Athletic Bilbao, a história de um povo por trás do futebol

História de um time que mantém as tradições e carrega a bandeira do seu povo

Athletic Bilbao, a história de um povo por trás do futebol
Arte: VAVEL

Localizado entre o Norte da Espanha e o Sudoeste da França, o País Basco é uma região histórico-cultural com alto grau de autonomia em que reside o povo basco e ao longo dos anos mantém características peculiares em seu idioma, sua cultura e suas tradições.

O País Basco espanhol engloba duas regiões principais: a Comunidade Foral de Navarra e a Comunidade Autônoma Basca, composta por três províncias (Álava, Biscaia, Guipúscoa). Bilbao é a décima maior cidade da Espanha e capital de Biscaia, de onde vem o Athletic Club, ou mais conhecido no Brasil como Athletic de Bilbao.

Multidão acompanha o time pelas ruas de Bilbao | Foto: Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images
Multidão acompanha o time pelas ruas de Bilbao | Foto: Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Em meados do século 19, trabalhadores ingleses chegaram a Bilbao atraídos pela grande oferta de emprego por ser uma região de grande potencial industrial. Vindos de diversas cidades do Reino Unido, muitos funcionários de estaleiros formaram o Bilbao Football Club. Pouco tempo depois, estudantes bascos que retornavam da Inglaterra após terminarem seus estudos traziam o interesse pelo futebol e formaram o Athletic Club, mais precisamente em 1898.

Entre 1901 e 1902 os fundadores dos dois clubes, com a intenção de formar um time mais forte para a disputa de campeonatos, fundaram o Bizcaya, que inclusive foi campeão da primeira edição da Copa do Rei. Em 1903 foi oficializada a união dos times com o nome de Athletic Club, que permanece até hoje.

Uma das principais características do clube é carregar o nacionalismo basco como uma de suas bandeiras, sempre apoiando a política unitária da região. Reprimido por muito tempo pelos ditadores do governo central espanhol, o povo usou o futebol como forma de brigar por seus direitos. Tanto que em 1976 uma das principais manifestações em prol da região foi feita em um jogo entre Athletic e Real Sociedad, que também é uma equipe basca.

Meses após a morte do ditador Franco, José Ángel Iribar e Inaxio Kortabarría, líderes das equipes, burlaram a segurança e entraram em campo segurando a bandeira basca. Por também ser relacionada aos grupo separatista ETA, o símbolo havia sido proibido no país e ser levantado em um clássico diante de milhares de torcedores foi um grande momento para o povo. Pouco tempo depois a proibição deixou de valer e a comunidade autônoma adotou a bandeira oficialmente.

A Ikurriña, bandeira do País Basco, foi erguida pela primeira vez de forma oficial no Estádio San Mamés | Foto: Divulgação/Athletic Club
A Ikurriña, bandeira do País Basco, foi erguida pela primeira vez de forma oficial no Estádio San Mamés | Foto: Divulgação/Athletic Club

Um outro aspecto marcante do clube em promover sua cultura e sua história está na sua política de contração. Apesar de não estar escrita no estatuto, somente jogadores nascidos no País Basco, descentes diretos ou que tiveram sua formação em categorias de base de times da região podem fazer parte do elenco.

Por ser uma região historicamente com poucos negros em sua população, a quase ausência de jogadores negros faz com que muitas vezes esta “regra” seja tida como retrógrada, racista e até mesmo xenófoba. Mas estas teorias vêm sendo derrubadas ao longo dos anos.

Em 2011, Jonás Ramalho, filho de pai angolano formado nas divisões de base do clube, foi o primeiro jogador negro a disputar uma partida oficialmente com a camisa alvirrubra. Já em 2015, Iñaki Williams, que tinha pai ganês e mãe liberiana, foi o autor do primeiro gol do clube marcado por um jogador negro. Formado por clubes da região e chegado ao Bilbao em 2011, Williams marcou no empate por 2 a 2 com o Torino pela Uefa Europa League e entrou para a história, não só do clube, mas também do futebol.

José Ángel Iribar (citado anteriormente no episódio da bandeira) foi o primeiro jogador fora de Biscaia a ser aceito pelo clube, em meados da década de 60. Mas Iribar nasceu em Zarautz, também no País Basco. O brasileiro Vicente Biurrun, nascido em São Paulo, foi ainda muito jovem morar na Espanha, formou-se na Real Sociedad e, também por ter ascedência basca, tornou-se elegível para jogar pelo Athletic, sendo o primeiro e único brasileiro a atuar pelo clube.

Também como símbolos da ampliação da política do clube, o lateral francês Bixent Lizarazu foi o primeiro jogador do clube nascido na parte francesa da região, e Fernando Amorebieta, que atualmente joga pelo Independiente da Argentina, iniciou sua carreira no Bilbao, chegou a disputar a Seleção do País Basco (não reconhecida oficialmente pela Fifa) e foi o primeiro a defender uma seleção estrangeira, a Venezuela.

O nome de seu estádio, que também dá origem ao apelido principal do clube, também é um capítulo à parte nessa história. Fundado em 1913, o Estádio San Mamés – também conhecido como A Catedral pela sua herança religiosa – ganhou este nome por ser construído perto de uma igreja com o nome do santo cristão.

O antigo San Mamés - somente o arco, símbolo da edificação, foi mantido | Foto:
O antigo San Mamés - somente o arco, símbolo da edificação, foi mantido | Foto: Mike Hewitt/Getty Images

Segundo conta a lenda, Mamés foi torturado e jogado aos leões por seguir o cristianismo no século III. Porém o jovem conseguiu amansar as feras e sobreviver. Mesmo sendo morto mais tarde, Mamés foi consagrado santo pela igreja. Pelo episódio marcante, o clube também é conhecido como Os Leões. O estádio era o mais antigo da Espanha até 2013, quando foi demolido e substituído por um novo com o mesmo nome.

Mas um grande clube não é feito somente de história, mas também de títulos. O Athletic conquistou a La Liga em oito oportunidades e foi vice em mais sete, sendo o quarto maior campeão, atrás de Real Madrid (33), Barcelona (24) e Atlético de Madrid (10). Na Copa do Rei o time também se destaca, sendo o segundo maior campeão, com 23 conquistas (24 nas contas do clube), atrás apenas do Barça, que tem 29 e ainda chegando à final em outras 15 temporadas. Sim, os bascos deixam o gigante de Madrid (19) para trás.

A Supercopa da Espanha foi levantada duas vezes e com mais dois vice-campeonatas e a Copa Eva Duarte uma vez. Também estiveram muito perto de conquistar a Europa League em duas temporadas, mas perderam nas finais. Também no futebol feminino o clube vem se destacando nos últimos anos, conquistando cinco vezes a Primeira Divisão desde 2002.

Esporte, religião, geografia, história, política, cultura e uma paixão compartilhada por milhares de torcedores, tudo isso vindo de um clube de futebol. O Athletic Bilbao é realmente histórico!