Especial: Dadá Maravilha - 70 anos
Foto: Divulgação

Ele tem uma das histórias mais ricas e emocionantes do mundo do futebol. Ele fez da bola um instrumento para ser feliz em uma vida cheia de conflitos. Estamos falando de Dario José dos Santos, carinhosamente conhecido como Dadá Maravilha. Um dos maiores goleadores do futebol brasileiro completa, nesta sexta-feira (4) ,70 anos de vida.

Dadá marcou 926 gols defendendo 16 clubes, dentre os principais, Atlético-MG, Flamengo, Internacional, Sport e Santa Cruz. Ganhou títulos e foi artilheiro. Com irreverência, Dario conquistava até os torcedores adversários, tornando-se uma figura folclórica no meio do futebol.

Início da vida e o descobrimento do futebol

Dario José dos Santos nasceu no dia 4 de março de 1946, no Rio de Janeiro. O pequeno Dario teve uma infância difícil. Aos cinco anos, viu sua própria mãe cometer suicídio, derramando querosene em seu próprio corpo e depois atear fogo em si mesma. Sem condições de criar os filhos, o pai de Dario internou ele e seus outros dois filhos na Fundação do Bem-Estar do Menor - Fundabem. Lá ele conheceu o pior de seus caminhos: o crime.

Dario chegou a fazer assaltos, fugia do colégio e teria tudo para ter uma vida complicada. Desistiu do crime após seu comparsa morrer durante uma fuga em um roubo que havia feito.

"Um dia, saí para um comparsa para roubar uma mercearia. Roubamos e saímos correndo em zigue-zague. O dono da mercearia meteu um tiro e pegou no pescoço do meu parceiro, que caiu e morreu na hora. Eu consegui fugir. Mas, daquele dia em diante, fiquei com medo de roubar. Pensei: 'Tenho que fazer algo da minha vida'. Mas o que eu ia fazer? Não tinha nem completado a 8ª série", disse a Rádio ESPN.

Dario só foi chutar uma bola pela primeira vez aos 18 anos e resolveu tentar a sorte do modesto Campo Grande, time da Zona Oeste fluminense. Na sétima vez em que foi a equipe carioca, o treinador o aceitou não pela qualidade técnica, mas por ter uma velocidade e impulsão incríveis.

A grande oportunidade no Campo Grande e a chegada ao Atlético

Aos 20 anos, Dario teve sua grande chance. Em preliminar de um Flamengo x Fluminense, no Maracanã, um amistoso entre Campo Grande x Bonsucesso foi o momento preciso para Dadá. O artilheiro marcou três vezes e saiu consagrado pelo torcedor e pela imprensa.

Jorge Ferreira, vice-presidente do Atlético-MG, estava no Maracanã assistindo a partida para olhar Carlinhos, do São Cristóvão. Mas, um torcedor disse ao mandatário que esquecesse Carlinhos e prestasse atenção em Dario. Em 1968, Dadá assinou contrato com o Atlético, parecia a glória para ele, mas, como na vida do jogador, nem tudo foram flores.

Em seu primeiro jogo, o atacante ficou apenas 10 minutos em campo e desagradou ao torcedor, ficando no banco de reservas por mais um ano. A nova chance veio com o técnico Yustrich, em um amistoso contra a União Soviética, em março de 1969, no Mineirão. Dario fez os dois gols da vitória por 2 a 1 e passou a ser visto com novos olhos pelo torcedor. A consagração veio seis meses depois, contra a Seleção Brasileira. O Atlético venceu por 2 a 1 e Dadá Maravilha fez o gol da vitória contra o time que viria a ser campeão do mundo no ano seguinte.

Dario: consagrado, ídolo, artilheiro e campeão brasileiro

O técnico Yustrich exigiu muito de Dario. Eram treinos diários de finalização, que foram importantíssimos na carreira do camisa 9. Em 1970, Dadá conquistou seu primeiro título como jogador. O título mineiro de 1970 não só foi um marco para o atleta, como também quebrou uma hegemonia estadual de cinco anos do Cruzeiro.

O melhor ainda estava por vir. Dario, conhecido nacionalmente, já era titular absoluto do Atlético e foi com Telê Santana que ele alçou mais um degrau para o sucesso. Dadá Maravilha foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1971 com 15 gols, dentre eles, o do título, levou o Galo a conquista nacional daquele ano.

Foto: Reprodução/Site Oficial do Atlético-MG

"A comemoração foi incomum. Enquanto meus companheiros choravam de alegria em campo, eu chorava de dor. Joguei com o dorso do pé direito fraturado", lembrou o jogador em entrevista a Revista Placar.

No ano seguinte, Dario seguiu sendo artilheiro do Brasil, marcando 17 vezes e dividindo o topo da artilharia com Pedro Rocha, do São Paulo. Terminava a primeira passagem do goleador com a camisa do Atlético.

Peregrinação por clubes do Norte ao Sul do Brasil e campeão brasileiro pelo Internacional

Em 1973, Dario voltou ao Rio de Janeiro e foi jogar no Flamengo, sendo artilheiro do Carioca com 15 gols. Em 1974, voltou ao Atlético para ser goleador do Campeonato Mineiro com 24 tentos. Em 1975, voltou a ser campeão, desta vez em Pernambuco, pelo Sport. Em 1976, não levou o caneco. Nas duas competições, Dario foi matador, balançando as redes 32 e 30 vezes, respectivamente.

Foto: Reprodução/Sportnet

Em 1976, Dario foi para o Internacional e novamente foi campeão brasileiro pelo colorado gaúcho ao vencer o Corinthians na decisão. O camisa 9 marcou um dos gols da vitória por 2 a 0 e se consagrou como artilheiro da competição com 16 tentos.

Foto: Divulgação/Internacional

Em 1977, atuou pela Ponte Preta, mantendo a fama de goleador até retornar para o Atlético-MG, onde foi campeão mineiro em 1978. Dario ficou no Galo até 1979, sendo sua última partida, um amistoso contra o Flamengo, no Maracanã.

Foto: Reprodução/Site Oficial do Paysandu

A partir daí, Dario rodou o Brasil jogando por Paysandu, Náutico, Santa Cruz, Bahia (onde marcou 54 gols e ganhou dois campeonatos baianos), Goiás, Coritiba, Nacional-AM (artilheiro do Amazonense com 15 gols), América-MG, XV de Piracicaba, Douradente e Comercial de Registro-SP, onde parou em 1986, aos 40 anos.

E depois do futebol? Dadá não parou!

Dario seguiu no futebol, sendo técnico da Ponte Preta e em Brasília, sem grande sucesso. Após este período, assumiu uma nova função em sua trajetória no mundo da bola. Em 1999, foi convidado pela TV Alterosa, afliada do SBT em Minas Gerais, para ser comentarista no programa Alterosa Esporte, em substituição ao jornalista Carlos Cruz.

Foto: Reproduçao/TV Alterosa

Dario conquistou os torcedores com seu jeito engraçado e irreverente, ficando no programa até 2001, passando a batuta para o radialista Dudu Schechtel. Dada Maravilha foi longe, chegou a Rede Globo, onde permaneceu durante quatro anos. Depois passou pela TV Record e Rede Minas. Hoje, Dario voltou ao Alterosa Esporte e segue representando o Atlético na "Bancada Democrática".

Curiosidades

Dario foi convocado pelo técnico Zagallo para disputar a Copa do Mundo no México, em 1970. Apesar de ser um dos maiores goleadores do Brasil na época, seu nome não era bem visto. O presidente da republica, Emílio Garrastazu Médici declarou que gostaria de ver Dadá Maravilha na Seleção Brasileira. Dizem que o ex-presidente influenciou na convocação de Dario, mas, segundo Dario, ele leva a situação com bom humor.

Em 1975, Dario anotou 10 gols na vitória do Sport sobre o Santo Amaro, pelo Campeonato Pernambucano. O jogo ficou 14 a 0 para o time da Ilha do Retiro.

Em 1981, o Cruzeiro não quis contratar Dada Maravilha. Por conta disso, Dario assinou com o Santa Cruz. No confronto entre as duas equipes pelo Brasileiro, em fevereiro daquele ano, o camisa 9 marcou dois gols na vitória do Santa por 3 a 0 sobre o Cruzeiro, em pleno Mineirão. Após a partida, Dario declarou a Revista Placar: "O Cruzeiro não me quis, né? Azar o deles, pois só Dadá sabe como ganhar campeonato brasileiro".

É assim, com muita luta, vivendo e aprendendo com as tristezas, cortando pelos caminhos da vida, Dario marcou belos gols dentro e fora de campo. Parabéns, Dadá! 70 anos!

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