Fazendo função inédita dentro do Sport, analista de mercado detalha trabalho no clube

Fazendo função inédita dentro do Sport, analista de mercado detalha trabalho no clube

Aos 32 anos, Thiago Paz oferece suporte para diretoria de futebol achar opções no mercado e ajuda na montagem de elencos da base

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Wesley Silvali

Visando qualificar o olhar as oportunidades e alcançar resultados com recursos limitados, o Sport resolveu dar o pontapé inicial a uma função nunca vista dentro do clube: a de ter um analista de mercado. Além de impulsionar maior visão ao mercado, a ideia também faz parte da intenção em rejuvenescer o quadro que trabalha com o futebol leonino. Com apenas 32 anos, Thiago Paz foi convidado pelos cartolas rubro-negros a fazer parte do grupo que cuida do processo que gere as partes de campo, como a formação de elenco.

É válido mencionar que o jovem analista não é nem diretor de futebol e nem analista de desempenho. Mas sim uma espécie de ponte que agrega ambas as áreas. Oferecendo suporte ao que é feito no futebol do clube, e trabalhando constantemente em relatórios em tempo real do que se passa fora: como as oportunidades que surgem no mercado. Dentro desse contexto, Thiago Paz faz uma filtragem minuciosa e trabalha repassando os detalhes de tudo que consegue coletar ao grupo de diretores, que consequentemente, repassam á comissão técnica principal.

Bem elogiado internamente, o ainda curto trabalho ganhou ainda mais ampliação e responsabilidade com o convite de fazer a mesma coisa, mas também na base. Com montagem ativa nos times "de baixo" em todas as categorias do Sport, o analista de mercado começou a agregar mapeamento de atletas mais jovens. Sendo participativo de modo praticamente diário na montagem, sobretudo, da equipe de aspirantes - que passará por mudanças em relação ao ano passado.

Detalhando de forma temporal o ingresso na função, ideias em relação ao futebol atual no país, futuro no Leão, e citando aspectos do que já foi feito e está em curso, Thiago Paz conversou com a VAVEL Brasil e destrinchou algumas vertentes de seu período na Ilha.

Convite para o cargo

Por ser uma nomenclatura nova principalmente no Nordeste, eu não imaginava ser convidado para essa tarefa no Sport. Tudo começou quando o Presidente Milton Bivar assumiu o clube. Apesar de tê-lo apoiado, não havia tido nenhuma conversa nesse sentido, até o diretor de futebol Julio Neto entrar em contato comigo. Ele me ligou, falou que havia recebido boas referências e perguntou se eu tinha o interesse de ajudar o Sport. Acenei positivamente e marcamos um almoço com Klauss Câmara (hoje diretor executivo do Grêmio). O Klauus me entrevistou, comprou a ideia e me sugeriu para os outros diretores. O recebimento foi muito bom e pude dar início á função.

Explicação sobre a função

Muita gente confunde com a análise de desempenho, mas é diferente. Análise de mercado exige uma atenção muito grande ao que se passa, as transações, os valores. Entender a relação do perfil do clube com os perfis dos atletas. Tentar fazer esse mapeamento encaixado também ao momento financeiro. Hoje, o meu suporte no profissional foi em cima de Scouts e dos nomes que a diretoria de futebol estava analisando. Dentro desse cenário, claro que eu também fiz minha lista de indicações e agrupei. Á partir do filtro, a diretoria que toma a decisão final.

Tecnologia no filtro

Só nesse começo de ano, acho que chegamos a analisar cerca de 200 jogadores para o profissional. Uso ferramentas boas que o clube dispõe, como o Wyscout. Consigo assistir todos os jogos que desejo, jogadores específicos, clubes. Essas tecnologias contribuem bastante para diminuir a margem de erro.

Sammir 

Eu imaginei que o primeiro nome que me perguntariam sobre captação, oportunidade de mercado, seria o de Sammir. Para quem acompanha futebol não é um nome desconhecido. Toda a direção já o conhecia, a única coisa que eu fiz foi a análise em cima do nome. As condições, as razões de estar parado. Tecnicamente não tem muito o que falar sobre. É acima da média. Foi uma ótima oportunidade e dentro do que conversamos, a diretoria resolveu ir atrás e conseguiu. 

Trabalho na montagem dos times de base

Estamos fazendo um trabalho muito legal junto com a direção. O Augusto Moreira (diretor da base) viu minha ajuda ao profissional e me pediu apoio na base também. Estamos montando um sub-23 bem interessante, que a torcida vai gostar de assistir jogar. Trouxemos jogadores que podem ter projeção no profissional. A situação financeira do clube já sabemos qual é. Até por isso, foi importante ser criativo e trazer jogadores que o Guto possa olhar já esse ano e ver condições de usar na Serie B, que exige elenco.

Não sei se foi divulgado, mas o sub-20 terá um campeonato com 19 datas certas. Até o ano passado eram só quatro. Estamos fazendo um trabalho e já pontuamos algumas peças que está treinando conosco, o Júnior Câmara e a diretoria da base.  

Grupo de apoio

Nesse momento do clube, muitas pessoas engajadas fazem parte do processo de apoio. Na base, cada categoria tem um responsável direto pela captação. Sub-13, sub-15, sub-17, sub-20, cada um com uma pessoa á frente, alinhado comigo e com alguns observadores, que percorrem o país inteiro. Caso do João Maradona, que é até conhecido na mídia local.

Relação com as comissões técnicas

Ainda não tive oportunidade de conversar diretamente com Guto Ferreira. A chegada dele, junto aos jogos, foi bastante corrido. Tivemos um contato na reunião que fizemos. Como ele foi coordenador de base bem sucedido no Inter, com revelações como Lúcio, Luiz Adriano, Alexandre Pato, ele fez uma reunião com o pessoal e compartilhou conhecimentos. Já com o Júnior Câmara, o contato é quase diário. O Sub-23 estava praticamente zerado e tivemos que montá-lo quase todo. Como temos um fluxo grande do sub-20 aos aspirantes, estamos constantemente conversando, trazendo jogadores e fazendo avaliações. 

Campeonato Paulista

Rede social é engraçado. Começam os Estaduais, começam as indicações. Eu costumo dizer que se três pessoas estão observando um jogo e notarem um jogador do Campeonato Paulista, dificilmente o Sport vai conseguir trazer. Porque dessas três, uma pelo menos é da Serie A e trabalha com orçamento maior. É preciso olhar o que outros não conseguem observar, mas que possuem condição de jogar no Sport. Hoje o maior destaque do Paulistão é o Jobson, do Red Bull.

Na época que ele estava no Náutico, comentei com amigos da diretoria do Sport para o trazerem para o sub-23. Mas não acreditaram no potencial do jogador. Hoje todo mundo quer o Jobson. Paulistão teve 48 jogos na primeira fase, eu vi 42. É uma das partes boas de ter uma ferramenta tecnológica de resgate de partidas. Um time que me chamou bastante atenção e considero o melhor do interior de São Paulo é a Ferroviária. Identifiquei alguns jogadores interessantes lá, alguns que já estão na boca da galera, e outros nem tanto.

Avaliação pessoal e demais Estaduais

Na minha filosofia comecei a respeitar alguns padrões. Vejo pelo menos um jogo por dia, obrigatoriamente. E só indico jogadores que eu tenha visto no mínimo três partidas dele. Tento avaliar, além de tudo, o perfil psicológico. Não adianta ser bom no interior paulista, por exemplo, e não mostrar condição mental de vestir uma camisa de pressão feito a do Sport.

Entre os perfis que mais vejo, são os que se destacam em velocidade, tomada de decisão, antecipação. Gosto de zagueiros técnicos. O futebol brasileiro joga atrás da linha da bola e com duas linhas de quatro. 90% dos times da Serie B se fecham atrás e deixam os defensores jogarem. Se você tiver um zagueiro que sabe sair jogando, ajudará muito na construção. Um grande exemplo é o Ligger, também do Red Bull. No nível de uma Segunda Divisão, para mim é o melhor jogador do país para iniciar jogadas.

Vi também o Campeonato Carioca, o Mineiro, e principalmente o Gaúcho, que historicamente oferece jogadores que se dão bem no Sport. Em cima disso, fiz alguns relatórios e mandei para a direção nomes que podem ajudar na Serie B. O importante quando aparece o aval para um determinado atleta, é verificar o histórico e dar uma olhada em partidas por clubes anteriores.

Estrangeiros no Sport: Sim ou Não?

É um tema que sempre gerou discussão por aqui. Mas quando eu vou analisar jogador eu não me preocupo com nacionalidade. O que vejo de dificuldade em estrangeiros é o psicológico. Tecnicamente, o custo-benefício deles de fato são bem favoráveis, analisando qualidade e preço. Tanto que, nas minhas listas geralmente tem jogadores de fora. Indiquei zagueiros, volantes, meias e atacantes sul-americanos. Mas a demora para adaptação naturalmente acaba acontecendo.

Futebol brasileiro sempre quer resultado imediato e não costuma fazer um planejamento para esses jogadores. O "resultado para ontem" deixa o pessoal com medo de arriscar um pouco mais. Se formos ver exemplos, quem vinga, geralmente vinga depois de três meses a um ano. Só os extra-classes que chegam e decidem rápido, como foi Tevez, alguns anos atrás. Nem sempre os clubes estão preparados para esperar. Mapeei cerca de 50 estrangeiros, mas entendo o momento do clube - que fica receoso de apostar. Se ele não se adapta, é um investimento que você perde e não volta. 

Considero a Venezuela um país com alguns jogadores interessantes e até indiquei um nome de lá. Mas como analista de mercado, eu não posso pôr na mesa um venezuelano de 18, 19, 20 anos para chegar no Sport hoje e jogar no profissional só por "gostar". É necessário entender o momento do clube para direcionar os passos a serem dados. 

Visão do futebol brasileiro com o Europeu

Quem me conhece sabe da minha paixão pelo futebol europeu. Pessoal diz que conheço mais jogadores da Europa do que brasileiros. Mas, realmente, teve uma época que eu estive fissurado. A verdade é que estamos bem abaixo do que é feito lá. Taticamente, sobretudo. Tecnicamente, continuamos muito bem, tanto que os principais jogadores ainda são os nossos. Mas acho que além da parte tática, a cultural também dita muito a regra da nossa inferioridade de hoje. 

Dizer que eles não olham resultado é uma mentira. Eles olham, também atuam em cima disso. Mas a grande questão está por trás do que acontece em campo. O diretor europeu consegue passar por turbulência por saber ler o trabalho, identificar treinos, e sabe segurar o que é feito com argumentos que convencem imprensa e torcida. 

Trabalho para seguir no futebol e no Sport

Antes de aceitar essa função eu dei uma pesquisada, conheci pessoas. Tive conversas, em especial com o Jonatan Androwink, que é analista de mercado no Athletico Paranaense. Ninguém é especificamente da área. Não existe formação para analista de mercado. Mas isso não significa que você não consiga estudar. De forma diária eu estudo e enxergo formas dessa área do modo que as coisas são feitas na própria Europa, por exemplo.

Estudo análise de desempenho, estudo gestão no futebol, tenho os cursos respectivos. Ano passado a Universidade do Futebol fez concursos com descontos em redações sobre análises de futebol e consegui ter destaque. Tenho total interesse de continuar trabalhando com futebol, mas sei que é uma área dinâmica, você tem que ter preparo para o que pode vir. Estou curtindo, vivendo a função, gostando. O que resta para agora é se preparar ainda mais.

Como rubro-negro, começar no Sport foi maravilhoso. Por mim faço carreira no clube. Mas tudo é no tempo certo. Eu já tentava me qualificar bem antes de ter essa oportunidade, e no momento só intensifiquei as coisas. É uma forma, também, de agradecer a confiança do Presidente Milton Bivar e do pessoal da diretoria de futebol.

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