Grêmio 2014: Mais um ano sem títulos e com lições para a temporada seguinte
(Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA)

A temporada começou com pessimismo, sabendo que contratações de peso, como as de Vargas e Barcos, trazidos em 2013, não desembarcariam na Arena, mesmo que o estádio estivesse no itinerário da disputa da Libertadores. Antes disso, o principal adversário era o déficit de quase R$ 100 milhões do ano anterior, que não rendeu sequer o estadual. Para isso, foi necessário obter o teto salarial de R$ 300 mil a ser pago ao futuro treinador. Nesta retrospectiva, a VAVEL Brasil comenta em detalhes o ano de 2014 para o Tricolor gaúcho.

Planejamento dentro da realidade financeira

Já garantido com o vice-campeonato do Brasileirão de 2013, os homens do futebol gremista não esperaram terminar o ano para definir o técnico que teria a incumbência de lutar pelo tricampeonato da Libertadores. Após a negativa de redução salarial de Renato Gaúcho, Enderson Moreira foi apresentado no dia 16 de dezembro.

Dentro de campo, as mudanças foram mais profundas. Dida não teve o seu contrato renovado, Alex Telles foi vendido ao Galatasaray por 6 milhões de euros, Souza trocava de camisa tricolor e rumava ao Morumbi para a permanência de Rhodolfo e Vargas se despedia da Arena. Jogadores como Elano e Marcelo Moreno saíram logo no início do ano para aliviar a folha salarial, enquanto Kleber Gladiador permanecia para a disputa do campeonato estadual.

Os reforços trazidos para a pré-temporada não eram da magnitude da esperança do torcedor que disputaria o torneio mais importante do continente. Chegaram os desconhecidos Pedro Geromel e Alán Ruiz, além do ídolo colorado Edinho. Pouco depois, Dudu, revelado pelo Cruzeiro, somava-se aos comandados de Enderson Moreira.

Goleada no Gre-Nal coloca Enderson em xeque

Sem vencer o Gauchão desde 2010 e há 13 anos na seca de um título expressivo, o Grêmio que se formava em 2014 não dava perspectivas para interromper o marasmo dos anos 2000. Apesar do retrospecto histórico, a equipe que iniciava o estadual e disputava o aparente "Grupo da Morte" na Libertadores começava a mostrar mais virtudes do que se esperava. Em um grupo com Nacional, tradicional equipe uruguaia, Newell's Old Boys, argentino de ótima campanha no ano anterior – eliminado pelo Atlético-MG nos pênaltis, campeão da edição anterior – e Atlético Nacional, vencedor do colombiano de 2013 e também de 2014 (que mais tarde eliminaria o atual campeão da Libertadores, além de chegar na final da Copa Sul-Americana de 2014, conquistada pelo River Plate).

Na fase de grupos do campeonato Gaúcho, mesclou-se uma equipe formada por atletas da base e do elenco principal, chegando a 64% de aproveitamento, com oito vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas. Nas quartas de final, contra o Juventude na Arena, um sonoro 3 a 0 levou o time à semifinal. Contra o Brasil de Pelotas, o triunfo de 2 a 1 colocou o Tricolor na final, em uma habitual decisão contra o rival colorado.

Na primeira decisão, com mando de campo gremista, a equipe da casa iniciou melhor que o rival e saiu na frente, com boas chances de gols. Enderson Moreira conseguiu explorar os espaços propositalmente deixados pelo técnico colorado. Preocupado com as chegadas de Wendell, Abel Braga colou o versátil Jorge Henrique para brecar a movimentação ofensiva pela esquerda. Com D’Alessandro marcando a saída de Edinho, e Alex, a de Ramiro, dava-se espaço a Pará, com livre acesso ao campo de ataque, onde recebia o primeiro combate de Willians ou Aránguiz. Com essa indefinição, Dudu conseguia espaços para fazer a diagonal e levar perigo ao gol de Dida.

Foi dando liberdade demasiada a Pará, com a infiltração em diagonal, que o Grêmio chegou ao primeiro gol. Dudu saiu da esquerda para o meio e obrigou Paulão a deixar a área para dar o combate. O lance seguiu e chegou ao lateral-direito, com tempo para dominar, ajeitar a bola sem nenhum adversário lhe fazendo pressão, que cruzou na cabeça de Barcos, livre para abrir o placar.

No segundo tempo, Abel liberou Aránguiz e colocou o Inter no 4-1-4-1, além de Alan Patrick na vaga de Jorge Henrique. Com maior dinâmica, os visitantes solucionaram o seu principal problema: falta de aproximação entre os jogadores. O empate sai em um lance em que Alex possui quatro companheiros em condições de receber a bola. O camisa 12 enfia para Aránguiz, que infiltra e cruza para Rafael Moura deixar tudo igual.

A virada aconteceu com a mesma obediência lúcida colorada mas, agora, do outro lado. Alan Patrick recebe, novamente com quatro opções de soltar a bola, lança para Fabrício, novo cruzamento e o segundo gol colorado, contando com falha de Marcelo Grohe e do defensor que não acompanhou o deslocamento do centroavante, que já havia feito duas ótimas defesas.

Três dias depois da derrota, o Grêmio ia a Medellín para garantir a vaga às oitavas da Libertadores. Já classificado, encarou o Nacional, em casa, oito dias depois. Mais três e a equipe de Enderson disputava o segundo clássico, precisando reverter o 2 a 1 sofrido em casa. Em um jogo no qual uma vitória de 1 a 0 ou uma goleada de 4 a 1 – resultado da segunda partida – dariam na mesma, o Tricolor obteve êxito na Libertadores e ficou sem a taça do Gauchão, com uma derrota que seria lembrada a cada novo tropeço ou atuação abaixo da crítica do emergente técnico.

Queda para o futuro campeão nos penâltis

Dez dias depois de sofrer 4 a 1 do maior rival, o Grêmio foi ao Nuevo Gasometro medir forças com o San Lorenzo, time com a segunda pior campanha entre os 16 classificados. Com um time questionado após duas derrotas para o Inter, os gaúchos sofreram com três desfalques importantes. Rhodolfo, com lesão na coxa, e Wendell, com entorse no tornozelo, peças fundamentais para obter a melhor defesa dentre os 32 times dentro das oito chaves, além de Luan, figura mais criativa nos quatro primeiros meses do ano, que entrou no segundo tempo com proteção na mão fraturada. As ausências na primeira partida fizeram falta e o clube saiu derrotado por 1 a 0, em um lance bobo pela esquerda, após cobrança de lateral, justamente na vaga do improvisado Léo Gago, que ocupava o posto de Wendell, fundamental nas articulações ofensivas.

Na segunda partida, o Grêmio pressionou o San Lorenzo do início ao fim dos 90 minutos, quase sofrendo nas poucas escapadas argentinas e em um lance isolado de bola parada. No primeiro tempo, Barcos tocou por cobertura, mas Buffarini evitou o gol em cima da linha. Ainda na primeira etapa, o Pirata teve outra ótima chance, dentro da pequena área, mas parou no goleiro Torrico.

Na volta do intervalo, mais pressão em busca do gol, que deixaria tudo em pé de igualdade. Aos 3 minutos, após escanteio, Barcos marca, mas o impedimento é assinalado corretamente. Em cobrança de falta, Pedro Geromel acerta a trave. Aos 38 minutos, porém, Rodriguinho cruza forte para a área e Dudu marca para levar aos pênaltis. Apesar de forçar e conseguir o resultado, Barcos e Maxi Rodríguez desperdiçam suas cobranças, enquanto o San Lorenzo acerta as quatro primeiras e elimina o Grêmio nas oitavas de final, mesma fase em que caiu nas suas últimas duas participações.

Atuações ruins derrubam Enderson e fazem Felipão ressurgir após fiasco na Copa

O Grêmio iniciou o Brasileirão ainda na Libertadores, mas poupou jogadores em apenas uma partida. Apesar disso, os reservas garantiram a vitória por 2 a 1 contra o Atlético-MG, na segunda rodada, trazendo os primeiros pontos do Tricolor. Nas nove primeiras rodadas, antes da pausa para a Copa do Mundo, o Grêmio conquistou quatro vitórias, três empates e sofreu duas derrotas.

Mesmo sem vencer a três jogos, os comandados de Enderson terminavam em sexto lugar na tabela, com quase um mês para trazer reforços, melhorar a preparação física e corrigir os problemas existentes.

Na volta da competição, contudo, o time gremista empatou com o Goiás, na Arena, na estreia de Giuliano, principal reforço pós-Copa, em partida que o goleiro Renan realizou quatro ótimas intervenções e foi o melhor jogador da noite, além de finalização de Lucas Coelho na trave e três ótimas chances desperdiçadas por Barcos.

No jogo seguinte, contra o Figueirense, vitória por 1 a 0, com um homem a mais que os catarinenses. Dentro de seus domínios, no entanto, o Grêmio foi surpreendido e superado pelo Coritiba por 3 a 2, com gol de Alex no último lance.

Com atuação fraquíssima, recheada de erros no ataque e na defesa, dominado diversas vezes pelo Coritiba, que saiu na frente, sofreu a virada, mas tomou a frente de novo, o técnico Enderson foi vaiado, chamado de burro e encerrou sua passagem, com apenas cinco meses no cargo. Dois dias depois, Felipão era anunciado como novo técnico.

Felipão assume e reformula a equipe

A volta de Felipão é aceita de forma quase unânime entre os torcedores, descrentes com o antecessor e reanimados com o comandante da época mais vencedora do Grêmio. O casamento entre o técnico e o time é percebido logo na sua estreia, na derrota de 2 a 0 para o Inter, dentro do Beira-Rio. Um time com marcação alta e intensidade, que nega espaços ao adversário e aposta nas transições ofensivas para definir o jogo começa a se formar, diferente dos toques de bola e manutenção da posse, características do trabalho de Enderson.

A volta do estilo copeiro reinventa a maneira do Grêmio atuar. Com Felipão, a equipe realiza ótimos jogos enfrentando adversários superiores, como Cruzeiro e Internacional - apesar de perder para os dois - e, aos poucos, revela a dificuldade de ser propositivo e construir jogadas, sobretudo dentro da Arena, quando enfrenta times mais modestos.

Contra o Flamengo, Luan marca o único gol na vitória, no último lance da partida. Frente ao Atlético-PR, Barcos faz o mesmo e o Grêmio conquista os três pontos, ambos pelo placar de 1 a 0. Nas duas rodadas seguintes, dois empates em 0 a 0, primeiro com o Atlético-MG, depois com o Santos.

A dicotomia de perder jogando bem e ganhar quando atua mal, com alguns empates pelo caminho, perdura até o final da competição, com raras exceções, como a vitória de 4 a 1 sobre o Internacional e o triunfo de 3 a 0 sobre o Criciúma, no duelo seguinte, quando Felipão consegue colocar o Grêmio no G-4.

Após entrar na zona que dá acesso à Libertadores, o Tricolor volta a ter problemas dentro de campo e é derrotado pelo Cruzeiro e Corinthians, complicando a ida ao torneio internacional. Na rodada seguinte, contra um desesperado Bahia, a equipe tem uma de suas piores atuações, perde a chance de ir para a Liberadores e só não é goleado por causa dos milagres operados por Marcelo Grohe.

No adeus ao Brasileirão, o Tricolor é incapaz de, com o segundo tempo inteiro com um a mais, bater os reservas do Flamengo, ficando apenas no 1 a 1, o que lhe deixa em sétimo lugar. O resultado deixa a equipe atrás do Fluminense, o que tira mais de R$ 2 milhões de premiação e a coloca nas primeiras fases da Copa do Brasil do ano seguinte, quando poderia entrar diretamente nas oitavas de final.

Racismo e eliminação nos tribunais

A participação do clube mais vencedor da Copa do Brasil (junto com o Cruzeiro, cada um com quatro títulos) e de Felipão – técnico mais vitorioso da competição, duas vezes com o Palmeiras, uma com o Criciúma e outra com o Grêmio –, durou menos tempo que a de equipes desconhecidas do cenário, como Princesa de Solimões e Santa Rita de Alagoas, que chegaram a disputar mais de uma partida, diferente do Tricolor.

O dia 28 de agosto de 2014 ficou manchado na história do Grêmio, muito mais pelos acontecimentos fora de campo do que dentro. Na Arena, contra o Santos, a equipe pressionou o adversário com a intensidade habitual que Felipão impõe nos clubes que dirige. Foi mais uma das inúmeras noites que o Tricolor acuou o adversário e parou na sua incompetência na definição dos lances. Luan e Giuliano desperdiçaram chances claras de marcar.

Bem armado e jogando por uma bola, o Santos abriu o placar com David Braz, o que obrigou os gaúchos a correrem atrás do empate. Com a postura mais ofensiva, os mandantes deram os espaços que os paulistas precisavam. Ao final do primeiro tempo, Lucas Lima disparou antes da linha do meio de campo, sem nenhum adversário para pressioná-lo, invadiu a área e rolou para Robinho ampliar.

Com o resultado, o Santos voltou do vestiário disposto a se defender e pouco sofreu com as investidas do Grêmio. Nos últimos minutos do confronto, porém, o goleiro Aranha foi vítima de racismo, cometido por parte da torcida gaúcha. Por conta do episódio, o Grêmio foi excluído da Copa do Brasil, de forma unânime, após julgamento no Supremo Tribunal de Justiça (STJD), manchando a sua história no futebol brasileiro.

Melhor jogo: Grêmio 4x1 Internacional, 33ª rodada do Brasileirão

Foi somente no terceiro Gre-Nal da história da Arena que o Grêmio conseguiu superar o seu maior rival. Muito mais do que vencê-lo, o time de Felipão jogou como se fosse a partida de sua vida e viveu uma tarde em que dominou o Inter do primeiro ao último instante. De quebra, vingou a goleada sofrida na final do Gauchão pelo mesmo placar, entrou no G-4 e tirou o Inter de lá, quebrando uma seca de dois anos e nove clássicos sem vencer o adversário.

Pior jogo: Grêmio 1x1 Flamengo, 38ª rodada do Brasileirão

Vindo de três derrotas seguidas, o Grêmio não tinha mais chances de chegar à Libertadores, mas ainda poderia entrar direto nas oitavas de final e embolsar R$ 2 milhões a mais, caso ultrapassasse o Fluminense, superado pelo Cruzeiro. O Tricolor, porém, fez uma partida pobre contra os reservas da equipe carioca, que não disputavam absolutamente nada. Mesmo assim, foi a equipe de Luxemburgo que saiu na frente, em um lance tão feio e desagradável de se assistir como o futebol dos dois times. O gol de empate só saiu porque o goleiro César atropelou Barcos fora da área, em um lance no qual o centroavante conduziu a bola com a mão na origem da jogada. O Grêmio empatou nesta falta, mas não conseguiu a virada, que daria tranquilidade e datas de descanso que certamente farão falta em 2015. Tudo isso sem citar o dinheiro, cada vez menor nos cofres da equipe do bairro Humaitá.

Melhores jogadores:

Marcelo Grohe: Finalmente Grohe teve a oportunidade de ser o dono da camisa número 1 e não decepcionou. O goleiro fez temporada espetacular, salvou inúmeras partidas e foi considerado para muitos o melhor do Brasileirão. Suas atuações garantiram a convocação de Dunga para os amistosos contra Argentina e Japão.

Pedro Geromel: Desconhecido do futebol apesar de ter 29 anos, Pedro Geromel assumiu a titularidade nos últimos jogos de Enderson Moreira, perdeu nos primeiros de Felipão, mas voltou após falhas de Werley. O jogador se consolidou na defesa e fez temporada superior à de todos os zagueiros, inclusive Rhodolfo, badalado em 2013 e inseguro em 2014. Foi, junto com Grohe, um dos pilares para o Grêmio terminar o Brasileirão com a melhor defesa do campeonato.

Dudu: O camisa 7 do Grêmio deu a velocidade, verticalidade, pressão sob o adversário e individualidade que o Tricolor buscou em Vargas em 2013 e há anos não conseguiu. Dudu participou diretamente dos dois gols gremistas nas derrotas da final do Gauchão, fez o gol que levou o Tricolor aos pênaltis contra o San Lorenzo, foi protagonista na vitória de 4 a 1 sobre o Internacional e, com justiça, tornou-se o principal objeto de desejo para reforçar as equipes brasileiras. Não foram raros os momentos em que a equipe de Felipão acionou o jogador para desafogar o time em momentos de dificuldade, apostando nas jogadas pessoais para furar os bloqueios adversários.

Piores jogadores:

Werley: Fez seu pior ano com a camisa do Grêmio. Falhou nos dois Gre-Nais da decisão do Gauchão e no primeiro do Brasileirão, além de outros erros, como o que resultou no gol de Dagoberto, do Cruzeiro, na vitória de 1 a 0, no segundo jogo de Felipão, quando a equipe fazia ótima partida e conseguia um bom resultado fora de casa.

Pará: O lateral-direito titular nos últimos dois anos e meio fez mais uma temporada ruim para uma equipe do tamanho do Grêmio. Não acumulou falhas defensivas como na temporada anterior, mas permaneceu improdutivo no campo de ataque. Muito comprometimento e entrega para pouco futebol.

Expectativa para 2015

Se 2014 começou sem dar muitas esperanças, o ano seguinte é preocupante e temerário. O time que terminou em sétimo lugar perdeu Dudu, o seu maior desafogo para os momentos de aperto e o jogador que mais dava trabalhos ao adversário, além de ter inteligência tática para recompor o sistema. Zé Roberto, a solução que Felipão encontrou para a esquerda é outra perda importante. Alán Ruiz, a incógnita que alternou bons e maus momentos, não será mais opção também. Pedro Geromel, o melhor defensor do elenco, é outro que não tem permanência assegurada. O preparador físico Fábio Mahseredjian é mais um a dar adeus. Darlan Schneider, sobrinho de Felipão, será seu subsituto.

Douglas e Marcelo Oliveira foram os dois únicos reforços e não animam. O primeiro é o jogador que dará a cadência e a retenção que faltou durante todo o ano, além de ser uma opção para os lances de bola parada. Porém, quem será sacrificado para que suas atribuições defensivas sejam menos intensas. Por outro lado, Marcelo Oliveira é infinitamente inferior a Zé Roberto, na esquerda, e está abaixo de Geromel e Rhodolfo na zaga. Não acredito que seja pior que Werley, mas disputará a vaga de primeiro reserva com Bressan, jogador que pode render uma futura venda. Pensar nele como volante é ainda mais improvável, já que para esta posição o técnico conta com Ramiro, Walace, Matheus Biteco, Fellipe Bastos e Riveros, peças que não comprometeram e se sobressaem ao polivalente que veio do Palmeiras.

O lado positivo é a manutenção do técnico, cada vez mais rara no certame nacional. Felipão e Grêmio se alinham historicamente, com defesas sólidas, atacam com transições rápidas e marcação intensa, sem deixar o adversário pensar o jogo. Isso dá a certeza de que torcida, técnico e time estarão mais unidos, diferente do que aconteceu com Enderson Moreira.

Dos homens de futebol e do técnico, espero que o trabalho seja mais sério e crítico consigo mesmo, sem tentar jogar a culpa de possíveis derrotas a terceiros, como aconteceu este ano, sobretudo após a derrota para o Palmeiras. Sim, o Tricolor foi prejudicado pela arbitragem, mas o que o treinador disse quando a equipe venceu o Figueirense com um pênalti inexistente? E depois do primeiro gol de Alán Ruiz no Gre-Nal, em posição de impedimento? E na última rodada, quando Barcos conduziu com a mão o lance que resultou na expulsão do goleiro do Flamengo e no gol de empate do time? Porém, isso não é demagogia exclusiva do Grêmio.

Análise final da temporada

O Grêmio de 2014 foi um time interessante, que chegou a empolgar na Libertadores, Gauchão e Campeonato Brasileiro, mas que novamente morreu na praia. Pelo quarto ano seguido, o Tricolor ficou sem nenhum título. O time mostrou bom futebol nas duas principais competições que disputou, mas foi oscilante durante a temporada e não conseguiu se recuperar dos tombos mais dolorosos, como na goleada de 4 a 1 para o Inter e na queda da Libertadores.

Apesar das derrotas e da seca, nada pode ser mais vergonhoso do que a volta aos tribunais do STJD por episódios de racismo, sendo excluído da Copa do Brasil, competição que era a principal aposta de título para o segundo semestre.

Além das derrotas dentro de campo, o Grêmio repetiu os principais erros das equipes brasileiras ao demitir um técnico com apenas cinco meses de trabalho, período insuficiente para fazer avaliações. Existia o consenso de que as contratações eram modestas e o time era fraco, mas Enderson conseguiu engrenar boa campanha na Libertadores e no Gauchão, até se deparar com o Inter. Com a lesão de Luan, ainda no primeiro semestre, o ex-técnico não encontrou substituto e os problemas de elenco se escancararam, enquanto a goleada estremeceu a relação com a torcida.

As contratações vieram na parada para a Copa do Mundo, quando Giuliano e Fernandinho chegaram. Com os dois, Enderson tentou moldar uma equipe que valorizasse a posse de bola, não mais o contra-ataque. Porém, o "projeto" durou apenas três jogos. Os equívocos poderiam ser consertados, mas não existiu paciência com o emergente treinador, que não cometeu nenhum absurdo enquanto esteve na casamata tricolor. Para seu lugar, veio Felipão, ídolo e símbolo de uma geração, que pensa futebol de forma diferente do ex-comandante, com outros conceitos e formações de time.

Pensar em Felipão como ícone principal de forma romântica e mística é desconhecer futebol e a história dele com o Grêmio, que começou a caminhada em 1993, com uma equipe criticada, mas que se reforçou e conquistou títulos relevantes nos quatro anos seguintes e alçou os gaúchos no ponto mais alto do futebol nacional. É preciso entender que equipes vencedoras são construídas ao longo dos anos. Que Felipão consiga sofrer com as oscilações, superar os problemas e seja bancado pela direção quando isso acontecer, algo que não acontece no Grêmio desde a passagem de Mano Menezes.

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