Crônica do CSA - Parte I: a crítica
Foto: Augusto Oliveira/RCortez/CSA

Ausente da primeira divisão do futebol brasileiro desde 1987, o estado de Alagoas voltou a estar no topo do principal esporte do país em 2019. Assim como na década de 80, o CSA recolocou o Estádio Rei Pelé na rota dos grandes e poderosos clubes do Brasil, além da possibilidade de entrar em palcos esportivos nacional e internacionalmente. Infelizmente, só foi neste ano. O time alagoano teve uma campanha ruim e foi rebaixado na penúltima rodada. A campanha tem números muito ruins, com um dos piores ataques, uma das defesas mais vazadas, entre outros quesitos detalhadamente explicados por estatísticos. O que deu errado? Planejamento.

Essa palavra tão importante não foi bem aplicada no lado azul do poderio alagoano. Nada foi modificado na direção e na comissão técnica em relação ao grupo que conquistou o vice-campeonato da Série B pela quarta vez (1980-1982-1983-2018). O técnico Marcelo Cabo e toda a comissão técnica foi mantida. Em compensação, poucos do elenco permaneceram. O time foi completamente reformulado e a qualidade caiu drasticamente. A estratégia para o ano de 2019 foi montar duas equipes: uma que testasse vários jogadores, com o contrato renovado para a temporada toda para os que se destacassem e tivessem melhor aproveitamento; outra para a disputa do Brasileirão. Foi um desastre.

A ideia foi ruim porque muitos jogadores eram desconhecidos, com passagens em clubes menos expressivos, não jogavam há meses e pertencentes a categorias de base dos mais tradicionais cariocas – principalmente Botafogo e Fluminense – foram contratados. Muitos nomes do Rio de Janeiro oriundos de clubes como Friburguense, Madureira, Olaria e Resende foram contratados. Lohan, Mauro Silva, Lucca Mota, Ramon Siqueira, são alguns dos exemplos. A cobrança por melhores atuações logo chegou, o time foi derrotado na estreia do Campeonato Alagoano e o desempenho abaixo da média na Copa do Nordeste aumentaram a pressão. Outro detalhe que sempre tem total interferência no andamento da temporada é o Clássico das Multidões contra o CRB. Se o time ganha, é maravilhoso e tudo é exaltado. Se o time perde, tudo é um horror. Isso na visão da massa.

Para dar uma resposta que diminuísse a insatisfação do torcedor, nomes mais conhecidos e experientes foram contratados: Pablo Armero, Apodi, Bruno Ramires, Carlinhos, Cassiano, Ronaldo Alves, entre outros. Ainda assim, o time não rendia. De um lado, jovens que tinham pela primeira vez a experiência de jogar em uma equipe com torcida presente e muito exigente. Do outro, atletas que estavam em condicionamento físico abaixo e precisariam de tempo para entrar no mesmo ritmo de jogo, com a possibilidade de não conseguir devido à idade elevada. Como resultado, muito incentivo, aparições pouco convincentes, mas o bicampeonato alagoano foi conquistado após muito sofrimento. O CSA venceu o primeiro jogo diante do CRB por 1 a 0, o Galo devolveu o placar no segundo confronto, quando teve domínio amplo de todo o jogo, mas os pênaltis garantiram o 39º título estadual.

A conquista do Alagoano caiu do céu para Marcelo Cabo. Cada vez mais criticado por torcedores e imprensa, o troféu evitou sua demissão. Embora a diretoria manifestasse total confiança em seu trabalho, um simples quadrimestre foi suficiente para perder todo o crédito pelo feito histórico ocorrido no ano anterior. Com isso, veio a montagem do elenco para o Brasileirão e mais contratações. Inicialmente com a aposta em jovens, o foco logo mudou e foi ao lado oposto, com jogadores experientes, que tinham passagens por Série A e eram conhecedores do certame, além de alguns estrangeiros. Mais uma vez, sem tempo para entrosamento.

A estreia foi um pesadelo com a goleada sofrida diante do Ceará por 4 a 0. Porém, os três empates seguidos contra Palmeiras, Santos e Avaí deram um vislumbre menos dramático de que o clube poderia evoluir e provar que os conceitos de time fraco e com grandes possibilidades de fazer a pior campanha da história dos pontos corridos poderiam ser descartados. Mas não foi isso o que aconteceu. A primeira vitória veio apenas na sexta rodada, diante do Goiás, em um jogo sofrido. Em seguida, na pior sequência, derrotas, goleadas e a consolidação do time na zona de rebaixamento.

A pausa para a Copa América seria uma boa oportunidade de promover mudanças. Mas até nesse ponto a diretoria deu margens à crítica. Era visível, notório e evidente que o trabalho de Marcelo Cabo não tinha mais progressão. Pelo contrário, o ciclo só iria piorar e desgastar o que não prestava no momento. Porém, com praticamente um mês de preparação, a cúpula do futebol resolveu demitir Marcelo Cabo após duas semanas de trabalho e por causa de uma derrota em amistoso contra o Sport. Argel Fucks foi o contratado. E, como esperar de todo o treinador, mais indicações para reforços e novas contratações.

O início de seu trabalho foi um desastre. Sem tempo para conhecer o elenco, testou formações muito ofensivas para um time completamente vulnerável e com a defesa muito exposta. Como resultado, goleadas, xingamentos e nada de melhora. Até que a sequência de jogos abrandou e os adversários passaram a ser clubes que estavam no mesmo grupo, na luta para manter distância da zona de rebaixamento. A situação melhorou, os resultados positivos começaram a aparecer, o Azulão do Mutange conseguiu vencer fora de casa apenas na 14ª rodada e, na virada do turno, conseguiu sair da zona de rebaixamento. Apesar de goleadas e derrotas fora de casa, a sequência de sete rodadas sem perder no Trapichão voltou a motivar os torcedores, uma vez que, como mandante, vieram importantes vitórias contra Avaí, Chapecoense, Ceará, Internacional e Corinthians, além de empates contra Cruzeiro e Atlético-MG.

Porém, as derrotas ficaram completamente entrelaçadas mais uma vez. Por mais que jogasse bem de acordo com as limitações do elenco, o lado mais forte fez a diferença. Por isso, em confrontos diretos ou até mesmo quando os concorrentes ajudavam por tropeços, o time era derrotado. Aconteceu dessa maneira contra Botafogo, Flamengo, Athletico Paranaense, Vasco da Gama, Fluminense e Bahia. Nessa situação, o rebaixamento era questão de tempo.

A vitória sobre o Cruzeiro foi muito importante, mas ficou em segundo plano. A equipe venceu apenas o segundo jogo fora de casa no Brasileiro, mas a trairagem de Argel Fucks em deixar o CSA a três rodadas do fim para comandar o Ceará, clube que ainda está na briga para não ser rebaixado foi o atestado de que, apesar da façanha e dos atrativos, 2019 não foi o ano do CSA.

Ficam as lições. Os erros precisam ser corrigidos. O profissionalismo deve acontecer o quanto antes no departamento de futebol, com análise de desempenho, scouts, monitoramento de atletas que possam vir a reforçar o elenco. Além disso, impedir a carta branca aos treinadores, que fazem suas escolhas ligadas a empresários e trazem atletas que nada acrescentam. A cúpula do futebol precisa fazer o planejamento para todo o ano, usar o Alagoano como entrosamento e adaptação do grupo ao estilo de jogo do futuro treinador para que o time chegue forte para a disputa da Copa do Nordeste e da Série B, ao mesmo tempo em que precisa buscar o tricampeonato estadual e avançar o máximo que puder na Copa do Brasil. Com as finanças em dia, com dívidas trabalhistas zeradas e o aporte financeiro necessário para uma boa campanha, é torcer para que 2020 seja um ano bem melhor e com mais contentamentos para a Nação Azulina.

Ah, para não perder o costume: cadê você?

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