Campeonato Paulista de 1993: O resgate da glória palmeirense
Arte: Natália Furlan/VAVEL Brasil

Tão difícil quanto não saber as cores de seu clube é não saber que Palmeiras e Corinthians rivalizam em um dos confrontos mais clássicos do futebol brasileiro. Comum ao duelo, existem as séries positivas e negativas, que culminam em apontar o “time da vez” durante um período de tempo.

Marcada por esses tabus, o derby já decidiu títulos, consagrou jogadores, lotou estádios e, principalmente, sempre encheu os olhos de quem o acompanha.

O Campeonato Paulista de 1993 levou os dois times a mais uma finalíssima, jamais esquecida pelo torcedor palmeirense. O desfecho marcou o fim de uma “fila” de 16 anos, após falhas recorrentes nas decisões do estadual.

Por esses motivos, a história da decisão não vem sozinha; é preciso voltar duas décadas para entender a importância daquela partida. E também para entender, um pouco mais, sobre o tamanho do clássico entre Palmeiras e Corinthians.

A rivalidade paulista nos anos 70

Após longo período de superioridade de Santos e Palmeiras - que dividiram os títulos estaduais de 1958 a 1969 – os anos 70 acompanharam uma maior diversidade de campeões. Mesmo assim, o Corinthians amargava uma série negativa e não levantava a taça regional desde 1954. Duas décadas depois, em 1974, o derby acontecia.

O Palmeiras era o atual bicampeão brasileiro (72/73) e jogava um futebol de rara qualidade. Do elenco palmeirense, 6 jogadores foram ao mundial de 74. Era o auge da segunda Academia de futebol, comandada por Ademir da Guia.

A decisão de 1974 foi marcada por uma multidão de torcedores no estádio do Morumbi: mais de 120 mil cabeças naquela tarde de 22 de dezembro; a maioria, corintiana. O gol do palmeirense Ronaldo, na última metade do segundo tempo, calou as arquibancadas.

O bom time alvinegro falhava mais uma vez na tentativa de quebrar a seca de títulos, que só acabaria em 1977. Martirizado pela torcida impaciente, o craque corintiano Rivellino deixou o clube dias após a derrota.

O Palmeiras, por outro lado, se sagrou vitorioso e conquistou outro título paulista três anos mais tarde. Coincidentemente, a taça daquele ano foi considerada, posteriormente, como a que deu fim à Academia. O ano de 1976 ano ficou marcado como o último antes da “fila” mudar lado. Depois de décadas de prosperidade, era a vez do lado do Palestrino sentir o amargor do jejum de títulos.

Os 16 longos anos

O bom futebol parecia distante do Parque Antártica

A ideia de que o título de 1976 seria o último num horizonte de quase duas décadas, não povoava a cabeça nem do palmeirense mais pessimista. Nem os próprios rivais imaginariam que aquele Palmeiras, do futebol bem jogado, ficaria distante das glórias por tanto tempo.

Depois de vender os jogadores Leivinha e Luiz Pereira para o futebol europeu, a segunda Academia alviverde viu seu maior craque, Ademir da Guia, sofrer com lesões que antes não aconteciam.

O jogador, apelidado de Divino graças a imensa habilidade e maestria, acabou se aposentando em 1977, aos 35 anos. Durante sua passagem no clube, o rival Corinthians jamais havia sido campeão. Ironicamente, o alvinegro voltou a ser campeão justamente quando o gênio palmeirense deixou os gramados:

Mais um elemento que dimensiona a grandeza do folclórico derby paulista.

A década de 80 foi um período nada agradável ao Palmeiras. Foram várias baixas no elenco no anos anteriores e a reformulação do elenco não foi à altura.

Ao longo do decênio, vários técnicos falharam e a atuação no Campeonato Paulista só piorava. Acostumado a estar, pelo menos, entre os quatros finalistas da competição, o fragilizado Palmeiras penava para conseguir um lugar entre os melhores. Em 1981, veio a derrocada: o time não passou nem da Taça de Prata (segundo escalão do estadual).

Passados alguns anos, os problemas políticos não contribuíam para o sucesso do time dentro de campo. Com mudanças abruptas de elenco e diretoria, o time do Parque Antártica montou o primeiro esquadrão de encher os olhos só em 1986.

O time que tinha Mirandinha, Jorginho e Éder enfrentaria a Inter de Limeira na final do paulistão daquele ano. Com empate em zero a zero no primeiro jogo, o então técnico Carbone viu seu time perder a segunda partida por dois a um; um pesadelo que nenhum dos 100 mil presentes naquela tarde conseguiu explicar.

Parecia que o tão vitorioso Palmeiras nunca mais voltaria a dar alegrais. O brilho da equipe que parou o poderoso Santos dos anos 60 e que encantou o país com as Academias parecia ter acabado.

A era Parmalat e o título paulista

A reviravolta finalmente chegava aos arredores da Rua Turiaçu. O Palmeiras dava adeus à “época das vacas magras” e, enfim, alcançava a tão sonhada reestruturação do clube.

Em 1992, o clube assinou parceria com a Parmalat, multinacional italiana que buscava difundir sua marca fora do território europeu. O dinheiro e o profissionalismo vieram. Junto com eles, grandes contratações chegavam em “pacotões” e o clube dava indícios de que a grandeza retornaria. Após perder a final do Campeonato Paulista pro forte São Paulo, o Palmeiras tinha a missão de mostrar retorno frente ao grande investimento feito pela patrocinadora.

No ano de 1993, o Palmeiras do técnico Vanderlei Luxemburgo já mostrava solidez de campeão, mesmo sem ter levantado novas taças desde a chegada da nova parceira. A derrota pro time de Telê Santana, um ano antes, deixou o time mais forte. E ninguém foi capaz de parar o esquadrão alviverde dali em diante.

Com apenas 6 derrotas em 38 partidas e um saldo arrasador de 42 gols, o Palmeiras voltou à final do campeonato. E justamente contra o maior rival.

Palmeiras e Corinthians se encontravam novamente em uma final depois de 19 anos. Os palestrinos, sedentos pelo título, iriam com força máxima pra cima dos alvinegros, que tinham, também, um grande time.

As duas partidas decisivas foram disputadas no estádio do Morumbi e o público superou novamente os 100 mil pagantes, como era comum na época.

Na primeira decisão, o Corinthians venceu por um a zero, gol de Viola. Na comemoração, o jogador fez a famosa imitação de um porco, contribuindo para atmosfera turbulenta do clássico e irritando profundamente os palmeirenses naquela semana.

Ainda mais determinado, o time de Zinho, Edmundo e Evair entrou na segunda partida disposto a resolver a partida no tempo normal, mesmo sendo necessário a prorrogação (graças ao regulamento confuso do campeonato).

Com gols de Zinho (36’), Evair (29’) e Edilson (38’), a decisão foi para a prorrogação, com vantagem palmeirense devido a melhor campanha na primeira fase.

Sem se acomodar com “empate”, o time verde foi pra cima e, aos 10 minutos, em cobrança de pênalti, Evair fez seu segundo no jogo e devolveu a alegria a todos os palmeirenses. Era o fim de 16 longos anos sem título. A cidade de São Paulo ficou ensandecida. E os palmeirenses celebraram uma vitória há muito tempo engasgada.

Mesmo com outras diversas conquistas ao longo da década de 90, o palmeirense considera o título do Campeonato Paulista de 1993 como o mais importante da história do clube, já que encerrou o maior jejum de títulos justamente em cima do maior rival.

Como o jogava o Palmeiras em 1993

Esquema 4-3-3

O time de Vanderlei Luxemburgo era eficiente em todos os setores. Com grande presença ofensiva dos laterias Mazinho e Roberto Carlos, a defesa era sólida e raramente sofria gols. A capacidade defensiva era facilitada, já que o Palmeiras era um time que jogava com muita posse de bola.

O primeiro homem de meio de campo era César Sampaio, que além de bom marcador era muito técnico no chamado "primeiro passe", na ligação entre os blocos do campo.

Do meio pra frente, o time era letal. Jogando no ofensivo esquema do 4-3-3, os jogadores de frente tinham a velocidade e a força física de Edmundo e também contavam com a frieza certeira de Evair, que jogava tanto entre os zagueiros, como fora da área. O time era uma máquina de gols.

Números no Paulistão de 1993

Jogos 38
Vitórias 26
Derrotas 6
Gols pró 72
Média de gols por jogo 1,9
Maior marcador Evair (18)
Maior goleada Palmeiras 6x1 Rio Branco

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