A trágica história de Justin Fashanu, o primeiro jogador da história a se assumir homossexual

Abandonado pela mãe, inglês deixou o orfanato para se tornar estrela do futebol mundial, mas foi derrotado pelo preconceito

A trágica história de Justin Fashanu, o primeiro jogador da história a se assumir homossexual
Grande, forte, fenomenal tecnica e fisicamente, e gay. Esse era Justin Fashanu (Foto: Bob Thomas/Getty Images)

Quantos jogadores de futebol profissionais declaradamente homossexuais você, leitor ou leitora, conhece? Provavelmente nenhum. Talvez alguns conheçam a história de Robbie Rogers. Outros podem ter descoberto que Thomas Hitzlsperger também se assumiu, ainda que após a aposentadoria. No entanto, o primeiro jogador de futebol a se assumir gay já fazia sua história nos anos 80. Trata-se de Justin Fashanu, atacante inglês que viveu anos de glória no futebol de seu país, mas acabou derrotado, em grande parte, pelo preconceito que, aliás, não era apenas com sua sexualidade: filho de pai nigeriano e mãe guianense, o atleta ainda tinha de enfrentar o racismo.

Uma infância complicada, ao lado de uma vida desregrada e da queda de produção dentro dos gramados, fizeram com que o inglês perdesse ainda mais o rumo. Depois de perder o status de astro dentro dos gramados, Fashanu se manteve na mídia, mas tornou-se uma incógnita. Muitas vezes perseguido, acabou se envolvendo em um escândalo sexual e pôs fim à sua própria vida um ano após seu último jogo como profissional. 

Infância marcada por abandono dos pais, crescimento em orfanato e adoção

Justin Fashanu nasceu em 19 de fevereiro de 1961, na capital da Inglaterra, Londres. Filho de pai nigeriano e mãe guianesa, teve de lidar logo cedo com a separação dos pais, quando foi abandonado pela mãe em um orfanato, ao lado de um de seus irmãos, John. Outros dois membros de sua família continuaram com sua mãe, que explicou o abandono pelo fato de não ter condições de arcar financeiramente com a criação dos filhos.

Aos 6 anos de idade, Justin e seu irmão foram adotados por Alf e Betty Jackson, que moravam no condado de Norfolk. Numa família com base, Fashanu se destacava em suas escolas por conta de sua intimidade com a bola. Foi nessa época que ele começou a ter de conviver com o racismo. Crescendo em um local de população majoritariamente branca, o jovem era um dos únicos negros da escola e do time, sendo discriminado em alguns momentos. Ainda assim, chamava a atenção como jogador e acabou parando nas divisões de base do Norwich City, então clube da primeira divisão inglesa.

O começo da carreira: "Fenomenal do ponto de vista físico e técnico" 

Não demorou para que Fashanu chegasse aos profissionais do Norwich. Em dezembro de 1978, o jovem de apenas 17 anos foi alçado ao time principal, fazendo sua estreia um mês depois, contra o West Bromwich Albion. Fashanu foi descrito por John Barnes, ex-jogador de Watford, Liverpool e da Seleção Inglesa, como "um negro grande, forte, com um grande toque na bola. Fenomenal do ponto de vista físico e técnico", em declaração ao documentário Forbidden Games: The Justin Fashanu Story.

Ganhando espaço na equipe, marcou seus gols de forma constante e um deles lhe rendeu o prêmio de "gol da temporada 1979/80", por uma linda finalização de fora da área contra o Liverpool.

Sua boa performance lhe rendeu seis convocações para a Seleção Inglesa sub-21 e, além de tudo, uma passagem para o Nottingham Forest, então campeão europeu. Mais: Fashanu se tornou o primeiro jogador negro a ser vendido por um milhão de libras. O valor pode parecer ínfimo nos dias de hoje, mas era considerado uma fortuna em 1981, ano em que a transferência ocorreu.

O destaque no Norwich levou Fashanu à Seleção Inglesa sub-21 (Foto: Bob Thomas/Getty Images)
O destaque no Norwich levou Fashanu à Seleção Inglesa sub-21 (Foto: Bob Thomas/Getty Images)

Atuações abaixo do esperado no Forest e primeiros boatos sobre homossexualidade

Apesar do futuro brilhante que parecia ter, foi no Nottingham Forest que o atacante viu sua carreira se perder, principalmente por conta de atritos com o técnico Brian Clough. Sem repetir as boas atuações que teve no Norwich, Fashanu acabou perdendo o prestígio e não se encaixava no esquema da equipe.

Tudo piorou ainda mais quando boatos de que o atacante frequentava boates LGBT chegaram aos ouvidos de Clough, que chegou a proibir o jogador de entrar em campo e até mesmo de treinar com o restante da equipe. Mesmo que tentasse, Fashanu era obrigado a se retirar. Em uma das ocasiões em que tentou voltar aos treinos, o técnico do Nottingham Forest chamou a polícia para tirá-lo de perto do campo.

No Nottingham Forest, Fashanu foi acusado de ser homossexual e acabou escorraçado dos campeões europeus (Foto: PA Images via Getty Images)
No Nottingham Forest, Fashanu foi acusado de ser homossexual e acabou escorraçado dos campeões europeus (Foto: PA Images via Getty Images)

Em 1982, o atacante acabou vendido ao Notts County, onde ficou até o ano de 1985. A partir de então, se tornou um "journeyman", passando por um sem-número de equipes até o fim de sua carreira, em 1997.

Sucesso de Justin atrapalhava sua relação com o irmão John Fashanu; a queda de um significou a ascensão do outro

John Fashanu, irmão mais velho de Justin, também se tornou jogador de futebol. Os dois começaram juntos no Norwich, mas por conta do sucesso que Justin fazia, seu irmão preferiu "sair de sua sombra", como o próprio afirmou, e buscar espaço em outro lugar.

Durante toda sua carreira, era comum ver John, centroavante do AFC Wimbledon, ter de responder perguntas a respeito de seu irmão, algo que claramente o incomodava. Entretanto, foi justamente quando Justin vivia momentos de queda em sua carreira que o Fashanu menos visado ascendeu dentro dos gramados.

Contratação recorde do Wimbledon, que brigava para subir à primeira divisão inglesa, Fash the Bash, como era chamado, ajudou o clube a garantir a promoção com quatro gols nas últimas nove partidas da temporada 86/87. Além disso, na temporada seguinte, se tornou o artilheiro do time que terminou na sexta colocação da elite nacional.

Saindo da sombra do irmão, John Fashanu se tornou artilheiro do AFC Wimbledon (Foto: Gary M. Prior/All Sport)
Saindo da sombra do irmão, John Fashanu se tornou artilheiro do AFC Wimbledon (Foto: Gary M. Prior/All Sport)

Em 1988, enquanto seu irmão tentava voltar aos gramados depois de uma séria lesão no joelho, John Fashanu foi campeão da FA Cup, batendo o gigante Liverpool na decisão. Dois anos depois, a relação dele com Justin foi quebrada de vez.

Em 1990, "estrela de 1 milhão de libras se assume gay" é capa do The Sun

A manchete acima foi vista em toda a Inglaterra quando Justin Fashanu procurou o tablóide para "sair do armário" e assumir sua homossexualidade. Se a matéria é tabu nos dias de hoje, a reação da sociedade em geral, incluindo pessoas próximas ao jogador, também não foi nada agradável. Principalmente porque, além do pronunciamento, o atacante ainda afirmava ter se relacionado com David Atkinson, representante do Partido Conservador no Parlamento Britânico. O político admitiu à sua esposa que a história era verdadeira.

Reprodução da capa do The Sun com a história de Justin Fashanu

Ambrose Mendy, seu empresário à época, afirma enfaticamente que nenhum time inglês o contrataria caso soubessem de sua homossexualidade. No documentário que conta sua história de vida, o agente é claro:

"Sua carreira no Nottingham Forest acabou porque ele era gay. Ninguém o contrataria se soubesse que ele era gay."

A partir de então, a vida de Fashanu passou a ter o futebol basicamente como um pano de fundo, com a mídia e as pessoas dando mais atenção à sua orientação sexual do que ao seu desempenho com a bola nos pés.

Declínio, carreira nos Estados Unidos e acusações de estupro a um menor de idade

Justin Fashanu passou por 11 clubes diferentes depois de se assumir, sem nunca se firmar em nenhum deles. Depois de jogar nos Estados Unidos, acabou se tornando treinador em Maryland, mas o preconceito por conta de sua sexualidade o acompanharam, mesmo do outro lado do Oceano Atlântico.

Sua história chegou ao fim de maneira conturbada e trágica, como aparentemente não podia deixar de ser. Depois de uma festa em seu apartamento, Justin Fashanu foi acusado de um estupro por um jovem de 17 anos. Segundo o depoimento do mesmo, o ex-jogador teria se aproveitado de seu estado alcoolizado e, possivelmente, drogado, para atividades sexuais. No dia seguinte, o menino afirma ter acordado sem roupas, enquanto Fashanu lhe fazia sexo oral.

AJ Ali, um amigo que lhe acompanhava nos Estados Unidos, relata que Fashanu o ligou dizendo que "não poderia ser preso" de forma alguma. Quando a polícia foi à sua casa com um mandado de prisão, o ex-jogador já havia fugido de volta para a Inglaterra.

Em 2 maio de 1998, dois meses após as acusações de estupro, Fashanu foi encontrado morto em sua própria casa, na cidade de Londres. Depois da autópsia, a causa da morte foi apontada como suicídio. Na última carta em que escreveu, o ex-jogador afirmou ser inocente das acusações e disse ter voltado à Inglaterra porque não acreditava que teria um julgamento justo.

"Eu percebi que já havia sido considerado culpado. Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos. Ser gay e uma personalidade é muito difícil, mas não posso reclamar disso. Queria dizer que não agredi sexualmente o jovem. Ele teve sexo consensual comigo e, no dia seguinte, me pediu dinheiro. Quando eu recusei, ele falou 'espere e você vai ver só'. Se esse é o caso, eu ouço vocês dizerem, por que eu fugi? Bom, a Justiça nem sempre é justa. Senti que não teria um julgamento justo por conta da minha homossexualidade."

Legado

A história de Justin Fashanu não ficou perdida no tempo. Até hoje, seu nome é lembrado com carinho por torcedores do Norwich City e um time foi criado em sua homenagem. Lançados em um evento com apoio da Associação Inglesa de Futebol em Brighton, os Justin Fashanu All-Stars foram uma forma de tentar promover a inclusão de jogadores abertamente gays no futebol da Inglaterra.

O legado de Fashanu deve ser como seu começo no Norwich City: fenomenal. (Foto: Mark Leech/Getty Images)
O legado de Fashanu deve ser como seu começo no Norwich City: fenomenal (Foto: Mark Leech/Getty Images)

O jornal Pink Paker, publicação inglesa direcionada ao público LGBT, o elegeu, em 2009, na 99ª posição em uma lista de 500 heróis gays e heroínas lésbicas mundiais.

Apesar disso, até os dias de hoje, ainda não existem jogadores de futebol assumidos LGBTs publicamente na Premier League. Thomas Hitzlsperger, jogador alemão com passagem pela seleção de seu país, chegou a jogar na liga, por Aston Villa e West Ham, mas só assumiu sua sexualidade após sua aposentadoria, em 2014.