#EntrevistaVAVEL: Analistas de desempenho, Rodrigo Coutinho e Higor Santos discutem profissão no esporte
Foto: Divulgação/Unisportbrasil

A análise de desempenho no futebol tem ganhado bastante destaque e novos olhares nos últimos anos no Brasil, pelo simples fato do futebol ter ficado moderno dentro de campo no esquema tático, embora isso já tenha acontecido há alguns anos fora do país, principalmente na Europa. O conhecimento sobre o respectivo meio esportivo está predominante desde os anos de 1990, servindo como uma ferramenta para aprimoramento nos clubes e como estudo técnico do time, adversário, do jogador individualmente e mercado da bola.

No Brasil, poucos clubes possuem analistas de desempenho em suas comissões técnicas, principalmente se o profissional foi encaminhado com a chegada do técnico ou se o próprio clube o contrata para ser fixo no plantel. Partindo deste princípio, a importância para este conhecimento ser implementado no futebol é imprescindível. O analista de desempenho e colunista da UOL Esporte, Rodrigo Coutinho, exemplifica o processo deste meio esportivo, a importância no cenário de clubes de alto e baixo rendimento, e como ele deve ser introduzido 

“Porque é uma forma mais precisa de avaliação daquilo que funciona ou não dentro de campo. A observação do desempenho torna-se muito mais profunda, e todos os profissionais da comissão técnica, os jogadores, os dirigentes, passam a ter mais ferramentas de trabalho. Embasamento para tomar decisões”.

No mesmo assunto, o analista de desempenho e um dos fundadores da Mundial Scouting, Higor Santos, relata a preferência de cada técnico com a forma que é planejada a análise dentro de campo, independente do caráter de estudo.

“Eu particularmente me enfoco na análise do adversário com vídeos e descrições dentro do informe ao treinador para maior compreensão dos pontos fortes e débeis do rival, no entanto, muitos técnicos também gostam que o analista identifique problemas no funcionamento do time e dê sugestões para melhorias. O caso é que cada treinador adota seu método. Uns dão mais peso ao departamento de análise e outros são mais fechados em suas próprias convicções. São nuances”.

Existem diversas instituições que oferecem cursos de profissionalização na Análise de Desempenho, tanto presencial quanto online, além de profissionais que também ensinam por meio de cursos divulgados por eles mesmos. A comercialização do produto tem ganhado um amplo destaque principalmente pelo interesse de jornalistas esportivos, profissionais da área do esporte e claro, do público que é amante do futebol. Segundo o analista Rodrigo Coutinho, não há motivo obrigatório para que a pessoa seja formada em alguma formação acadêmica, mas sim em algum curso de análise de desempenho que tenha a capacidade de transmitir seriamente o conhecimento.

“É necessário que ele tenha poder de observação, humildade, dedicação e detalhismo. Não vejo obrigatoriedade para um analista de desempenho ter um curso universitário. Vejo sim a necessidade de estudar tudo sobre a função em algum lugar sério e capacitado. Se aprofundar no futebol em cursos de treinador também é algo que agrega bastante. Sem contar a vivência interna dentro de um clube”.

No entanto, o analista Higor Santos retrata também a possibilidade de obter o conhecimento através da internet e também por livros, além de assistir aos jogos com bastante atenção a fim de identificar os padrões de cada jogador e equipe.

“Sendo sincero contigo: nunca fiz curso algum de análise de desempenho ou algo do tipo. Penso que talento não é questão de dom, e sim de esforço para alcançar seus objetivos independentemente das dificuldades durante o caminho. O que posso dizer aos que estão começando na análise de desempenho é que a melhor forma de se especializar é observar cada detalhe com atenção durante os 90 minutos e identificar padrões coletivos dentro do comportamento individual de cada jogador. Uma questão que todo analista deve dominar é a edição de vídeo, essencial na hora de transmitir a informação aos jogadores por intermédio do treinador. Não recomendo cursos da área em nenhuma circunstância, sobretudo no Brasil. Há muitos profissionais de qualidade questionável e estes cursos nem sempre agregam o suficiente para entender o jogo. Meu conhecimento foi baseado em leitura dos melhores e busca por referências em outras culturas, o que me permitiu aprender outro idioma que domino totalmente como o castelhano agora mesmo”.

“Nem todos os analistas estão preparados para auxiliar no campo também, pois isso requer conhecimento sobre treinamento e, voltando no assunto relacionado ao perfil, para se tornar um analista, inicialmente, a pessoa precisa saber analisar o jogo, mas isso não garante que ela saiba aplicar e reproduzir certos itens coletados nos treinamentos e jogos” (COTTA, 2018, p. 29). Seguindo o trecho do autor do livro “Análise de Desempenho no Futebol: Entre a teoria e a prática”, de Rafael Martins Cotta, é de extrema relevância levantar a questão referente ao tema sobre a capacidade que um analista tem para participar dos treinos a fim de ter conhecimento prático no futuro de sua profissão, ou de apenas seguir a teoria.

Por sua vez, o analista Rodrigo Coutinho ressalta a importância técnica que o analista precisa para ter este conhecimento a fim de reproduzir o treino da maneira que o técnico e auxiliar fazem com o time.

“Não. Ele pode auxiliar na montagem do treino. Mas isso é uma atribuição do treinador e dos auxiliares ou preparadores físicos. O analista de desempenho está ali para observar, documentar e facilitar o acesso a essas informações”.

Quanto ao conhecimento prático sobre o treino, o analista Higor Santos insinua a vontade que cada analista possui para a sua carreira profissional e como ele lidará com isso no futuro, dependendo do ambiente de trabalho e relacionamento com os profissionais da comissão técnica que acrescentam ou não ideias para o profissional da análise de desempenho.

“Depende muito da especialização do analista de desempenho. Muitas vezes um dos analistas acompanha os treinamentos para a gravação através de drones. Estando no dia-a-dia assistindo cada sessão e tudo mais, dependendo do treinador, se adquire muito conhecimento. Mas aí é uma questão de querer ir mais para o campo também. Fazer cursos profissionalizantes da área para ingressar como auxiliar técnico ou treinador. Mas te digo que é muito relativo também, Lucas. Tenho amigos analistas que cursam licenças na ATFA e CBF e que perfeitamente poderiam conduzir exercícios mesmo sem a formação em educação física”.

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