Atlético Nacional: da sombra de Escobar em 1989 para a solidariedade em 2016

Clube colombiano, que há 27 anos venceu a Libertadores com suposta ajuda do narcotráfico, hoje dá aula de caráter e hombridade perante o mundo

Atlético Nacional: da sombra de Escobar em 1989 para a solidariedade em 2016
Atlético Nacional: Da sangrenta libertadores de 89 para a solidariedade em 2016

A Colômbia vivia em uma guerra civil promovida pelas FARC e o país ficava a mercê do narcotráfico. Uma das coisas que evoluíram graças ao dinheiro dos cartéis foi justamente o futebol colombiano.

Clubes começaram a serem usados para lavagem de dinheiro e, com esse 'apoio', grandes times começaram a serem montados. Irmãos Orejuela, donos do cartel de Cali, foram os pioneiros nessa prática na Colômbia.

Investindo alto no América de Cali, viram o clube chegar em três finais de Libertadores nos anos 80, além de conquistar o pentacampeonato nacional entre 82 e 86. Pablo Escobar, apaixonado por futebol não poderia ficar para atrás e resolveu financiar dois clubes: Independiente de Medellín e Atlético Nacional de Medellín.

Não diferente do América de Cali, o Atlético Nacional também conseguiu obter sucesso com grandes times formados graças a 'ajuda' de Escobar. Na fila sem títulos por quase uma década, o clube de Medellín acabou perdendo o nacional de 87 e 88 para o rival Millonarios, de Bogotá.

Mas uma coisa muito importante aquele vice-campeonato rendeu: uma vaga para a Libertadores de 1989.

A primeira Libertadores colombiana da história

O time do Atlético para a disputa da competição era espetacular, não por acaso acabou sendo base da seleção colombiana nos anos seguintes, que até hoje é considerada a melhor geração da história do país. 

A equipe contava com grandes jogadores como Andrés Escobar, Leonel Álvarez, Luis Herrera e o folclórico René Higuita. Porém, uma coisa marcou aquela conquista de forma negativa e até hoje repercute pelo país.

Um episódio marcante aconteceu na goleada de 6 a 0 sobre o Danúbio, do Uruguai, nas semifinais. O assistente da partida, o argentino Juan Bava, revelou anos depois à imprensa que Pablo Escobar ameaçou a arbitragem, caso o clube colombiano não se classificasse para a final da competição. Bava chegou a brincar que se o Atlético não marcasse os gols, ele mesmo o faria, com receio do que lhe aconteceria se descumprisse ordens do traficante.

''Em 1989, na Colômbia, em um jogo de semifinal da Copa Libertadores da América jogavam Nacional de Medellín e Danubio de Montevidéu. Esse jogo seria dirigido por Carlos Espósito, e os auxiliares éramos Abel Gnecco e eu. Um dia antes, entraram no hotel uns caras, todos com metralhadoras na mão. Abriram a porta do quarto onde estávamos, nos ofereceram dinheiro e ameaçaram de morte a nós e nossas famílias. Nos disseram que Nacional devia ganhar e falaram: “O dinheiro está aí, se quiserem pegar, pegam”. E para que não restassem dúvidas, repetiram: “Ou o Nacional ganha ou vocês estão mortos!”. Espósito então me disse: “Juan, isto é uma barbaridade, não sei o que fazer”. Eu respondi: “Eu sim. Se faltarem cinco minutos e Nacional não estiver ganhando, entro no campo e faço um gol no ângulo”. Obviamente, nenhum de nós pegamos um peso sequer e, além disso, não houve necessidade nenhuma, pois o Nacional ganhou por 6 a 0'', relatou Bava sobre o ocorrido.

No ano seguinte, o uruguaio Daniel Cardellino, que havia apitado Atlético Nacional e Vasco da Gama, pelas quartas da competição, confessou à Conmebol que recebera ameaças de morte e oferta de US$ 20 mil, para facilitar o jogo para os colombianos. Na ocasião, o Atlético venceu por 2 a 0. O jogo acabou sendo remarcado e o jogo foi novamente realizado no Chile, acabando com vitória dos colombianos por 1 a 0.

Além desses relatos, nenhuma prova foi comprovada de que Pablo Escobar de fato ameaçou juízes para o Atlético ganhar a taça. No fim, o clube de Medellín derrotou o Olímpia, do Paraguai, na final e se sagrou pela primeira vez campeão da Libertadores.

Atlético e sua torcida dão aulas de Fair Play em 2016

O clube colombiano hoje, além de ser o atual campeão da Libertadores, era o favorito na final da Copa Sul-Americana que disputaria com a Chapecoense. Diante do fatídico acidente aéreo que resultou na morte de 71 pessoas, incluindo praticamente o time todo da equipe catarinense, o Nacional tomou atitudes de grandezas inimagináveis.

Em comunicado oficial, o clube lamentou muito a tragédia ocorrida, e pediu para que a Conmebol declara a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana de 2016.

"A dor embarga rotundamente nossos corações e invade de luto nosso pensamento. Foram horas lamentáveis em estamos consternados com uma notícia que nunca queríamos ter ouvido. O acidente de nossos irmãos do futebol da Chapecoense nos marcará pela vida e desde já deixará uma marca inapagável no futebol latino-americano e mundial. Tudo isso foi completamente inesperado, por isso a dor. Tratavam-se todos eles, jogadores, corpo técnico, jornalistas e tripulação, de pessoas com muitos sonhos, por isso o choro.

A lamentação mundial foi também estendida a toda a família Verdolaga, a quem, desde seus patrocinadores, diretores, corpo técnico, jogadores, administração e torcida, manifestou tristeza e desespero pelo absurdo. A solidariedade não se fez esperar e de nossa parte acompanhamos de forma rotunda o sofrimento de todos os irmãos que nos abandonaram quem junto a seus familiares e nós, compartilhamos um grande sonho de ser campeões continentais da Sul-Americana.

 Depois de estar muito preocupado pela parte humana, pensamos no aspecto competitivo e queremos publicar esse comunicado no qual o Atlético Nacional pede para a Conmebol que o título da Copa Sul-Americana seja entregue à Associação Chapecoense de Futebol como louro honorário pela sua grande perda e em homenagem póstuma às vítimas do fatal acidente que deixa o nosso esporte de luto. De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana 2016", dizia o comunicado do clube.

Em entrevista a uma TV colombiana, o lateral Gilberto Garcia, do Atlético, reiterou o pedido e disse que é uma decisão do mundo do futebol.

"O professor nos disse para dar muito valor a vida, para que fizéssemos uma reflexão, para que entendêssemos isso como um aviso de Deus para seguir melhorando em nossa vida pessoal. Esperamos que a Conmebol decida. Nós queremos que declarem esta equipe como campeã. Conversamos entre nós. Não é uma decisão nossa, é do mundo do futebol. Esperamos que a Conmebol tome esta decisão", contou o atleta colombiano.

O clube ainda fez um pedido para disputar a partida das quartas do campeonato colombiano, contra o Millionarios, com a camisa da Chape. A grandeza de espírito não foi apenas do time, já que os torcedores do Atlético foram as ruas na terça-feira (29), para homenagear os mortos e o clube catarinense.

''Que escutem em todo o continente, sempre recordaremos a campeã Chapecoense'', cantavam a plenos pulmões pelas ruas de Medellín.

E o ponto alto aconteceu nessa quarta-feira (30), quando a torcida do Atlético lotou o estádio Atanásio Girardot para mais uma vez homenagear as vítimas do acidente.

Com camisa branca e vela em mãos, os colombianos cantavam 'Vamos Vamos Chape', mostrando toda solidariedade e compaixão com o clube brasileiro.