Acosta: "No Brasil, a cobrança é mais agressiva"
Depois de brilhar no Náutico, Acosta se transferiu para o Corinthians e acabou sendo atrapalhado por uma lesão (Arte: Marcello Neves)

Um uruguaio adotado pelo Brasil. Desde 2007 no futebol brasileiro, Alberto Martín Acosta já demonstrou enorme adaptação ao futebol jogado em terras tupiniquins em sua temporada de estreia ao marcar 17 gols no Brasilerão daquele ano, sendo o vice-artilheiro da competição e o grande destaque do Náutico. Os gols e as boas atuações lhe renderam uma transferência para o Corinthians, porém, atrapalhado por uma lesão que o afastou por oito meses dos gramados, Acosta não conseguiu se encaixar devidamente no alvinegro e foi atrás de um novo rumo para sua carreira.

A torcida do Corinthians é maior, cobra mais, mas a torcida do Peñarol é mais apaixonada. A diferença mesmo está na cobrança.

Tendo colecionado ainda duas novas passagens pelo Náutico, ambas sem o mesmo sucesso da primeira, o atacante também rodou por Brasiliense, Central de Caruaru, Resende, Operário de Várzea Grande e Santos do Amapá, o jogador que é comparado ao personagem Lula Molusco, do desenho animado Bob Esponja, tenta a sorte agora no União Barbarense, onde disputará a Série A-2 do Campeonato Paulista. Contudo, do alto de seus 37 anos, o uruguaio mantém o bom humor e a esperança de receber uma nova oportunidade em um clube de maior expressão.

Em entrevista exclusiva a VAVEL Brasil, Acosta comentou sobre sua passagem pelo Corinthians, a oportunidade que teve em defender clubes de estado sem tradição no cenário do futebol brasileiro, além de comparar as diferenças quanto a maneira de cobrar da torcida aqui no Brasil, se comparada a cobrança no Uruguai, onde defendeu Platense, Cerrito e Peñarol.

Confira a entrevista na íntegra abaixo.

VAVEL Brasil: Seu pai, Juan Alberto Acosta (ex-volante uruguaio que chegou a jogar inclusive pelo Real Madrid na década de 80), foi jogador de futebol. Como isso serviu de inspiração para que seguisse sua carreira?

Acosta: Meu pai sempre jogou bola e me apoiou para isso. São posições muito diferentes a minha e a dele, ele era volante, mas o que incentivou mesmo foi falarmos muito de futebol quando era mais novo.

VVL: Em sua primeira temporada no futebol brasileiro, em 2007, você já foi o grande destaque do Náutico ao marcar 17 gols no Brasileirão e ser o vice-artilheiro da competição. Como explica uma adaptação tão rápida?

ACO: Todo mundo fala quanto a essa adaptação. Joguei em muitos lugares, mas aqui, no Brasil, foi muito difícil por conta da burocracia, documentos, demorei pra estar apto a jogar. Em compensação, fui conhecendo a torcida, os jogadores, todos foram me tratando muito bem e isso ajudou muito.

VVL: Tendo conquistado imediato sucesso no Náutico, não tardou para que grandes clubes do futebol brasileiro se interessassem por seu futebol e, em 2008, você se transferiu para o Corinthians, que, na época, vivia um momento conturbado pelo rebaixamento para a segunda divisão no ano anterior. O que motivou tal escolha?

ACO: Na época, fui procurado por Corinthians e São Paulo, dois clubes muito bons, só que o Corinthians me deu melhores condições de trabalho, ofereceu um contrato de maior duração e, além dos dois anos de vínculo, havia a opção de renovar por mais um, o que pesou muito para que eu escolhesse o time.

VVL: No Corinthians, você se juntou a um time que passava por um processo de reconstrução depois de um fatídico rebaixamento, gerando certa pressão para que o acesso fosse imediato e convincente. Como era o ambiente do clube diante de todos estes fatores?

ACO: Foi difícil adaptar-se a isso no começo. Corinthians é um clube muito grande, tem muita torcida e muita pressão, mas o ambiente era bom, tanto que quase ganhamos a Copa do Brasil e fomos campeões da Série B naquele ano.

VVL: Por azar do destino, o seu desempenho no Corinthians não foi tão satisfatório. O que acha que faltou para o Acosta brilhar no Timão como no Náutico?

ACO: Essa pergunta todo mundo me faz. Eu joguei bem no Corinthians, marquei gols, mas acabei me machucando, sendo que nunca fui um jogador que se machucava com frequência e ficar logo oito meses de fora, foi complicado demais. Depois, em 2009, também chegaram várias opções para o ataque, como o Ronaldo e o Jorge Henrique, e ficou difícil.

VVL: Em sua passagem pelo Corinthians, você teve a oportunidade de trabalhar com o Mano Menezes, que agora retorna ao Timão. O que pensa do Mano?

ACO: Mano Menezes me ajudou muito, é um excelente professor. Tem muita pressão em cima de seu trabalho, mas ele sabe lidar bem com isso, tanto que acho que tem tudo para dar certo nesta nova passagem pelo clube.

VVL: Você teve a oportunidade de atuar pelo Peñarol e pelo Corinthians, dois dos maiores clubes da América do Sul e famosos pela paixão de seus torcedores. É possível comparar a torcida de ambos os clubes?

ACO: São times de países diferentes. A torcida do Corinthians é maior, cobra mais, mas a torcida do Peñarol é mais apaixonada. A diferença mesmo está na cobrança. No Brasil, a cobrança é mais agressiva, parte até para o físico, enquanto, no Uruguai, a cobrança é grande, mas fica apenas no estádio.

VVL: Tendo passado por centros sem muita expressão no futebol, como Mato Grosso e o Amapá, como enxerga o desenvolvimento do esporte nesses estados?

ACO: Falta se desenvolver mais e é algo difícil, porque são lugares muito longe, há muitos jogadores semi-amadores que têm outros empregos, além de jogar de bola, porém fiquei muito surpreso quando cheguei ao Macapá (Acosta atuou pelo Santos amapaense no ano passado), o clube ofereceu uma estrutura muito boa que nem sempre clubes da Série B e C têm. Havia um centro de treinamento e um alojamento muito bons, além de salário em dia. Converso até hoje com o presidente do clube e tenho vontade de, quem sabe, um dia retornar.

VVL: Por fim, gostaria de agradecê-lo pela entrevista, foi uma honra muito grande. Só gostaria de pedir para que deixasse um recado para os leitores da VAVEL Brasil e para os torcedores do União Barbarense.

ACO: Gostaria de agradecer pelo carinho, pela torcida. Eu me sinto muito querido aqui no Brasil, até mais que no Uruguai, tanto que sempre quando entro no Facebook, saio nas ruas, sempre conto com o apoio do torcedor. Agora, aqui no União Barbarense, espero fazer um grande campeonato, os 40 anos já estão batendo na porta, mas sempre estou aqui me dedicando, esperando uma boa oportunidade.

VAVEL Logo