Fluminense 2013: Tragédia anunciada, um ano para esquecer
(Arte: Marcello Neves/Vavelcom)

Decepcionante. Assim pode ser resumido o ano do Fluminense Football Club em 2013. O campeão brasileiro de 2012, que tinha como principal meta conquistar o inédito título da Libertadores da América, encerrou o ano lutando contra o rebaixamento. Nesta retrospectiva, a VAVEL Brasil comenta em detalhes sobre o ano de 2013 para o Tricolor das Laranjeiras.

Planejamento de segunda

Campeão brasileiro com 4 rodadas de antecedência, o elenco do Fluminense terminou o ano valorizado. Entretanto, eram vísiveis as deficiências em diversos setores da equipe. Rodrigo Caetano, diretor executivo do clube, já afirmaria de antemão que o maior reforço seria a manutenção do grupo para o ano seguinte, fato que realmente aconteceu. Visando reforços apenas para determinadas posições, fato afirmado pelo ex-vice presidente de futebol Sandro Lima, o clube encerrou a janela de transferências surpreendendo. Negativamente, claro. Após sonhar com nomes badalados como o lateral direito Mariano, o zagueiro Anderson Martins, e o meia-atacante Giulliano, a torcida acordou vendo em seu plantel os nomes de Monzón, Wellington Silva, Felipe e Rhayner; estes dois últimos pedidos pelo, então técnico, Abel Braga. No decorrer do campeonato estadual já era possível ver falhas no planejamento, falhas essas que foram piorando durante o ano.

A eliminação na Libertadores da América, diante do Olímpia, nas quartas de final, e a derrota por 3 a 0 para o Grêmio, em casa, ainda na fase de grupos, deixaram explícitas as deficiências do elenco frente a uma competição de alto nível. As saídas de Sandro Lima e Abel Braga no meio do ano deram início a bola de neve que terminou com o desmanche da equipe titular que conquistou o título brasileiro de 2012. Sem um plano B, a solução foi lançar precocemente os meninos da categoria de base para tentar salvar o que ainda restava. No fim da temporada, Rodrigo Caetano também deixaria o clube, dando a lugar a Felipe Ximenes.

Derrota no estadual e queda na Libertadores

Campeão carioca e brasileiro em 2012, o Fluminense viraria o ano tornando-se o time a ser batido. Assim como o Corinthians, campeão da Libertadores e Mundial no ano anterior. Ambos os clubes despontavam para 2013 como as melhores equipes do país, sendo seguidas de perto apenas por Atlético-MG e Grêmio.

O campeonato estadual começou em marcha lenta - bem lenta - para o Tricolor das Laranjeiras. Durante a Taça Guanabara, o primeiro turno do cariocão, o técnico Abel Braga - focado na Libertadores - deu rotatividade ao elenco colocando os reservas a campo. Vitórias sem dificuldade e empates contra Botafogo e Vasco da Gama selaram a classificação para a semifinal. A derrota por 3 a 2 para o mesmo Vasco, na semifinal, deixou no ar a primeira dúvida sobre a real qualidade do elenco. No segundo turno, o ritmo permaneceu lento, porém, agora com os titulares aparecendo nas partidas para ganhar ritmo de jogo. Goleando o Volta Redonda na semifinal, o Fluminense garantiu sua classificação para a final da Taça Rio. O Botafogo era o adversário e a derrota foi unânime. Seedorf e companhia ditaram o ritmo do jogo e o placar de 1 a 0 para o clube alvinegro saiu barato.

Principal objetivo do ano, a Libertadores foi a divisora de águas do ano tricolor. Caindo no grupo 8 junto à Grêmio, Huachipato e Caracas, o Fluminense sofreu, a ponto de garantir sua classificação apenas na última rodada. Entretanto, a primeira fase ficou marcada por um jogo chave, a derrota por 3 a 0 para o Grêmio, no Engenhão. O silêncio foi o único som no estádio naquela noite, uma aula de futebol de equipe gaúcha contra um Fluminense perdido em campo. Apesar dos pesares, o resultado não interferiu na classificação final. O tricolor ainda enfrentaria o Emelec antes, nas oitavas, antes de ser eliminado para o Olimpia, nas quartas de final, após enfrentar dois duros jogos sem conseguir furar a defesa paraguaia.

Vendas, contusões e aposentadorias

Após a eliminação na Libertadores, o ambiente tricolor começou a desandar em todos os aspectos. No dia 4 de junho, o Fluminense anunciaria oficialmente a venda de Wellington Nem ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Em seu último jogo pelo tricolor, o atacante já dexaria claro que aquela seria sua despedida após afirmar: "Tem um porquê de eu ficar no banco. Não foi porque eu estava jogando bem ou mal, tem um porquê. Deixa quieto, depois vocês vão saber". O camisa 18 tricolor não seria o único a cair de rendimento e colocado no banco de reservas após a Libertadores, o meia Thiago Neves, que também seria vendido ao Al Hilal semanas depois, foi bastante criticado pela torcida após uma sequência de partidas abaixo da média. Além da perda de dois de seus principais jogadores, o Fluminense também enfrentou a PGFN (Procuradoria Geral da Fazenda Nacional) que penhorou o dinheiro das negociações.

"O Fluminense também enfrentou a PGFN, que penhorou o dinheira das vendas de Nem e Thiago Neves"

Para complementar a crise, o meia Deco, anunciaria sua aposentadoria dos gramados no mês de agosto, alegando que seus músculos não suportariam mais a rotina de um atleta profissional de futebol. Em 2013, o luso-brasileiro sofreu quatro lesões em apenas seis meses, a última delas contra o Goías, nas oitavas de final da Copa do Brasil. Jogo esse que marcou a última aparição do camisa 20 com a camisa tricolor nos gramados.

Após a pausa para a Copa do Mundo, o Fluminense ainda perderia o seu capitão e principal jogador. Na derrota por 2 a 0 para o Santos, na 17ª rodada, Fred sairía de campo com um estiramento no músculo reto anterior da coxa direita, contusão que o tiraria de combate até o fim do campeonato. Seguindo o mesmo ritmo, o lateral-esquerdo Carlinhos também teria sua temporada encerrada já na 25ª rodada, contra o Botafogo, com um estiramento grau 3 no músculo adutor da coxa esquerda. Jean e Bruno também se lesionariam durante a temporada, mas a tempo de voltar antes do fim da competição.

Demissão de Abel Braga e a decadência de Luxemburgo

Na 9ª rodada do Campeonato Brasileiro, a derrota por 2 a 0 para o Grêmio marcaria, não apenas a 5ª derrota consecutiva do Fluminense na competição, mas também a queda de Abel Braga no comando técnico tricolor, deixando o clube na 17ª posição. Os nomes de Muricy Ramalho, veêmentemente recusado pelo presidente Peter Siemsen, Jorginho, recém demitido do Náutico, laterna da competição, e Vanderlei Luxemburgo, desejo antigo do presidente da patrocinadora, eram os mais cotados.

Muricy Ramalho, tiraria o São Paulo da zona de rebaixamento para brigar por uma vaga na Libertadores. Jorginho, levaria a rebaixada Ponte Preta até a final da Copa Sul-Americana. Já Vanderlei Luxemburgo, no dia 30 de julho, seria anunciado oficialmente como novo técnico do Fluminense, após Celso Barros vencer a queda de braço e consolidar o nome do novo treinador. Em 26 jogos, foram apenas sete vitórias, nove empates e dez derrotas - um aproveitamento de 38,46% dos pontos disputados, que colocou o Fluminense com um dos principais candidatos ao rebaixamento no ano.

"Após a derrota para o Vitória, os atletas comemoravam a saída do treinador quando o mesmo anunciou sua permanência."

A vitória por 1 a 0 contra o Cruzeiro, campeão brasileiro deste ano, em sua estreia a frente da equipe, deram motivação extra para o clube, que chegou a ficar 1 mês sem saber o que eram derrotas. A 12ª colocação conquistada após a vitória por 2 a 1 contra o Goiás, no Serra Dourada, marcaria o auge de Luxemburgo no Fluminense. Porém, o encanto logo terminou. Derrotas em sequência, empates após escalações sem explicação, bate boca com os principais nomes da equipe e um tratamento desprezível com os jogadores da categoria de base selaram, na 33ª rodada, após a derrota por 1 a 0 para o Corinthians, sua demissão.

Um ponto revelante a se destacar na queda de Luxemburgo era que sua demissão foi dada como certa após a derrota por 3 a 2, diante do Vitória, na 31ª rodada. Neste jogo, o Fluminense tinha um jogador a mais em campo desde os primeiros 15 minutos de jogo, quando Kadu foi expulso, e levou a virada após estar vencendo por 2 a 1. No vestiário, os atletas comemoravam a saída do treinador quando o mesmo entrou pela porta anunciando sua permanência. Após sua saída oficial, ficou claro que Luxemburgo não deixará saudades.

O choro de Sóbis sela o rebaixamento

Dorival Júnior assumiria o Fluminense logo depois, e o treinador tinha a missão de, em 5 rodadas, livrar o clube do rebaixamento. O empate por 2 a 2 com o Atlético-MG, na penúltima rodada do Brasileirão, deixava o tricolor em uma situação pior que a de 2009 na luta contra o rebaixamento. Indo para a última rodada na 18ª colocação, era necessário vencer o Bahia, fora de casa, e torcer pro tropeços de Vasco, que enfretaria o Atlético-PR, e do Coritiba, que enfrentaria o São Paulo.

Em Salvador, a partida começaria com 10 minutos de atraso o que faria com que o Fluminense já soubesse do resultado final da partida do Coritiba antes da sua terminar. No Paraná, uma pancadaria generalizada entre torcida organizadas atrasaria o jogo em mais de uma hora. No fim, o Fluminense faria a sua parte. Após ver o Bahia saindo na frente no marcador, com gol do Willian Bárbio, o tricolor virou a partida, com gols de Wagner e Samuel. Logo após balançar as redes baianas pela segunda vez, a partida em São Paulo chegava ao fim. O Coritiba venceria o São Paulo por 1 a 0 e escaparia, rebaixando o Fluminense. Em Joiville, o Atlético-PR venceria o Vasco por 5 a 1 e garantiria dois cariocas na segunda divisão em 2014.

Portuguesa e Flamengo descumprem a regra e salvam o Fluminense

Após o fim do campeonato, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) foi palco para a chamada "39ª rodada". Após denúncia da CBF, Flamengo e Portuguesa são levados a tribunal por descumprimento de regra. Entenda o caso. Pela final da Copa do Brasil, o lateral-esquerdo André Santos, do Flamengo, foi expulso após confusão com Ciro, atacante do Atlético-PR. Como o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil são duas competições organizadas pela CBF, a suspensão de André Santos deveria ser cumprida na última rodada do Brasileirão, regra essa que também é usada em vários campeonatos pela Europa. Héverton, meia da Portuguesa, foi suspenso por dois jogos pela sua expulsão na 36ª rodada. Entretanto, o atleta foi a campo na 38ª rodada, cumprindo assim, apenas uma partida de suspensão.

De acordo com o regulamento, a punição para os erros de Portuguesa e Flamengo são de perda de 3 pontos, mais os pontos conquistados no jogo que o atleta foi escalado irregularmente e multa. Após o julgamento, o STJD bateu o martelo e decretou a pena para as duas equipes. Sendo assim, o Flamengo caíria para 16º e a Portuguesa para 17º, sendo assim, rebaixada para a segunda divisão.

Retorno de Conca e planejamento para 2014

O principal reforço tricolor para a temporada 2014 já tem nome, e é bastante conhecido por todos os tricolores. Trata-se de Darío Conca, campeão brasileiro pelo clube em 2010 e ídolo tricolor. O camisa 11 teve seu retorno anunciado ainda durante a competição, em um vídeo divulgado no telão do Maracanã, na 35ª rodada, antes da partida contra o São Paulo. Campeão da Champions Ásia e 4ª colocado no Mundial de Clubes da FIFA pelo Guangzhou Evergrande, clube para onde se transferiu em 2011, Conca volta ao Rio de Janeiro para continuar fazendo história com a camisa que o despertou para o cenário do futebol mundial.

Para 2014, o Fluminense também já começa a se organizar internamente. O nome de Felipe Ximenes foi o escolhido para substituir Rodrigo Caetano, que deixou o clube após a temporada. Dorival Júnior não é mais o técnico do Fluminense e para seu lugar, o nome de Renato Gaúcho foi o preterido pelo presidente de patrocinadora e escolhido como substituto. Será a quinta passagem do treinador pelas Laranjeiras, onde foi campeão da Copa do Brasil em 2007 e finalista da Libertadores em 2008. Renato Portaluppi deixa o Grêmio como vice-campeão brasileiro e classificado para a Libertadores em 2014.

Melhor jogo: Fluminense 2 x 1 São Paulo, 35ª rodada

Foram necessários 11 meses para a torcida do Fluminense ver sua equipe jogando bola de verdade. Não que o jogo tenha sido um espetáculo de encher os olhos, mas eram visível a raça e a vontade da equipe para conquistar a vitória. Entretanto, é claro, todo tricolor lembrará sempre dos momentos finais desta partida. Escanteio para o Fluminense, bola na área, desvio e cabeça e... bom, você já sabe o final. Gum encarnou Washington, na Libertadores de 2008, e fez 50 mil tricolores debulharem em lágrimas no Maracanã.

Pior jogo: Santos 1 x 0 Fluminense, 36ª rodada

O céu da 35ª rodada foi logo substituído pelo inferno na 36ª, literalmente. A esperança de fugir do rebaixamento foi, em uma semana, substuída pela sensação de pré-rebaixado. Santos e Fluminense fizeram o pior jogo do ano, não para o Santos, que saiu vitorioso. Mas para o Fluminense, que jogou sem vontade, sem ganância, sem vontade de vencer. Diego Cavalieri saiu como herói em um jogo que, se não fosse por ele, teria sido goleada.

Os melhores de 2013

Rafael Sóbis: Principal jogador ofensivo e sinônimo de raça em 2013. Termina o ano como artilheiro, maior finalizador e garçom do Fluminense na temporada. Com a ausência de Fred, foi o centroavante da equipe e, mesmo assim, não era raro vê-lo ajudando na marcação ou buscando bolo no meio de campo. Escreveu seu nome na história do clube e boa parte dos torcedores já começam a chamá-lo de ídolo.

Diego Cavalieri: Herói em 2012, salvador da pátria em 2013. Mesmo com pontos no mão, após um acidente em casa, foi a campo para tentar salvar o Fluminense do rebaixamento. Atitude de ídolo, que o fez ganhar mais pontos com a torcida em um ano que tem tudo para ser esquecido. Parabéns, Cavalieri!

Biro Biro: Em um ano onde várias revelações de Xerém foram lançadas precocemente no elenco titular para tentar resolver a bagunça, Biro Biro destaca-se por ser o que mais deu certo. Habilidade e velocidade o fizeram como a principal válvula de escape da equipe. Biro Biro também deixou sua marca em jogos decisivos, como contra o Atlético-MG e o Botafogo.

Os piores de 2013

Igor Julião: O jogador mais queimado de 2013. Fraco na defesa, inoperante no ataque. O tempo dirá se o péssimo campeonato brasileiro de Igor Julião foi por inexperiência ou por limitação, mas Julião já está marcado pela torcida como um dos piores jogadores do campeonato. Torcemos pela sua recuperação em 2014.

Leandro Euzébio: Irritou, e como irritou. Conseguiu queimar seu nome com a torcida em um ano patético. Bicampeão brasileiro pelo Fluminense e o primeiro da barca tricolor na lista de qualquer torcedor. Falhas infantis não são toleradas por um zagueiro de 32 anos de idade. Se for dispensado ou negociado, não será nenhuma surpresa.

Fred: Seu pior ano com a camisa do Fluminense, com facilidade. Inadmissível um capitão que tenha mais gols pela Seleção Brasileira que pelo seu próprio clube no ano. Saiu lesionado na 17ª rodada e passou mais de um turno inteiro fora de jogo. No fim, chorou o "rebaixamento" na Fonte Nova, porém, poucos torcedores acreditaram na legitimidade das lágrimas do camisa 9.

Análise final

Pela primeira vez, o campeão brasileiro terminou rebaixado no ano seguinte. Por sorte e incompetência de Portuguesa e Flamengo, o Fluminense não disputará a Série B em 2014. Uma chacoalhada no elenco é necessária e mudanças são obrigatórias. Muitos jogadores já encerraram seu ciclo no clube e outros estão surgindo para colaborar. Conca voltou, Renato Gaúcho é o novo treinador, mas só isso não adiantará para um 2014 vitorioso. A falta de comando foi o principal problema em 2013, seja para demitir ou escolher treinadores, seja para contratar ou vender jogadores, seja para controlar a casa. Que a história seja diferente em 2014...

(Fotos: Getty Images, AFP, AP, Globoesporte.com, L!, ESPN e Divulgação Fluminense)

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