em uma herança que vem do ouro olímpico deste ano. Com todo esse controle no meio e o já conhecido equilíbrio entre os setores do campo nos times de Tite - em especial, o Corinthians campeão brasileiro de 2015 -, o que dá para esperar é o Brasil tendo posse, articulando as jogadas e negando espaços a Messi, para diminuir as vantagens argentinas. Não à toa, desde que se iniciou a "Era Tite", a seleção canarinho tem média de 61% de posse de bola quando Neymar está em campo, um dos grandes trunfos nessa organização e armação de jogo brasileira.

Seleção brasileira tendo mais facilidade na saída de bola com os meio-campistas dando opção de passe e, ao menos, um dos jogadores abertos centralizando para qualificar a saída. Outro detalhe são os laterais, acima e abaixo na imagem, dando amplitude ao time e abrindo o campo (Reprodução: Blog Painel Tático)
Brasil tendo facilidade com meias dando opção. (Reprodução: Blog Painel Tático)

Líder da Eliminatória, com quatro vitórias em quatro jogos, o Brasil só sofreu um gol desde que Tite assumiu, ainda assim, marcado por um próprio jogador brasileiro contra o seu patrimônio. Em pouco tempo de trabalho, muitos problemas corrigidos, e um time mais estruturado e claro em sua proposta de jogo dentro da seleção, que hoje está muito perto de disputar a próxima edição da Copa do Mundo. A tendência é que o Brasil se resguarde, ainda que tendo a bola em seu domínio, compactando suas linhas de marcação quando o time não tiver a bola, marcando por zona e evitando as jogadas no mano a mano, especialmente quando Di María ou Messi estiverem com a bola nos pés. Como grande diferencial ofensivo, ainda há a qualidade dos dois laterais. Tanto Marcelo quanto Daniel Alves sabem muito bem ocupar o lado de campo e, por muitos momentos, trabalhar por dentro, tabelando com o ponta pelo mesmo setor ou até mesmo trabalhando as tabelas com meio-campistas e atacantes por ali. Com todo esse leque de qualidades, o Brasil chega ao Mineirão tentando, diferentemente de seu último jogo neste estádio, unir alto nível técnico com uma tática bem trabalhada para não ser surpreendido, como no 7 a 1

Em seus duelos anteriores, contra Equador, Colômbia, Bolívia e Venezuela, muito se viu de positivo na seleção brasileira, seja nos resultados ou nas atuações dentro de campo. Diferentemente do que se notava antes, quando ou atuava bem ou vencia, agora é perceptível que o Brasil consegue unir o útil ao agradável. Contra a Argentina, um adversário com pretensões e exigências diferentes, Tite entrará em campo com uma missão um pouco distinta em relação aos adversários anteriores, tanto pelo nível do oponente quanto pelo contexto deste clássico. Enfrentar um rival tão pressionado e que se adapta a esse jogo para conseguir atuar no limite, é um novo tipo de desafio que o ex-técnico do Corinthians precisará superar à sua maneira, com toda a paciência e atenção aos detalhes, que farão toda a diferença no confronto com o também ex-rival quando dirigia o São Paulo.

Prováveis escalações de Brasil e Argentina nesta quinta (Reprodução: Tactical Pad)
Prováveis escalações de Brasil e Argentina nesta quinta (Reprodução: Tactical Pad)

Estatísticas: Soccerway.