Punho cerrado: ídolo do Atlético-MG, Reinaldo completa 60 anos de muita história no futebol
Foto: Editoria de Arte/VAVEL Brasil

Ele foi revelado pelo técnico Barbatana aos 14 anos. Mineiro, de Ponte Nova, logo cedo se mudou para Belo Horizonte visando construir sua história no futebol. Estamos falando de José Reinaldo de Lima, ou simplesmente, Reinaldo, ídolo do Atlético-MG, que completa 60 anos nesta quarta-feira (11).

Para celebrar a data, a VAVEL Brasil promoveu um bate-papo com o Rei, em uma cafeteria da Savassi, região Sul de Belo Horizonte, bairro no qual o ex-jogador reside e se reúne com os amigos todas as manhãs na Praça Diogo de Vasconcelos. A Savassi é a segunda casa de Reinaldo. A primeira é o Mineirão. Por lá, o Rei marcou 152 gols, sendo o maior artilheiro do estádio.

Reinaldo atuou em 475 partidas pelo Atlético-MG, marcando 255 gols. Em 1977, o Rei marcou 28 gols atuando em 18 partidas pelo Galo no Campeonato Brasileiro daquele ano, atingindo a insuperável meta de 1,55 gol por jogo. É só uma pequena parte da rica história do ex-jogador, que ainda falou sobre lesões, Seleção Brasileira, Europa e sua atuação na militância política entre os anos 70 e 80.

VAVEL Brasil: Como você encontrou sua grande companheira de uma vida. No caso, a bola de futebol?

Reinaldo: Meu irmão jogava no Botafogo, e eu, quando criança, sempre ia para Rio de Janeiro passar férias. Conheci o mar, a cidade grande, o Maracanã, e foi aí que ganhei uma bola de presente. Jogava bola o dia inteiro, no intervalo da escola, e como eu gostava muito, meu pai, Sr. Mário Lima, me levou para a escolinha do Primeiro de Maio. Aquilo virou minha vida, e as pessoas falavam que eu jogava muito, que fazia muitos gols, que meu irmão iria me levar para o Rio de Janeiro para jogar no Botafogo, também colecionava figurinhas de futebol, e aí tudo foi tomando uma proporção muito grande, mas ainda sim, bem distante dos grandes centros.

VB: Como aconteceu sua chegada ao Atlético-MG?

R: O juvenil do Galo foi jogar em Ponte Nova. O Barbatana, que treinava o Atlético, e o Sinval Martins foram conversar com o Dom Miguel Trinchano. O Barbatana e o Dom Miguel eram amigos quase trabalharam juntos no Porto, em Portugal. Eu já tinha sido contratado pelo Pontenovense, e me deixavam usar a piscina do clube, a única da cidade, pagavam refrigerante, coxinha, mas fiquei pouco tempo lá, justamente porque o Atlético apareceu. Estava no desfile de Sete de Setembro da cidade, me encontraram e fui levado para Belo Horizonte.

Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil
Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil

VB: Seu irmão jogava no Botafogo, e você disse que ia ao Rio de Janeiro passar férias. Porque você não foi levado para jogar no alvinegro carioca?

R: Na minha casa, todos os meus irmãos mais velhos e minhas irmãs, quando terminavam o colégio, a quarta série, você tinha que se arrumar na vida. Então, meu irmão foi jogar no Botafogo, minhas irmãs também foram para o Rio de Janeiro, o outro irmão foi para São Paulo, já tinha uma irmã formando e eu estava na terceira série. Então, estava só esperar eu terminar no ginásio para caminhar na vida. Aí talvez eu iria para o Botafogo. Cheguei a bater uma bolinha lá em General Severiano, conheci jogadores como Jairzinho, Zagallo, Paulo César, Cao, Zequinha, Roberto, mas isso só acontecia quando passava férias lá no RJ. Não era frequente.

VB: Hoje um adolescente de 14 anos que se destaca na base já tem empresário, assessor e sofre muita badalação. Você, quando chegou ao Atlético com esta idade, chegou a ter este destaque todo e sentiu que estava ganhando muita projeção antes mesmo de chegar ao profissional?

R: Não. Eu era muito concentrado neste sonho de ser jogador de futebol. E diferente de hoje, tudo era muito tímido, o assédio era fraco, e existia sempre o amor ao time em primeiro lugar. E acredito, também, que tive muita sorte, porque a base, na época, era só até 18 anos. Não existia categoria júnior. Era do juvenil para o profissional. Depois disso, ou você ia para o exército, ou ser jogador ou fazer outra coisa na vida.

Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasilgol por jogo
Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil

E como o Barbatana quis me ver jogar, me trouxe para Belo Horizonte, fiz o treino contra o time profissional. E isso foi um presente da bola, do talento, tive uma grande oportunidade. Não sabia nem se tinha futebol para tanto, mas agradei e fiquei no Atlético. Fiz o que fazia em Ponte Nova e deu certo.

VB: Logo em 1973, com 16 anos, você chegou aos profissionais. E mesmo tendo sido artilheiro em todos os campeonatos das categorias de base, você não se assustou com esta promoção tão repentina?

R: Não. Tudo foi muito rápido mesmo. Cheguei em setembro de 1971, depois começou o campeonato infantil. O Zé das Camisas pediu para ficar no infantil, e o campeonato era transmitido pela TV Itacolomi aos domingos pela manhã. Em três meses, fiz 38 gols. No primeiro jogo, logo na saída de bola, driblei o time adversário todo e fiz o gol (risos). Depois disputei um torneio de seleções estaduais em Brasília. O ataque da Seleção Mineira era Marinho, Cléber e eu. Em 1972, subi para o infanto-juvenil, joguei no Mineirão pela primeira vez, e fiz 32 gols pela categoria. No final de 72, subi para o juvenil, disputei a Taça Cidade de São Paulo e entrei de férias.

Fui para Ponte Nova e em janeiro de 1973, me ligaram para disputar a Taça Minas Gerais num time misto entre juvenis e profissionais. Vim para Belo Horizonte e estreei contra o Valério Doce no dia 28 de janeiro. Joguei bem, tive uma sequencia boa, e naquela época era Lei do Passe. E começou aparecer que o Palmeiras me queria, o Cruzeiro... e o Atlético não tinha garantia. Para ficar comigo, o Galo deveria me profissionalizar, e foi o que aconteceu.

VB: Seu primeiro Campeonato Brasileiro foi em 1973 e foi neste nacional que você sofreu sua primeira lesão no joelho. O fato de você começar a frequentar o departamento médico do Atlético tão cedo te preocupou?

R: Em 1973, eu era um adolescente e encarava zagueiros fortões tipo Brito, Fontana, Alcir, Abel, Moisés, Alfredo, Luiz Pereira, Zé Maria... Trombar com o Zé Maria era a mesma coisa que bater de frente com uma parede (risos). E eu fiquei preocupado, porque eu não tinha conhecimento médico. Não tinha como discutir. Se tiver que fazer a cirurgia, o médico vai lá e faz e fica por isso mesmo.

VB: A falta de informações e o tratamento ao qual você era colocado te deixaram numa condição terrível. Como era a sua rotina no departamento médico do Atlético-MG?

R: Não havia informações, não existia uma retaguarda como tem hoje. Uma alternativa que tinha era um japonês que mora aqui no bairro São Lucas, e que fazia acupuntura. O Bibi, filho do genial Didi, me levou lá e eu comentei com o Dr. Abdo Arges, que cuidava de mim. Ele me xingou, falou que se eu fosse lá não ia cuidar mais de mim. E ele nem me olhava, sequer ia ao Atlético ou na Vila Olímpica. Ele tinha uma clínica e ele só queria ganhar dinheiro. Quem se deslocava até o consultório dele era eu.

Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil
Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil

Depois que briguei com ele, eu assustei e continuei me tratando com ele. Era punção e infiltração. Tirava o líquido sinovial e injetava droga, e eu fiquei nesse processo até final de 1975, fora as outras cirurgias. Tive lesão de menisco, 30 dias depois reclamei de dor, mas era natural. Engessava a perna toda e ela ficava atrofiada, perdia musculatura e virava um palito. Não tinha aparelho de musculação. Com a atrofia, o joelho sofria e dava derrame. Foi por isso que sofri tanto. Tempos depois, sem necessidade nenhuma, o Dr. Abdo Arges abriu o outro joelho. E quando o Dr. Neylor Lasmar chegou mudou tudo e para melhor. Era tudo feito com radioterapia e corticoide que inibia o derrame. Sem derrame no joelho, eu voava em campo. Foi aí que comecei a ganhar sequencia de jogo.

VB: Você acredita que o fato de ter subido tão cedo para os profissionais queimou etapas importantes no seu desenvolvimento como jogador?

R: Claro. Eu era frágil, um adolescente, e isso abriu uma possibilidade maior de lesões. E não existia muita escolha, se não topasse entraria outro no lugar. E o Atlético também não teve aquele zelo, um cuidado ao me preparar para os profissionais. Fui jogado para as feras e ali tive que me virar. E outra coisa, não tinha essa consciência de categorias de base, que o guri era fraco fisicamente, essas coisas. Só deu certo com o Pelé, que mesmo com 16 anos, já era bem forte. Só o Zico que teve um trabalho físico mais intenso, que se refletiu na carreira dele até o fim. Eu acabei virando cobaia nisso tudo.

VB: Este período maior no time titular, sem ter que sair e ir para o departamento médico foi primordial para que você passasse a ser reconhecido nacionalmente?

R: Sim. Tudo começou quando disputei a Copa América de 1975, numa Seleção Brasileira quase toda formada com jogadores de Minas Gerais. Em 1976, entrei arrebentando, marcando gols em todos os jogos, só que dei um azar num jogo contra o Atlético-PR, onde torci o joelho. Era artilheiro do Brasileirão, e tive que sair para fazer cirurgia.

Porém, a projeção também era tímida. Os jogos até poderiam passar na televisão, mas mesmo me destacando contra Santos, Flamengo, Corinthians, e tudo mais, o destaque os jornais tipo O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Estadão era um espaço bem pequeno. Entrei em 1977 voando, marcando gols, jogando todas as partidas no Campeonato Mineiro e no Brasileirão, mas me tiraram da final do nacional de 1977.

VB: Com tantas lesões que você sofria o que te motivava a querer retornar e dar a volta por cima?

R: Quando ocorre a lesão isso te chama muito para a obrigação de se recuperar. Eu, por exemplo, pegava algodão, enrolava em volta da perna, realizava o mesmo procedimento com a faixa. Isso se chama compressão, e eu ficava assim o dia inteiro e tomando 200mg de corticoide, além da radioterapia. Não fazia treinos como cair em cima da perna, agachamento, corrida... Era um trabalho mais técnico, finalizações. Apesar de o joelho ser traiçoeiro, a dedicação era para poder voltar bem.

Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil
Foto: Isabelly Morais / VAVEL Brasil

VB: O Brasileirão de 1977 acabou em março de 78. O que aconteceu que em três meses, de março a junho, quando começou a Copa do Mundo, para você ter caído tanto fisicamente. Sendo que, um ano antes, você estava no melhor de sua forma?

R: No Atlético, o meu tratamento era bem controlado para que não sentisse dor ou lesão. A medicação era definida, tomava tranquilo Na Seleção Brasileira era diferente. Tinha que treinar fisicamente como todos, não tomava a medicação correta, e aí o joelho começou a responder e fiquei camuflando minhas lesões. Eu enfaixava meu joelho e treinava só de calça comprida, para não mostrar o que tinha na perna. Só que o Coutinho [Cláudio, técnico da Seleção Brasileira] percebeu isso. Só que ao invés de me cortar, ele me bancou e até importou um aparelho chamado Nautillus para minha recuperação. Eu não tomava minha medicação e não falava nada para o Dr. Lídio Toledo [médico da Seleção Brasileira]. Na Copa, os gramados argentinos eram pesados, encharcados, aí eu perdi completamente a força.

VB: Depois da Copa do Mundo na Argentina, você foi para Nova York e fez uma nova cirurgia no hospital Lenox Hill. Este procedimento melhorou sua condição ou pouco contribuiu para o futuro da sua carreira?

R: Meu joelho tinha muito corpo livre com tantas infiltrações no joelho que eu passei e isto causou grandes prejuízos e inflamações ao meu organismo. Então, minha ida aos Estados Unidos serviu para tratar as inflamações. Só que quando abriram o meu joelho, viram que eu também tinha um ligamento lateral rompido. Então, eles descolaram o quadríceps e repostaram no local fazendo papel do ligamento. Fiquei com a perna dura e passei nove meses indo todos os dias em uma banheira térmica para ganhar flexão. Mesmo assim, não consegui mais que 60%. Acabei jogando mais seis anos com mobilidade limitada na perna.

VB: O Atlético passou por três momentos que gerou grande tristeza e indignação para o torcedor. O Brasileiro de 77 perdendo nos pênaltis e você não jogou essa decisão. Em 80, expulso contra o Flamengo sem ter recebido sequer um cartão amarelo, e no ano seguinte, também contra o rubro-negro, pela Libertadores, nova expulsão direta e sem advertência. Você acredita que nestes episódios existiam forças externas contra você?

R: É, em 80 e 81, os jogos contra o Flamengo foram decididos pela arbitragem que se mostrou tendenciosa. Pela Libertadores, o José Roberto Wright mostrou ali que quem iria seguir na competição era o rubro-negro. Claro que podem ter havido forças externas. O futebol não é para bobos e a gente sabe que existe isso. Eu venho sofrendo com influências políticas desde 1978 quando dei a entrevista para o Jornal Movimento. Comecei a sofrer um desgaste, uma perseguição, um policiamento muito forte. Na época da ditadura, as forças reacionárias eram poderosas, e eu não tinha partido, não tinha aliança, não tinha nada fui sofrendo provocações que atingiram minha vida profissional, pessoal.

Em 1977, fui tirado da decisão contra o São Paulo numa retaliação direta contra mim. Inventaram mentiras me atacando, e se eu marquei gols em todos os jogos, certamente na final eu ia marcar. Na Copa do Mundo de 1978 foi a mesma coisa também, a direção era militar desde o presidente até o técnico. Me pediram para não comemorar com o punho erguido, que eu tinha jogar futebol e não preocupar com política. Então, fui vice-campeão brasileiro invicto, terceiro colocado do Mundial sem perder nenhuma partida. Como que fazem essa mágica? No autoritarismo tudo é possível. Depois da abertura política era mais tranquilo, mas naquela época, era chamado de comunista, dedo-duro. A imprensa direitista também começava a reagir, criar desgaste pessoal, profissional, que visavam desconstruir lideranças. Então, eu era sozinho, não tinha como brigar. Não participava de movimento nenhum, eu era jogador de futebol.

VB: Em 1982, você quase foi para o Paris Saint-Germain-FRA. Estava tudo acertado com os franceses, mas acabou não fechando a negociação. Por quê? O Atlético não liberou por causa de dinheiro? Foi vaidade da presidência?

R: Depois do Torneio de Paris, onde o Atlético foi campeão, eu fiz um golaço contra o PSG, era capitão do time, a delegação foi para Rimini, na Itália. A direção do Paris Saint-Germain foi para lá e fechar comigo. Isso foi numa quinta-feira, na sexta fechavam as inscrições para disputa do Campeonato Francês. Ligamos para o Elias Kalil e ele não quis me vender. Acabei perdendo um milhão de dólares na transação.

VB: Em 1985, você deixou o Atlético, te emprestaram para o Palmeiras e depois para o Rio Negro-AM. Tudo isso te deixou muito descontente com o futebol na época?

R: A verdade é que eu queria que me liberassem na época. Acabei emprestado para o Palmeiras, depois disseram que eu tinha que começar um trabalho no Rio Negro-AM, mas eu já não queria mais continuar, porque o joelho não respondia mais, estava fraco, e eu já estava me preparando para encerrar minha carreira como jogador. E aí surgiu o Cruzeiro. Eu já tinha parado de jogar e os dirigentes do Cruzeiro foram me procurar, mas falei que encerrei, mesmo assim insistiram e acabei assinando por três meses, mas só fiz dois jogos e saí do Cruzeiro sem jogar e sem receber.

VB: Como foi sua passagem pela Europa jogando pelo BK Hacken-SUE e Telstar-HOL?

R: Eu tinha um contato em Gotemburgo-SUE e já havia falado com Cruyff que iria até Amsterdã-HOL para acompanha-lo nos treinos do Ajax-HOL. Antes disso, eu estava no Rio de Janeiro, eu tinha uma namorada lá, e depois fui de navio até a Gênova, onde me encontrei com Toninho Cerezo, que jogava na Sampdoria-ITA. Depois fui até a Suécia onde fiquei acompanhando os treinamentos do FK Gotemborg-SUE, mas tudo era muito simples, bem amador. Só que estava fazendo frio demais e não aguentei ficar lá.  Depois me dirigi ao BK Hacken, joguei alguns amistosos, e fui embora para Amsterdã.

Encontrei com o Cruyff em Amsterdã, acompanhei os treinamentos do Ajax, vi o Rijkaard, Koeman, Van Basten, todos com 18, 19 anos. O Ajax tem um time sub-23 chamado Telstar e que disputava a Segunda Divisão. Era verão, me chamaram para jogar, me deram carro e casa. Fiz uns jogos, gols, mas depois que começou o frio de novo, aí eu parei mesmo. E também tinha me casado com uma holandesa e aí morei dois anos por lá.

VB: Como começou sua militância política, seus posicionamentos sobre o assunto?

R: Começou no meio da década de 1970 junto com os movimentos do país, com jornalistas, artistas, operários, e a gente observa o povo oprimido pela ditadura militar. A gente era chamado de comunista, falava pouco, porque existia o medo da repressão. E com o Geisel [Ernesto, presidente da república] uma abertura lenta e gradual. E eu morava no bairro São Pedro e era vizinho do Frei Betto, tinha contato com o irmão, o pai dele, que era desembargador aposentado, Dr. Antônio Carlos Christo. Ele escrevia no Estado de Minas.

Foto: Delfin Vieira/AJB Rio
Comemoração de "punho cerrado" era uma forma de protesto (Foto: Delfin Vieira/AJB Rio)

Nós tínhamos aquele anseio por mudanças sociais no país e aquela utopia, a semente da revolução, por solidariedade e socialismo. E não tinha reunião, essas coisas. Havia identificações, e assim começamos a apoiar os movimentos culturais, artísticos, até porque, se a gente ficasse se reunindo e planejando tirar o general, a ditadura ia descer a pancada na gente. O gesto do punho erguido nós falávamos que era para lembrar os Panteras Negras [os medalhistas olímpicos Jon Carlos e Tommie Smith, ambos dos EUA, ergueram o braço e fecharam os punhos simbolizando a luta dos negros norte-americanos]. E fazíamos isso para tentar driblar os militares, mas foi por pouco tempo. Passamos a ser acompanhado mais de perto, eu tenho ficha no SNI [Serviço Nacional de Informações] e depois da entrevista no Jornal Movimento ficou mais incisivo, mas eu fiz isso para mostrar que o jogador de futebol não era alienado e tinha opinião sobre outros assuntos. 

VB: Reinaldo, você sempre foi um defensor do trabalho de base nos clubes de futebol. Para você, houve uma melhora neste quesito?

R: A categoria de base no Brasil forma atleta. Não forma jogador de futebol, tanto nas orientações como na parte prática. Não sou contra o treinador acadêmico. Acho que precisa haver um estudo dentro do futebol, mas o que se vê hoje é garoto que não sabe chutar uma bola, passa de forma errada. Como que você analisa um jogador sem saber se ele tem um bom arremate? Então, a base é o desenvolvimento técnico. A parte física é importante, mas ela vem junto com o crescimento. Hoje, se eu viesse fazer teste no Atlético como fiz há 45 anos, eu seria reprovado por causa do físico.

Então há uma preocupação gigante em formar um atleta completo, mas tudo movido pela parte física, um enlatado, um manufaturado. A avaliação técnica é zero. Os caras são cegos. Eu vi uma entrevista de um jogador do Galo dizendo: 'Vocês tem que me respeitar, eu tenho dez anos de Atlético'. O cara ficou lá esse tempo todo e ninguém viu que ele não joga nada. Não existe um critério técnico. O jogador que é bonzinho, aplicado, politicamente correto, ele vira jogador. 

VB: Por fim, qual o ensinamento maior que você leva da vida?

R: Só tenho que agradecer a vida pelos caminhos que ela me deu. E quando se chega aos 60 anos, como é meu caso, você enxerga as coisas muito melhor e com maior clareza.

Foto: Isabelly Morais/VAVEL Brasil
Foto: Isabelly Morais/VAVEL Brasil

Reinaldo, o Rei, de todos da equipe VAVEL Brasil, só nos resta agradecer por tudo e parabenizá-lo por mais um ano de vida. 

Vida longa ao Rei! Parabéns!  

VAVEL Logo