Corinthians 2013: o fim melancólico de uma era
(Arte: Marcello Neves/Vavelcom)

Melancólico. Assim pode ser definido o final da Era Tite no Sport Club Corinthians Paulista. Depois de um 2012 brilhante, com a conquista da inédita Copa Libertadores e do bicampeonato do Mundial Interclubes, o Timão encerrou 2013 como a equipe que mais empatou no Brasil e como mero figurante do Campeonato Brasileiro. Nesta retrospectiva, a VAVEL Brasil comenta em detalhes o “2013 montanha-russa” do Corinthians.

A chegada de Alexandre Pato

Atual campeão da América e do Mundo, o Corinthians começou 2013 de maneira promissora. Forte candidato a conquistar os principais títulos, o Timão anunciou a chegada de um reforço de peso: Alexandre Pato veio do Milan (ITA) pelo valor recorde de R$40 milhões. Apresentado em 11 de janeiro no CT Joaquim Grava, o atacante recebeu a camisa 7 e a responsabilidade de comandar o ataque alvinegro.

O começo de Pato no Alvinegro foi promissor. Logo em sua estreia, contra o Oeste de Itápolis, pelo Campeonato Paulista, em 3 de fevereiro, o atacante, vindo do banco, marcou o quinto gol da goleada por 5 a 0, no Pacaembu. Ainda em fevereiro, Pato voltou a marcar contra o Millonarios, da Colômbia, pela Libertadores, e contra o Bragantino, também pelo Campeonato Paulista.

A tragédia de Oruro

Entretanto, se o começo de ano alvinegro parecia promissor, tudo mudou em 20 de fevereiro. Na estreia da equipe na Copa Libertadores, contra o San José (BOL), em Oruro, uma tragédia mudou completamente o rumo de 2013 no Parque São Jorge. No decorrer do primeiro tempo, um sinalizador atirado do setor de visitante, ocupado pela torcida corintiana, acertou Kevin Beltrán Spada, de apenas 14 anos, e o matou.

O terrível acidente terminou com a prisão de 12 torcedores organizados do Corinthians e a punição com perda de mandos até o final da competição, que seria revertida para apenas uma partida, cumprida na vitória sobre o Millonarios, no Pacaembu - na ocasião, quatro torcedores conseguiram liminares judiciais e puderam assistir à partida no estádio.

O apito inimigo e a demonstração de apoio

Mesmo abalada com a tragédia ocorrida na Bolívia, a equipe do Corinthians seguiu fazendo a sua parte na Copa Libertadores e alcançou a fase de mata-mata. Logo nas oitavas-de-final, o Timão teria pela frente o tradicional Boca Juniors, da Argentina. Com uma atuação extremamente apática, o Timão foi derrotado por 1 a 0 na Bombonera e teria que resolver a sua vida no Pacaembu.

Em uma partida marcada pela arbitragem horrível do paraguaio Carlos Amarilla, o Corinthians ficou no empate em 1 a 1 e foi eliminado da competição continental de maneira precoce. Logo no começo da partida, o árbitro deixou de marcar pênalti em favor do Timão, quando o lateral Marín colocou a mão na bola dentro da grande área. Minutos depois, anulou gol legítimo de Romarinho.

Quando a partida já estava empatada em 1 a 1, no segundo tempo, o paraguaio anulou gol do zagueiro Gil, alegando falta duvidosa de Paulinho no goleiro Orión. Com dez minutos para o encerramento, Emerson Sheik invadiu a grande área, foi empurrado pelo defensor xeneize, mas a arbitragem nada marcou. Após o apito final, a Fiel Torcida deu mais uma demonstração de amor ao clube e se manteve dentro do Pacaembu por cerca de 20 minutos, apoiando os jogadores.

Além da eliminação corintiana, a partida marcava também a derrocada de Alexandre Pato. Principal contratação da equipe para a temporada, o camisa 7 perdeu um gol sem goleiro, dentro da pequena área, e atrapalhou os planos de classificação do Corinthians. Um ano que parecia ser promissor, começava a se transformar em um pesadelo para o atacante.

A conquista do Paulistão

Quatro dias depois de ser eliminado da Copa Libertadores pelo Boca Juniors, o torcedor alvinegro teve motivos para comemorar. Após ter vencido o Santos por 2 a 1 no Pacaembu, o Corinthians foi até a Vila Belmiro, arrancou um empate em 1 a 1 e conquistou seu 27º do Campeonato Paulista.

Paralelamente à disputa do torneio continental, o Timão fez uma campanha razoável na primeira fase do campeonato estadual e terminou na 5ª colocação. Nas quartas-de-final, a equipe goleou a Ponte Preta por 4 a 0, em Campinas e se classificou para a fase seguinte.

Na semifinal, o Alvinegro teve pela frente o grande rival São Paulo. Após um empate sem gols, no Morumbi, o Timão se classificou após a disputa de pênaltis. Alexandre Pato, o último cobrador, provocou o goleiro Rogério Ceni após converter a sua cobrança e colocar a equipe na grande final.

Na decisão, o Corinthians enfrentou o Santos. Na primeira partida, no Pacaembu, uma das melhores atuações da equipe garantiu a vitória por 2 a 1, com gols de Paulinho e Paulo André. No segundo jogo, na Vila Belmiro, Cícero colocou os donos da casa em vantagem, mas um gol do sempre decisivo Danilo garantiu o caneco para o Timão.

A venda de Paulinho

Principal jogador do Corinthians em 2012 e no primeiro semestre de 2013, o volante Paulinho deixou o clube após a disputa da Copa das Confederações com a Seleção Brasileira. No final de junho, o camisa 8 foi vendido para o Tottenham, da Inglaterra, por cerca de R$ 53 milhões. Foi a partir da venda do seu grande craque que o Corinthians começou a degringolar na temporada e a fazer apresentações extremamente abaixo do esperado.

Afinal, o volante era a grande válvula de escape da equipe. Com uma visão de jogo e um posicionamento diferenciados, Paulinho era o grande responsável por surpreender as defesas adversárias e criar as jogadas de gol do Timão. Seus substitutos, pouco fizeram. Guilherme até teve um início promissor, mas lesionou o joelho e ficou bastante tempo afastado. Ibson e Maldonado foram muito mal nas oportunidades que tiveram. Renato Augusto, a grande esperança da Fiel, também sofreu com as lesões.

O início ruim no Brasileirão e a conquista da Recopa

Grande favorito ao título do Campeonato Brasileiro e embalado pela conquista do Campeonato Paulista, o Corinthians decepcionou no começo do Brasileirão. Com um aproveitamento muito abaixo do esperado, a equipe ocupava apenas a 13ª colocação na quinta rodada e não inspirava nenhuma confiança no torcedor para a disputa do título.

Com um futebol extremamente abaixo do apresentado em 2013, o Alvinegro demonstrava muita dificuldade para vencer as suas partidas e empatava a grande maioria delas, frustrando o torcedor que sonhava com o hexacampeonato nacional.

Mesmo não fazendo boas apresentações, o Timão ainda conseguiu conquistar mais um título no primeiro semestre: a Recopa Sul-Americana. Em uma disputa de duas partidas contra o rival São Paulo, o Corinthians venceu por 2 a 1 no Morumbi, com um golaço de Renato Augusto, e também por 2 a 0 no Pacaembu, em uma das melhores atuações da equipe na temporada.

Um segundo semestre para esquecer

O segundo semestre alvinegro de 2013 foi trágico do início ao fim. Ainda com campanha mediana no Brasileirão, a equipe acumulava empates e partidas vergonhosas. Na última rodada do primeiro turno, um empate sem gols contra o lanterna – e pior campanha da história dos pontos corridos – em pleno Pacaembu fez a torcida começar a perder a paciência com a torcida.

A gota d’água veio na disputa da Copa do Brasil. Logo nas oitavas-de-final, a primeira decepção. O Corinthians enfrentou a fraquíssima equipe do Luverdense, do Mato Grosso, e foi derrotada por 1 a 0 na primeira partida. No Pacaembu, o Timão conseguiu reverter o resultado e, após vitória por 2 a 0, se classificou para as quartas-de-final.

Nas quartas-de-final, duas partidas ruins e dois empates sem gols contra o Grêmio. Na disputa de pênaltis, o Timão foi eliminado e Alexandre Pato sentenciou o seu ano decepcionante. Precisando converter a última cobrança, contra o experiente goleiro Dida, o camisa 7 tentou bater de cavadinha, pegou mal na bola e entregou de graça para o arqueiro gremista, eliminando a equipe da competição nacional.

Contratado em janeiro por valores astronômicos, o atacante já não vinha correspondendo em campo e as cobranças da torcida por boas atuações eram constantes. A cobrança displicente da penalidade transformou a relação com a Fiel Torcida em quase insustentável e os protestos contra o camisa 7 se tornaram uma constante no Pacaembu e no Parque São Jorge.

O fim melancólico da Era Tite

Contratado no final do ano de 2010, o técnico Tite teve passagem brilhante pelo Parque São Jorge. Campeão brasileiro em 2011, da Libertadores e Mundial em 2012 e Paulista e da Recopa em 2013, o comandante foi extremamente vitorioso no clube alvinegro. Entretanto, o final de sua era foi totalmente ao contrário do início. Em 15 de novembro, o presidente Mario Gobbi anunciou oficialmente a despedida do gaúcho do comando técnico alvinegro.

Insistindo em medalhões como Emerson Sheik e Romarinho, que não vinham produzindo o esperado e eram constantemente criticados pela torcida, e preterindo jovens como Rodriguinho, o técnico não conseguiu fazer a sua equipe manter o nível das atuações de anos anteriores e os empates se tornaram a marca registrada do Timão em 2013, principalmente os sem gols.

Mesmo demonstrando muita solidez defensiva, o Corinthians tinha um dos ataques mais ineficazes do Campeonato Brasileiro. Em 38 rodadas, o setor ofensivo alvinegro anotou míseros 27 gols, ficando atrás apenas do Náutico, pior campanha da história dos pontos corridos.

Forte candidato ao título no começo do ano, o Corinthians terminou o Campeonato Brasileiro apenas na décima posição, com 50 pontos. Foram 11 vitórias, 10 derrotas e absurdos 17 empates, com 27 gols marcados e 22 sofridos. A campanha também ficou marcada pela goleada sofrida diante a Portuguesa, por 4 a 0.

As despedidas e os protestos

Na penúltima rodada do Brasileirão, o Corinthians enfrentou o Internacional no Pacaembu. A partida ficou marcada pela despedida de Tite e do capitão Alessandro, que anunciou a sua aposentadoria. O resultado não foi muito diferente do esperado: um empate sem gols. A reação da torcida também não teve nada de surpreendente.

Após agradecer – e muito – aos dois principais símbolos da “Era Tite”, a Fiel Torcida aproveitou o momento para demonstrar sua insatisfação. Protestos contra Emerson Sheik, Romarinho e Alexandre Pato foram uma constante nas arquibancadas do Pacaembu durante a partida contra o Inter e também no CT Joaquim Grava durante a semana.

A relação ruim da torcida com Alexandre Pato ficou ainda mais desgastada quando o atacante anotou o único gol da vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense e provocou a Fiel Torcida na comemoração. Após marcar em cobrança de pênalti nos minutos finais, o camisa 7 levou as mãos às orelhas, como se pedisse para escutar as críticas da Fiel.

O acidente na Arena Corinthians

Mesmo depois de encerrado dentro de campo, o segundo semestre de 2013 continuou atormentando o clube. No dia 27 de novembro, um guindaste caiu durante as obras da construção da Arena Corinthians para a Copa do Mundo de 2014 e matou dois operários: Fábio Luiz Pereira, 42 anos, motorista/operador de Munck da empresa BHM, e Ronaldo Oliveira dos Santos, 44, montador da empresa Conecta.

A chegada de Mano e uma nova esperança

Em meio a toda a turbulência, o Corinthians anunciou o substituto de Tite no cargo de técnico. Mano Menezes, campeão paulista e da Copa do Brasil em 2009 pelo clube, está de volta ao Parque São Jorge e traz com ele a esperança de que 2014 seja melhor – e menos trágico – do que foi 2013. Além de Mano Menezes, a Fiel Torcida espera poder contar com o empenho de jogadores como Alexandre Pato e Renato Augusto e uma renovação no elenco para alcançar este objetivo.

Melhor jogo: Corinthians 4 x 0 Flamengo, 17ª rodada

A melhor partida do Timão em 2013 veio justamente no dia do seu aniversário, 1º de setembro. Com uma excelente atuação do meia Douglas, responsável direto pelos quatro gols, e do atacante Alexandre Pato, autor de dois, o Corinthians goleou o Flamengo por 4 a 0, no Pacaembu, e lembrou muito o Alvinegro de 2012, campeão mundial.

Pior jogo: Portuguesa 4 x 0 Corinthians, 24ª rodada

Sem vencer desde a goleada sobre o Flamengo, o Corinthians foi até o Mato Grosso enfrentar a equipe da Portuguesa e levou um chocolate. Em um atuação absurdamente fora do comum, o sistema defensivo do Timão se demonstrou muito inseguro e três gols de Gilberto ainda no primeiro tempo derrubaram o ânimo da equipe. O técnico Tite, inclusive, chegou a pedir demissão no vestiário, mas teve sua permanência bancada pelo presidente Mario Gobbi.

Os melhores de 2013

Ralf: Extremamente regular, o volante foi um dos únicos que manteve o nível das suas atuações de 2012 em 2013. Principal jogador no quesito desarme durante o Campeonato Brasileiro, o camisa 5 é um dos principais responsáveis pela solidez defensiva da equipe alvinegra e sua dedicação dentro de campo fez a torcida se identificar com ele. Além de tudo, Ralf ainda demonstrou uma grata evolução na saída de bola nos últimos meses do ano.

Gil: Assim como Ralf, Gil foi extremamente regular durante o ano de 2013. Foram raras as más atuações do camisa 4, que demonstrou muita segurança na bola área, qualidade na marcação e na saída de bola. O líder da defesa, único setor que se salvou em 2013.

Walter: Apesar de ter participado apenas da reta final da temporada, o goleiro demonstrou bastante qualidade quando teve a difícil missão de substituir o ídolo da Fiel, Cássio, lesionado. Com atuações seguras e uma boa participação na disputa de pênaltis contra o Grêmio, Walter demonstrou que pode ser uma sombra para Cássio na meta do Timão.

Os piores de 2013

Alexandre Pato: Contratação mais cara da história do futebol brasileiro, Pato não correspondeu. Mesmo tendo sido o artilheiro da equipe no Campeonato Brasileiro, o camisa 7 ficou devendo bastante para a Fiel Torcida e se envolveu em diversas confusões durante o ano. Além da cavadinha contra o Grêmio, Pato chegou até a provocar a torcida. Fecha o ano com uma relação quase insustentável com a Fiel.

Emerson Sheik: Do céu ao inferno em um ano. Assim pode ser definido o 2013 de Emerson Sheik. Autor dos dois gols na final da Libertadores contra o Boca Juniors, o atacante passou de ídolo incontestável a alvo da Fiel Torcida. Envolvido em polêmicas durante o ano, o camisa 11 apresentou um futebol muito ruim e foi constante nas capas de revista de fofoca, graças as suas intermináveis festas.

Romarinho: Assim como Sheik, Romarinho teve sua relação com a Fiel Torcida mudada da água para o vinho – no caso, ao contrário. De ídolo meteórico por conta dos gols contra Palmeiras e Boca Juniors, o atacante passou a ser culpado pela situação ruim da equipe em 2013 e teve sua imagem desgastada. Do mesmo jeito que Emerson, Romarinho não apresentou um bom futebol no ano e foi mais falado pelas baladas.

Análise final

Um ano emblemático. 2013 foi, com toda certeza, um dos anos mais estranhos da história do Corinthians. O ano começou com muita esperança, com a contratação de Alexandre Pato, foi manchado pela tragédia em Oruro e pela eliminação na Libertadores, comemorado pelos títulos do Campeonato Paulista e da Recopa Sul-Americana.

Voltou a ser trágico com a eliminação na Copa do Brasil e Alexandre Pato passou de grande esperança para grande vilão do ano. 2013 se encerrou de maneira melancólica, com o fim de uma era vitoriosa, mas que ficará marcada pelo excesso de empates e falta de futebol na reta final. Até mesmo a Arena Corinthians, motivo de festa da torcida durante todo o ano, terminou 2013 de maneira trágica. Em 2014, o torcedor corintiano espera que as tragédias passem bem longe do Parque São Jorge.


(Fotos: Gazeta Press, LancePress, UOL Esporte e Reprodução/Corinthians)

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