Torcidas Organizadas: extinção não é solução; entenda
Arte: VAVEL Brasil

O juiz Augusto Sampaio Argelim, da 5ª Vara da Fazenda Pública da Comarca do Recife, decretou na tarde desta terça-feira a extinção das principais torcidas organizadas de Pernambuco: Torcida Jovem do Sport, Torcida Organizada Inferno Coral e Torcida Jovem Fanáutico.

A decisão atende a um pedido realizado pela Procuradoria Geral do Estado. A partir de agora, as três uniformizadas, que já estavam impedidas de frequentar estádios com faixas, bandeiras e instrumentos, não terão mais Cadastros Nacionais de Pessoa Jurídica (CNPJ).

Além disso, as contas bancárias que pertencem as facções serão encerradas, e elas não poderão exercer atividades comerciais. As organizadas podem recorrer da decisão em segunda instância.

Para jornalistas e populares, o anúncio do pedido de extinção das organizadas materializa o combate à violência nos estádios. Em contrapartida, o contexto histórico mostra que o fim das uniformizadas não é um caminho seguro, e as torcidas podem até aproveitar novos espaços a partir da decisão.

Batalha do Pacaembu

Em 1995, Palmeiras e São Paulo decidiam a Supercopa São Paulo de Juniores, no Pacaembu. Não houve cobrança de ingressos para a final. Após a conquista do título pelo Verdão, torcedores aproveitaram o baixo número de policiais e invadiram o gramado. Armados com pedras e pedaços de madeira por causa de uma obra realizada no tobagã, protagonizaram um dos momentos mais violentos do futebol brasileiro.

Foto: Acervo/Gazeta Press
Foto: Acervo/Gazeta Press

Cerca de 100 pessoas ficaram feridas e um torcedor morreu. A partir deste fato, o Ministério Público de São Paulo pediu o fim das organizadas Mancha Verde, do Palmeiras, e Independente, do São Paulo, envolvidas na confusão, e também da Gaviões da Fiel, do Corinthians. O pedido foi atendido pela justiça e as uniformizadas foram extintas.

Entretanto, pouco tempo depois, as três torcidas voltaram a frequentar os estádios com novos Cadastros Nacionais de Pessoa Jurídica e nomes familiares. A Mancha Verde se tornou Mancha "Alvi" Verde; a Independente, Torcida Tricolor Independente; e a Gaviões da Fiel voltou como Gaviões da Fiel Torcida.

Pancadaria em Joinville

Atlético-PR e Vasco se enfrentavam pela última rodada do Campeonato Brasileiro 2013, na Arena Joinville, quando canas de selvageria tomaram conta das arquibancadas e interromperam a partida ainda no primeiro tempo. Aproveitando-se da ausência de policiais no estádio, torcedores dos dois times protagonizaram uma verdadeira barbárie.

Arquivo/Heuler Andrey/AFP
Arquivo/Heuler Andrey/AFP

Foram quatro torcedores feridos, mas nenhum morto. A Torcida "Os Fanáticos", do Furacão, e a Força Jovem do Vasco, principais organizadas dos dois clubes, foram as responsáveis pelas cenas lamentáveis naquela tarde.

Depois do fato, apenas um torcedor do time carioca foi condenado. A torcida do Atlético-PR continua frequentando estádios sem restrições, enquanto a uniformizada vascaína foi extinta pela justiça carioca e não voltou a frequentar praças esportivas nacionais com materiais de identificação.

Extinções em outros estados

A justiça do Pará também pediu o fim das principais torcidas organizadas do estado, mas o que aconteceu em São Paulo serviu de espelho para as facções paraenses. A Terror Bicolor, do Paysandu, voltou aos estádios como Terror "Fiel" Bicolor, enquanto a Remoçada, do Remo, carregou o nome de Remista até 2014, quando voltou a ter suas atividades encerradas por pedido do Ministério Público.

Já em Alagoas, a situação foi diferente. A Comando Vermelho, do CRB, foi extinta pelo nome fazer alusão à facção criminosa do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, a torcida retornou aos jogos do Galo se chamando "Comando Alvirrubro".

O que esperar?

Enquanto o foco das punições continuarem sendo as uniformizadas, nada mudará. O cenário violento continuará o mesmo, e as organizadas ganharam um espaço para retornar de vez aos estádios pernambucanos. Com novos nomes, os mesmos componentes que protagonizam cenas lamentáveis estarão poluindo o ambiente maravilhoso que envolve uma partida de futebol.

As torcidas ainda não se pronunciaram sobre o pedido de extinção, mas devem se manifestar a partir do recebimento da notificação. Para nós, amantes do futebol e, principalmente, da paz, nos resta torcer para que as autoridades mudem o foco das punições através dos próximos capítulos dessa novela que está longe de ter um final.

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