O futebol português tem seu rei, seu elo e seu messias

Três nomes se destacam na história da seleção de Portugal: entrou no mapa do futebol com Eusébio, mudou de status com Luís Figo e obteve primeira conquista com Cristiano Ronaldo

O futebol português tem seu rei, seu elo e seu messias
O futebol português tem seu rei, seu elo e seu messias

Séculos depois de conquistar os mares, Portugal conquistou os gramados. Apareceu no mapa em 1966, graças a um atacante chamado Eusébio da Silva Ferreira. O rapaz de Lourenço Marques, África Oriental Portuguesa - hoje Maputo, Moçambique -, que matava aulas para jogar bola com os amigos em campos de terra improvisados, foi o artilheiro da Copa do Mundo com nove gols, sendo dois em cima do Brasil de Pelé e quatro em uma impressionante reação contra a Coreia do Norte, que chegara a abrir 3 a 0 no placar.

A Seleção das Quinas foi parada somente pela Inglaterra de Bobby Charlton - a anfitriã, inclusive, seria campeã mais tarde - e ficou em terceiro lugar, até hoje sua melhor campanha em âmbito mundial.

Eusébio foi pioneiro. Levou o futebol português mundo afora, com a seleção dos "Magriços", que em terras inglesas encantou os apaixonados por futebol, e com o Benfica, que aterrorizou e conquistou a Europa e foi campeão nacional por incríveis 11 vezes consecutivas. Dedicou 53 dos seus 71 anos de vida à equipe nacional, seja como jogador ou como membro da comissão técnica. Por isso nunca é esquecido e será sempre o pai da seleção de Portugal.

Depois da geração liderada pelo Pantera Negra, que ainda tinha Vicente Lucas, Mário Coluna, José Augusto e José Torres como pilares, chegou o período de vacas magras. Houve uma boa campanha na Euro 1984, mas o país ficou ausente em Copas do Mundo. Voltou à berlinda na virada do século, com Luís Figo, Jorge Couto, João Pinto, Rui Costa, Vítor Baía, Ricardo, Jorge Costa, Hélder Postiga, Maniche, Deco, Pauleta, Nuno Gomes, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Nuno Valente e Costinha.

Figo guiou a geração que recolocou os patrícios no mapa do futebol. O anúncio de que o futebol reservava dias melhores à nação ibérica. O elo entre o rei Eusébio e o messias Cristiano Ronaldo. O antigo camisa 7 e capitão aliava liderança, velocidade, talento e trabalho. Dizem os portugueses que ele parecia jogar de paletó, tamanha era a classe.

Em 2004, quando organizou a Eurocopa, Portugal teve a primeira chance de levantar um troféu e soltar o grito de campeão. Parou no impressionante ferrolho grego de Otto Rehhagel e na cabeçada de Angelos Charisteas. E, assim como Luís de Camões, a terrinha buscou inspiração a partir da Grécia.

Divulgação

Em 2006, foi quarta colocada na Copa do Mundo, da qual também participou em 2002, 2010 e 2014. Em 2012, foi semifinalista da Eurocopa. 

Ainda na época de Luís Figo, entra Cristiano Ronaldo. Quase foi abortado pela mãe e cuidou do pai até os últimos dias de sua vida. Depois de cumprida a missão de Figo, coube ao gajo a função de líder. Maior artilheiro da história da seleção, da história do Real Madrid, da história da Uefa Champions League e da história da Eurocopa - este recorde é compartilhado com Michel Platini. Ele que sempre anuncia: "Eu tô aqui!". Ele, que chorou de tristeza em 2004, como Eusébio em 1966, viria a chorar de alegria em 2016. 

Na Euro 2016, CR7 esteve abaixo do esperado tecnicamente. Não estava em sua melhor forma física - já dava indícios disso na final da última Uefa Champions League, na qual o Real Madrid superou o arquirrival Atlético de Madrid nos pênaltis e conquistou La Undécima. Mas foi fundamental como capitão. Chamou a responsabilidade. Ficou em branco contra Islândia, Áustria, Croácia e Polônia. Superou-se contra Hungria e País de Gales. Incentivou os jogadores antes da disputa de pênaltis contra a Polônia.

Na decisão jogada frente à França, esteve em campo até não aguentar mais. Mesmo lesionado, mostrou-se hiperativo no banco de reservas - com a perna esquerda enfaixada. Orientou seus companheiros como se fosse um auxiliar técnico de Fernando Santos e os inflamou antes da prorrogação.

Eis o capricho do destino. O primeiro título da história da Seleção das Quinas saiu dos pés de Éder, nascido na Guiné-Bissau. Africano igual a Eusébio. O rapaz que cresceu em um orfanato e ganhava pedaços de carne por cada gol marcado na juventude tornou-se herói nacional. Um herói improvável para proporcionar um episódio até então impossível. Ingredientes para boas histórias.

Getty Images

O paredão Rui Patrício, o consistente Raphaël Guerreiro, o seguro José Fonte, o xerife Pepe, o cirúrgico William Carvalho, os maestros João Mário e Renato Sanches e os incansáveis Ricardo Quaresma e Luís Nani também merecem menção. O comandante Fernando Santos aparentemente foi à Grécia buscar os segredos...

E o "Trio de Ferro" observou tudo. Cristiano Ronaldo desempenhou muito bem seu papel de líder, ainda que no banco de reservas. Figo torceu na arquibancada. Eusébio, que já não está mais entre nós, fez a festa lá em cima. E foi lembrado pela delegação na festa do título, com uma foto junto à taça e junto à porta da aeronave. Avião este que carrega seu nome. Voos maiores foram alçados com o Pantera Negra.

Divulgação/Federação Portuguesa de Futebol

Em toda essa trajetória, Portugal também teve um pouco de Brasil. Começando pelo técnico Otto Glória, lá em 1966. Passando, já nos anos 2000, pelo também treinador Luiz Felipe Scolari, pelo excelente meio-campista Deco e pelo atacante Liédson, que tinha apurado faro de gol. E chegando no zagueiro Pepe.

A história da seleção portuguesa, dos Magriços ao título europeu de 2016, poderia muito bem ter sido escrita por Luís de Camões, Fernando Pessoa, Antônio Lobo Antunes ou José Saramago. Mas quem escreveu foi o futebol, esse esporte que possui uma poesia indescritível.