Botafogo e Flamengo: um clássico que começou fora do campo
Vitor Silva/SS Press/Botafogo

Inflamados por uma recente e, por muitas vezes, desnecessária onda de ódio e interesse de sair sempre por cima das diversas situações, a rivalidade entre Botafogo e Flamengo aumentou consideravelmente nos últimos anos muito por conta dos cartolas das respectivas equipes e de suas atitudes para com os clubes rivais.

Atualmente, as duas equipes fazem o clássico mais quente do estado do Rio de Janeiro. O bom momento vivido dentro de campo por ambas ajuda para isso, mas não é o principal nessa relação. Desde 2016, Carlos Eduardo Pereira, presidente do Botafogo, tem atitudes repudiáveis contra o clube da Gávea.  Eduardo Bandeira de Mello, representante político do Flamengo, segue a mesma linha e parece que entrou nessa disputa sem sentido por tentar se aproveitar de quaisquer situações.

O caso Willian Arão

O Botafogo fora rebaixado em 2014 e, com baixo orçamento e com uma terrível situação, montou um time praticamente novo para a disputa da Série B no ano seguinte. Como esperado, a equipe contava com muitos rostos que não deram certos em outras equipes, mas que eram acessíveis financeiramente, assim como jogadores experientes, que se destacaram em anos anteriores no futebol brasileiro.

Willian Arão se encaixava na primeira descrição. Tendo feito um ano razoavelmente bom pelo Atlético-GO em 2014, o jogador não renovou contrato com o Corinthians – clube em que teve suas primeiras oportunidades como profissional – e assinaria com o Botafogo. Assim como a maior parte daquela equipe, Arão era uma aposta da diretoria, já que assinou de graça com a equipe de General Severiano.

Willian Arão recebendo uma camisa das mãos de EBM por ter completado 100 jogos com a camisa do Flamengo (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)
Willian Arão recebendo uma camisa das mãos de EBM por ter completado 100 jogos com a camisa do Flamengo (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

No Alvinegro, conseguiria desenvolver as suas atuações com Renê Simões e se tornaria, em pouco tempo, o principal jogador de linha da equipe. Participando bem mais do jogo, Arão chegava mais à frente, conseguia trocar passes com qualidade e mostrava ser um bom marcador. Mesmo jogando no segundo escalão do futebol brasileiro, o volante ganhou notoriedade e foi eleito o melhor jogador da Série B daquele ano.

Com esse destaque, a diretoria do Botafogo procurou o jogador para ativar uma cláusula de seu contrato, que previa uma renovação automática de um ano caso o pagamento de R$ 400 mil. O Alvinegro depositou essa quantia duas vezes, mas em todas viu o dinheiro ser devolvido pelo jogador, que não queria permanecer no clube – indo contra à cláusula previamente acordada.

Em dezembro, ele assinou com o Flamengo e o Botafogo não ganhou nenhuma quantia sobre isso. Reclamando sobre seus direitos por conta desse contrato, Carlos Eduardo Pereira e a diretoria foram à justiça contra o atleta. Arão, porém, venceu a disputa judicial por conta de uma regra da FIFA, imposta em março de 2015, que proibia investidores em direitos econômicos de jogadores.

Depois dessa resposta negativa, a equipe de General Severiano tentou ir à justiça contra o jogador mais duas vezes, mas sem sucesso. Desde então, a diretoria do Botafogo acusa a do Flamengo de ter aliciado o jogador e não ter recebido nada por essa transferência e bloqueou qualquer tipo de conversa de outros assuntos com o Rubro-negro, começando esse ciclo de uma rivalidade intensa.

Arena da Ilha do Governador e a polêmica dos aluguéis

Sem poder utilizar o Estádio Nilton Santos por conta das Olimpíadas, o Botafogo achou uma outra solução no ano passado: o Estádio Luso-Brasileiro, que ficou intitulado como Arena Botafogo. A química foi perfeita: a torcida abraçou a equipe, os jogadores gostavam do clima do estádio e os resultados foram imediatos e positivos. Foi por lá que a equipe de Jair Ventura confirmou a ascensão no campeonato que o levaria para a Pré-Libertadores.

Para 2017, o Botafogo não ia precisar mais dos serviços do estádio na Ilha do Governador já que teria o Nilton Santos de volta. O Flamengo, por sua vez, precisava achar uma opção ao consórcio Maracanã, que não facilitava as coisas para o Rubro-Negro, e firmou um contrato com a Portuguesa-RJ já em 2016 para ter a arena pelos próximos três anos.

Com um estádio praticamente pronto, já que era utilizado pelo Alvinegro, o Botafogo propôs ao Flamengo que não precisaria retirar as arquibancadas caso a equipe da Gávea herdasse o aluguel das mesmas (cerca de R$ 370 mil), ficando com outras partes também, como as rampas. O Rubro-negro, por sua vez, recusou e inflamou mais ainda essa rivalidade, já que toda a estrutura do estádio teve que ser removida e reconstruída em 2017, para o uso da equipe da Gávea.

Dessa maneira, os clubes deixaram de facilitar a vida deles mesmo, já que não havia necessidade da arquibancada ser removida de uma forma completa, e sim melhorada. Prevaleceu o ego de não querer ajudar o trabalho de uma equipe rival e o Botafogo desmontara, em poucos dias, toda a estrutura que havia feito parte do estádio em 2016.

Copa do Brasil 2017: dificultar a venda de ingressos para o rival é comum

Com a confirmação da partida semifinal entre as duas equipes, não havia como fugir desse assunto: nem Carlos Eduardo Pereira, nem Eduardo Bandeira de Mello conseguiam escapar das perguntas relacionadas ao clássico e a toda polêmica que envolvia Flamengo e Botafogo em tempos recentes.

De primeira, o presidente do Botafogo se recusou, mesmo com tentativas da CBF, a colocar o jogo com o seu mando no Maracanã.  Carlos Eduardo foi irredutível e, em entrevista coletiva, afirmou que “O estádio do Botafogo é o Nilton Santos.” – indo contra a todos que, de qualquer jeito, queriam levar a partida ao estádio mais famoso do Rio de Janeiro.

Por sua vez, o Flamengo havia confirmado, de primeira, a partida com o seu mando de campo na Ilha do Urubu. Como uma forma de resistência ao Alvinegro e contra os preços absurdos impostos pelas pessoas que dirigem o Maracanã, o Rubro-Negro se viu sem saída, por conta da reprovação de sua torcida e por fazer o segundo jogo “em casa”, e semanas depois mudou de ideia, colocando a partida para o palco da final das Olimpíadas de 2016.

Quando tudo parecia estar resolvido, o Botafogo, indo contra uma regra do estatuto do torcedor, liberou as vendas para a torcida adversária no primeiro confronto apenas 48 horas antes da partida, dificultando, e muito, a compra desses ingressos para as pessoas que tinham o interesse de ir ao jogo.

Apesar da culpa não ser inteiramente do Alvinegro, porque a Federação do Rio de Janeiro demorou a marcar chegar num consenso com as equipes, já que o Flamengo exigia que o Botafogo comprasse todos os ingressos do jogo no Maracanã, e o Alvinegro não concordava com isso, por conta dos elevados valores dos ingressos.

Para o jogo da volta, que será realizado nessa quarta-feira (23), o Flamengo “deu o troco” no rival. Disponibilizando apenas um ponto de venda, – assim como o Botafogo fizera – a equipe da Gávea colocou apenas um guichê em General Severiano, fazendo com que as filas sejam astronômicas e muitos torcedores desistissem de comprar o ingresso por conta da demora. Até segunda-feira (21), apenas 852 ingressos voltados à torcida alvinegra haviam sido vendidos.

O clássico começou bem antes da última quarta-feira (16). Um jogo do tamanho de uma semifinal de Copa do Brasil serviu para ser o estopim de todos esses eventos que vem acontecendo desde 2015 e algo para aumentar ainda mais essa rivalidade, que, com certeza, vem se tornando uma das mais quentes do país nos últimos anos. 

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