Após Pelé e Romário, Túlio Maravilha alcança a marca de 1000 gols
Após longa saga, Túlio Maravilha marcou o seu gol mil (Foto: Nina Lima)

A incansável busca pelo milésimo gol tornou Túlio Maravilha parte viva do folclore futebolístico brasileiro. Aos 44 anos de idade, após 49 passagens por diferentes clubes a espera finalmente chegou ao fim. Defendendo o modesto Araxá, da segunda divisão mineira, Túlio marcou um dos gols mais importantes de sua carreira; o gol que o imortaliza na história do futebol mundial. Enfrentando o Mamoré em jogo pelo Módulo II, a segunda divisão mineira, o sábado (08) será lembrado como o dia da festa do milésimo gol. O grande objetivo de sua carreira foi, enfim, cumprido.

O árbitro assinala pênalti para o Araxá. Túlio Maravilha se posiciona para a cobrança e converte o tento. Confusão nas arquibancadas e todos correm para abraçar o veterano, que retribui o carinho. Família, parte da torcida, reservas e o presidente do clube invadem o campo para comemorar o feito junto do autor do tão esperado milésimo gol. Na sequência, Túlio posou para fotos com camisa nova: a camisa de número 1000, imortalizando a conquista.

A partida foi paralisada por dez minutos, tamanha a festa, e após seu recomeço, Túlio Maravilha foi substituído, com a sensação de dever cumprido. “Estou muito feliz com essa galera que veio até aqui em Araxá me prestigiar, dar toda essa energia positiva. Só tenho a agradecer e retribuir com mais alegrias e mais gols. E estou feliz por colocar Araxá na História. A cidade que viu o gol mil do Túlio”, definiu.

“Vou fazer tantos gols que o Felipão vai me observar e quem sabe eu consigo uma vaga para a Seleção Brasileira”, brincou Túlio em sua apresentação. O Araxá não será o responsável pela volta de Túlio à Copa do Mundo, mas ficará marcado como o clube que acreditou no veterano. Túlio Maravilha estava desempregado, sem vínculo com nenhuma equipe profissional, e treinava em uma academia de Goiânia para manter a forma, quando foi acolhido pela equipe mineira. Na apresentação, vestiu a camisa 999, de mesmo número de gols que tinha acumulado na carreira.

O objetivo primário da contratação de Túlio Maravilha não foi auxiliar o clube no acesso à elite do Campeonato Mineiro. Aos 44 anos de idade, a determinação já não é mais suficiente para manter o veterano atuando dentro dos gramados com regularidade. Em sua apresentação, o próprio Túlio Maravilha afirmou que não tem mais pique; que prefere disputar as partidas na cidade de Araxá à viajar com a delegação.

A contratação de Túlio Maravilha foi pensada como forma de marketing. Túlio, com seu milésimo gol, acaba de lançar o nome do Araxá no cenário nacional e faz com que os olhos se voltem à segunda divisão. Mesmo que não consiga levar, o atacante já marcou sua história no clube. Apesar de estar quase se aposentando, seu salário é digno de estrela de primeira divisão. O patrocinador do atleta banca todos os custos de hospedagem e de alimentação, além de arcar completamente com o salário do jogador.

Camisa e chuteiras personalizadas de Túlio no Araxá (foto: Divulgação/Twitter)

A saga: Botafogo e outras 21 equipes

O sonho de chegar ao milésimo gol começou em 1999, quando Túlio Maravilha defendia a equipe do Cruzeiro, e marcou o gol 500 de sua carreira em jogo contra o Democrata de Governador Valadares. Desde então, foram 21 equipes, sendo o último, antes do Araxá, o Vilavelhense, do ES. Pela equipe do Espírito Santo, Túlio chegou apenas a 999: antes de sacramentar o fim de sua saga, o atacante deixou o clube, devido a atraso no pagamento dos salários.

Não foi a primeira vez que Túlio enfrentou problemas em busca do gol 1000. O episódio mais emblemático da trajetória do camisa 7 aconteceu justamente no Botafogo, clube de maior identificação com o atacante. O sonho de alcançar o milésimo gol alcançou os ouvidos da diretoria do Botafogo que não hesitou em apoiar o atleta em seu objetivo. Foi criado o projeto “Tulio a 1000”, para que conquistasse a marca defendendo o Fogão.

O objetivo não se concretizou, e o projeto foi um fiasco. A campanha iniciou-se em agosto de 2012 e Túlio disputou apenas quatro partidas pelo Alvinegro. O artilheiro criticou a postura da diretoria, que se defendeu afirmando que não havia prometido uma vaga na equipe principal, nem a participação no Campeonato Brasileiro e Carioca. O atacante constantemente usou as redes sociais para criticar o presidente Maurício Assumpção e a instituição Botafogo, contribuindo com o clima pesado entre as duas partes.

O retorno de Túlio ao Botafogo foi marcado por polêmicas e desentendimentos (Foto: Fernando Soutello/AGIF)

A parceria mal sucedida terminou um ano depois. O estopim foi uma ação judicial contra o Botafogo, movida pelo ídolo. “Recentemente o departamento jurídico de Túlio informou que pediu R$ 1,5 milhão alegando uma série de questões em que se sentiu prejudicado. Diz que o projeto é falido e coloca o Botafogo na Justiça? Acho que fica complicado de o Botafogo apoiar, manter essa parceria”, explicou Maurício Assumpção, presidente do Botafogo, sacramentando o fim do acordo.

Os gols polêmicos têm um gostinho especial

Túlio Maravilha valoriza os gols que marcou por equipes de sua terra-natal, Goiás, mas curiosamente, os dois gols eleitos por Túlio Maravilha como os principais de sua carreira são irregulares: impedido, marcou o gol que sacramentou o título nacional do Botafogo em 1995; e em jogo da seleção brasileira contra a Argentina, marcou um gol de mão, que levou o Brasil à final da Copa América.

“O gol na final contra o Santos no Pacaembu é o mais importante da minha carreira. Também está entre os mais importantes do clube pelo título brasileiro”, afirmou, se referindo ao gol pelo Botafogo. A façanha deu ao Glorioso o primeiro e único título nacional de sua história, e foi o auge de Túlio Maravilha. Na ocasião, terminou como artilheiro da competição e tornou-se ídolo Alvinegro.

O gol contra a Argentina foi mais polêmico. A Seleção Brasileira perdia por 2 a 1 e os Hermanos se fecharam na defesa para manter o resultado. Para o juiz, Túlio matou a bola no peito para finalizar, mas a verdade é que o atacante dominou a bola com a mão para poder finalizar. Sem vergonha de admitir a irregularidade de seu gol, o atacante brinca com a situação. “Gol de mão contra a Argentina é muito bom. Costumo brincar que um gol desta importância deveria valer cinco”, disse, em entrevista ao GloboEsporte.com.

Túlio depois do milésimo gol

Uma epopeia chegou ao fim e agora Túlio Maravilha precisa se preparar para a repercussão do fato. Os 1000 gols seguem contagem feita pelo próprio artilheiro, portanto, os números certamente serão questionados. A contagem abrange absolutamente todos os gols marcados por Túlio e não apenas os marcados em jogos oficiais. Jogos-treino, amistosos, participações especiais e jogos comemorativos também entram nas contas do atacante, que já tem discurso pronto para os questionamentos.

“Hoje, para se fazer mais de mil gols na carreira, pode perguntar ao Pelé e ao Romário, só em jogos oficiais, seria humanamente impossível. Você teria de jogar 50 ou 60 anos. Tem jogos de pré-temporada aí. Se coloca a camisa do clube, já está valendo. Para eles, é como se fosse um treino. Para mim, não, é como se fosse um jogo”, explica, ao GE.com.

Alguns clubes já questionaram publicamente as contas do atacante. Pelo Sion, Túlio Maravilha afirma ter 64 gols marcados; os registros apontam apenas 19. O Újpest, da Hungria, também não reconhece todos os gols que Túlio alega ter marcado. Em clubes como o Fluminense e o Tupy (ES), os registros mostram que o atacante marcou mais vezes do que anotou em sua lista.

Túlio ainda tem cinco partidas para jogar pelo Araxá antes do término de seu contrato. Se vai continuar jogando futebol? Ainda não sabe. Mas mesmo depois de se aposentar, Túlio revela a vontade de continuar no futebol, mas agora como comentarista. O importante é que, independente de que rumo tome na carreira, seu legado já está imortalizado.

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