Revolução? Esquemas de três zagueiros passam a se tornar comuns na Europa

A partir do sucesso de Antonio Conte com o Chelsea, muitas equipes adotaram um sistema com três defensores, que acabou virando uma 'febre' no continente europeu

Revolução? Esquemas de três zagueiros passam a se tornar comuns na Europa
Conte foi o expoente da nova moda (Foto: Jan Kruger/Getty Images)

A formação com três zagueiros é um dos fatos mais marcantes do futebol mundial. Apesar de ser um assunto muito discutível, considera-se que a primeira aparição da mesma foi com a Dinamarca em meados de 1980, com essa tática implantada pelo treinador Sepp Piontek. Consequentemente, esse conceito ajudou o país a viver o seu auge, quando conquistou – apesar de estar com um comandante diferente – a Eurocopa de 1992 e a Copa das Confederações de 1995, com a conhecida “Dinamáquina”.

O sucesso não pararia por aí, já que essa formação continuaria empilhando bons resultados no fim da década de 80 e no começo da década de 90, estando presente, mesmo que brevemente, em equipes bem-sucedidas no cenário futebolístico. A Argentina, campeã mundial em 1986, variou de uma espécie de 4-4-1-1, utilizado na fase de grupos, para o 5-3-2, formação da fase de mata-mata, de acordo com o posicionamento de Ricardo Giusti, que variava entre volante e ala-direito. Quatro anos após, a Alemanha seria campeã da Copa do Mundo também com um 5-3-2, contando com o talento de Lothar Matthäus.

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Porém, o país que ficou marcado pela utilização do esquema com três zagueiros foi a Itália, que por muito tempo ficou conhecida como uma escola marcada por fortes sistemas defensivos, muito por conta dos resquícios deixados pelo Catenaccio, famosa formação que foi marcada pelo conceito do “defensivismo”, que prezava, obviamente, por uma forte fase defensiva e, muitas vezes, o pragmatismo ofensivo.

O esquema também foi utilizado pela Seleção Brasileira em algumas Copas do Mundo. Em 1990, a Seleção de Sebastião Lazaroni jogaria, assim como a grande maioria das nações presentes naquela competição, no 3-5-2, mas não iria longe, sendo eliminada pela Argentina nas oitavas de final. Em 2002, a história foi diferente, mas a formação tática era a mesma: o Brasil de Felipão venceu, com três zagueiros, a Copa na Coreia do Sul e Japão.

Ostracismo

Apesar do certo sucesso, essa tática entrou em um período de ostracismo após os primeiros anos da década passada. Com exceção de algumas da Itália, lugar em que essa tática nunca deixou de “existir”, era muito raro presenciar uma equipe jogando com três zagueiros, retornando a um cenário visto até os anos 70.

Com isso, era comum assistir equipes no 4-3-3, como a Grécia campeã europeia de 2004, e no 4-4-2, que podia ser visto – em partes – na Itália de 2006, campeã da Copa do Mundo. Com o passar do tempo, essas formações evoluiriam e se tornariam o 4-2-3-1, tática preferida de muitas equipes durante muitos anos e que até hoje é bastante vista no cenário do futebol mundial.

Exceção à regra: São Paulo foi campeão brasileiro em três anos seguidos (Foto: CityFiles/Getty Images)
Exceção à regra: São Paulo foi campeão brasileiro em três anos seguidos (Foto: CityFiles/Getty Images)

A situação dos três zagueiros era cada vez mais difícil, já que eram raras as equipes que logravam êxito com essa formação. No Brasil, há uma exceção a essa regra durante esse período: o São Paulo de Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro entre 2006 e 2008, sendo, até hoje, a única equipe a conseguir conquistar três Brasileirões de forma consecutiva.

O retorno: Juventus e Copa no Brasil

Anos após entrar em uma fase sombria na Europa, o esquema voltou a trazer sucesso para uma equipe em 2012, quando a Juventus foi campeã italiana invicta com o trio de ferro formado por Bazagli, Bonucci e Chiellini. Sob o comando de Antonio Conte, a Velha Senhora fez uma campanha perfeita na Terra da Bota, que seria o começo de coisas grandes que estavam por vir para o time de Turim.

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A Juve, nos anos seguintes, continuaria colecionando conquistas em um nível nacional, participando até de uma final de Uefa Champions League, quando foram derrotados pelo Barcelona. Apesar de todo esse sucesso, a formação não saía muito de Turim e não empolgava com as outras potências do continente, como Real Madrid, o Bayern de Munique e o próprio clube catalão.

Holanda foi terceira colocada na Copa de 2014 (Foto: Jamie McDonald/Getty Images)
Holanda foi terceira colocada na Copa de 2014 (Foto: Jamie McDonald/Getty Images)

O sistema voltaria a ficar em evidência na Copa do Mundo de 2014, quando duas das equipes que mostraram um bom futebol utilizavam três zagueiros. Essas foram a Holanda de Louis Van Gaal, que chegou desacreditada por conta de alguns nomes pouco conhecidos, mas que mostrou grandes atuações defensivas e terminou na terceira posição, perdendo para a Argentina nos pênaltis na semi-final.

A outra equipe foi a grande surpresa daquela Copa. Com pouca tradição e sem ser nem a potência do seu continente, a Costa Rica deixou seleções como Itália, Inglaterra e Grécia para trás, caindo para a Holanda nos pênaltis nas quartas-de-final. Sob o comando de Jorge Luis Pinto, os costarriquenhos ficaram marcados por um rápido e concreto contra-ataque.

O ‘boom’ do esquema: Chelsea de Antonio Conte

Após ter sucesso com a Seleção Italiana, Antonio Conte assumiria, em 2016, o cargo do Chelsea. O começo, porém, foi longe das expectativas, já que os Blues empilhavam resultados negativos, incluindo uma derrota de 3 a 0 para o Arsenal. Após esse revés, o treinador italiano passou a adotar o esquema no 3-4-3, e sua equipe mudou completamente, passando a jogar o melhor futebol na Premier League e conquistando, posteriormente, o título.

(Foto: John Patrick Fletcher/Action Plus)
(Foto: John Patrick Fletcher/Action Plus)

Com o enorme sucesso do Chelsea de Conte, muitas equipes passaram a adotar o mesmo esquema, que passou a ser uma “febre” no continente europeu. Além disso, outras equipes, que utilizavam os três zagueiros desde o começo da temporada, foram vistas com maior qualidade pelos fãs, já que muitas delas conquistaram resultados positivos.

Arsenal

Na temporada passada, a equipe de Arsène Wenger passava por um período complicado e, com a intenção de melhorar as atuações, o francês resolveu adotar um esquema com três zagueiros, que não era visto desde 1996 nos Gunners. O resultado foi praticamente imediato, já que a primeira partida que essa tática foi utilizada fora na semi-final da FA Cup contra o Manchester City, que terminou com uma vitória do time vermelho.

A linha de três zagueiros permite que os alas tenham maior liberdade para atacar, o que resulta em uma maior quantidade de jogadas com passes em profundidade e por trás das defesas adversárias. Como uma das características da equipe de Wenger, o passe vindo, principalmente, dos jogadores de meio-campo são importantíssimos para o funcionamento dessa engrenagem. Nessa temporada, porém, o francês vem sofrendo com algumas lesões e, por isso, teve que voltar a utilizar 4-2-3-1 em algumas partidas.

Hoffenheim

A grande sensação da Alemanha na última temporada. Sob o comando do jovem Julian Nagelsmann, o Hoffenheim conseguiu a sua melhor campanha na Bundesliga em toda a sua história, conquistando uma vaga na fase preliminar da Uefa Champions League. Além disso, a equipe ficou marcada por apresentar um futebol vistoso e com grande possibilidade de variação tática, o que acabava confundindo os adversários.

A grande chave para essas mudanças táticas repentinas era Kevin Vogt. Contratado do Colônia, o atleta jogou durante toda a carreira como volante, mas, sob a tutela de Nagelsmann, acabou recuando para zagueiro. Como é um jogador móvel em relação aos outros defensores, o alemão permite a mudança do Hoffenheim do 3-3-2-2 para o 4-2-3-1.

Atenção: Vogt era peça chave do esquema de Nagelsmann (Foto: Alex Grimm/Bongarts)
Atenção: Vogt era peça chave do esquema de Nagelsmann (Foto: Alex Grimm/Bongarts)

Vogt, ao lado de Rudy, era o responsável pelo início da saída de bola da equipe. Já que possuía uma qualidade móvel, era o primeiro a dar combate em um ataque adversário e, caso obtivesse sucesso, já ligava a bola com o outro atleta citado ou com Kerem Demirbay, peça importante da equipe. Pelos lados do campo, as intensas subidas de Toljan e Zuber eram necessárias, já que conseguiam quebrar qualquer outro esquema, pois os dois, em algumas ocasiões, podiam ser vistos como pontas.  

Nice

Outra equipe sensação em sua respectiva liga, o Nice, assim como o Hoffenheim, também encantou o continente e surpreendeu, em partes, já que conquistou uma vaga na fase preliminar do principal torneio da Europa. Sob o comando do moderno Lucien Favre, os Algions jogavam em um 3-5-1-1, que conseguia, principalmente, potencializar as atuações do zagueiro Dante e do marroquino Younes Belhanda.

(Foto: Fred Tanneau/AFP)
(Foto: Fred Tanneau/AFP)

Com um meio-campo fortíssimo, composto por Cyprien, Seri e Koziello/Bodmer, o Nice possuía equilíbrio o suficiente para cobrir os espaços da faixa central do campo e, ao mesmo tempo, conseguir contribuir com as iniciativas ofensivas. Nesse contexto, o uso dos alas Ricardo Pereira e Dalbert, marcados pela alta velocidade e fôlego, era importantíssimo, já que eles conseguiam, em muitas ocasiões, quebrar o ritmo de uma defesa adversária por meio de uma investida inesperada.

Com a presença de três zagueiros, o brasileiro Dante conseguia ter acesso a uma de suas grandes qualidades, que é a saída de bola por meio de uma ligação direta. Como havia a cobertura de mais dois atletas, o jogador conseguia avançar até certo ponto e, a partir disso, achar uma boa opção de passe. Nesse contexto, entra a questão de Belhanda que, com espaço livre para transitar entre o meio e o ataque, encantou o país com muitos dribles e gols – alguns vindos de lançamentos de Dante.

Lazio

Um dos grandes exemplo desse assunto nessa temporada. Sob o comando de Simone Inzaghi, a Lazio está alcançando voos que, no começo da temporada, não eram esperados por muitos torcedores. Graças ao treinador, a equipe da capital italiana achou uma maneira de jogar e, contando com atuações primorosas de alguns jogadores, está na quinta posição da Serie A.

Apesar de jogar em um 3-4-2-1, o sistema de Inzaghi se difere ao de Conte na utilização dos dois jogadores mais avançados à linha inicial da faixa central do campo. Diferentemente do time inglês, que utiliza jogadores de lado de campo, a Lazio conta o talento de jogadores com visões centrais de jogo, possibilitando, principalmente, jogadas por meio de passes rápidos e chutes a média distância. Esses são jogadores são Luis Alberto, principal garçom da equipe, e Sergej Milinkovic-Savic, um dos atletas mais promissores da Europa.

Milinkovic-Savic e Immobile: destaques da Lazio (Foto: Marco Bertorello/AFP)
Milinkovic-Savic e Immobile: destaques da Lazio (Foto: Marco Bertorello/AFP)

Além disso, o grande ponto do esquema é favorecer o atacante Ciro Immobile que, após passagens medianas por Borussia Dortmund, Sevilla e Torino, voltou a encontrar seu grande futebol. Com a presença de dois jogadores com mentalidade criadora, além da presença de Marco Parolo, que joga mais atrás, o atacante italiano teve as suas atuações potencializadas e o grande exemplos disso são os seus números: 16 gols e oito assistências em 16 partidas.