A mística de Chapecó para retomada da Chapecoense à Série A 
Foto: Márcio Cunha/Chapecoense 

Diferente da grande maioria dos clubes da elite, a Chapecoense vem do interior, em uma região afastada da capital do estado. O clube foi criado e fortalecido pela cidade de Chapecó, que hoje tem pouco mais de duzentos mil habitantes. O que poderia, para muitos, ser um ponto negativo, acaba se tornando o ponto mais forte do clube catarinense: a identidade com a região e a sua gente.   

É difícil encontrar, ao redor do Brasil, um lugar onde um único clube seja unanimidade. Onde é impossível andar pelo centro da cidade sem contar, no mínimo, dezenas de pessoas trabalhando e passeando com as camisetas do time. Não é fácil achar uma região onde os mercados e estabelecimentos estampam a bandeira de uma equipe em um altar e não geram descontentamento de nenhum cliente. 

Chapecó é assim. Os apaixonados por futebol, se querem conhecê-lo em sua essência, deverão visitar o Oeste de Santa Catarina ao menos uma vez na vida. Depois disso, irão entender o porquê do clube verde e branco conseguir tantas proezas, sair do previsível, contrariar estatísticas e estar, mais uma vez, entre os 20 maiores clubes do país. 

A mística da Chapecoense se inicia desde a chegada no Oeste, aos arredores do estádio, dos bairros de maior ao menor poder aquisitivo. O time rege a cidade. A principal perda de 2019 foi muito além do rebaixamento à segunda divisão. O Verdão caiu sem identificação, com um plantel de jogadores que não entenderam nada sobre o que era aquela instituição e aquela cidade. 

Desconfiança

O ano de 2020 não começou animador para a torcida. Mas nos bastidores os ares já eram outros. Nova gestão, novas pessoas e a busca pela retomada da velha identidade do clube. A diretoria, comandada primordialmente por Paulo Magro, Mano Dal PivaNeto André Martins passaram a lembrar, carinhosamente, o quarteto Sandro Pallaoro, Maurinho, Cadu Gaúcho e Maringá, que marcaram seus nomes na história da Chapecoense como dirigentes. 

Com transparência, o então presidente da temporada Paulo Magro, passou a conquistar a confiança do torcedor. Prestava esclarecimentos nas redes sociais do clube, era solícito, comparecia às rádios locais e não deixava a torcida sem satisfações. Por vezes, até acompanhou os diretores de futebol ao aeroporto local para receber um jogador. Tratava a todos igualmente, desde os funcionários, aos simples torcedores e o mais caro atleta. 

Louzer muda ânimo em Chapecó

Nos gramados, no entanto, os ares só mudaram com a chegada de um treinador escolhido a dedo pela diretoria: Umberto Louzer. Sem um grande currículo ou nome forte no meio esportivo, o treinador foi abraçado pelo time - e o abraçou de volta. Não houve, em 2020, um casamento que deu mais certo do que Chapecoense e Louzer. Como se estivesse escrito nas linhas do futebol, um precisava do outro exatamente naquele momento. 

Ainda como treinador do time até o presente momento da publicação deste artigo, Umberto se tornou o comandante mais longevo desde a reconstrução da equipe em 2016. Quando chegou ao clube, a primeira mudança, segundo ele, foi com o psicológico dos jogadores, abalados com a má sequência. Afinal, naquela época, o Verdão estava lutando contra o rebaixamento no Campeonato Catarinense. 

Já sob o comando de Louzer, a Chape se classificou para o mata-mata do estadual. A partir desse momento, a camisa pesou. Ninguém parava a Chapecoense. Eliminou Avaí, Criciúma e, na final, desbancou o Brusque. Consagrando, ali, o primeiro título da gestão de Paulo Magro. O Verdão do Oeste havia conquistado Santa Catarina pela sétima vez. 

Embora tivesse ocorrido uma incontestável retomada no Catarinense, ainda havia desconfiança por parte da torcida para a Série B. E, dentro do clube, o discurso principal era o da permanência. Afinal, a Chape não havia ido longe na Copa do Brasil e os gastos de 2019 haviam sido grandes para os cofres do clube. A permanência na segunda divisão era primordial para evitar maiores problemas financeiros à equipe.

Chape se encontra e supera expectativas

Contrariando, mais uma vez, os céticos e até os otimistas, a Chapecoense fez história na Série B. Tornou-se a defesa menos vazada de toda a segunda divisão nacional. Foi intragável e fatal. Por muitas vezes, ganhou suas partidas por 1 a 0, pois sabia administrar o adversário e atacar justamente na sua fraqueza. E nem por isso apresentava um jogo ruim ao torcedor. Fez goleada, decidiu jogo no último lance, venceu e convenceu. 

Aos poucos, o acesso tornou-se realidade. O discurso, cauteloso e humilde, da diretoria estava mudando, era possível sonhar com a elite de novo. O trajeto de Umberto Louzer no Verdão quase foi interrompido após uma proposta tentadora do Cruzeiro. O treinador alviverde chegou a ter um acordo organizado com o time mineiro e os jornais locais, de ambas regiões, davam como certa a chegada de Louzer à Belo Horizonte. 

No entanto, na noite anterior da suposta oficialização de Umberto no Cruzeiro, Paulo Magro deu entrevista a uma rádio local de Chapecó. Com tranquilidade, contrariou o que diziam as mídias sociais: "Tenho certeza que Louzer fica na Chapecoense", ele afirmou. Naquele mesmo momento, o vice de futebol, Mano Dal Piva, viajava a Alagoas para tratar pessoalmente do assunto com o então técnico, que estava concentrado para o duelo contra o CRB. 

Dizem, nos bastidores, que a conversa foi sobre compromisso e palavra. Demonstrando firmeza e lealdade à Chape, Dal Piva convenceu Louzer a permanecer no time alviverde, cumprindo o seu contrato. Naquele momento, a diretoria provou aos torcedores, mais uma vez, que o clube estava sendo dirigido por pessoas de palavra. 

Nessa altura do campeonato, a torcida já havia retomado totalmente a confiança na diretoria. Sem poder comparecer ao estádio em detrimento da pandemia, os torcedores passavam buzinando ao redor da Arena Condá durante os jogos como mandante, com o recado de que mesmo de longe, estão presentes ao lado do time. 

Devagar, a região voltou a comparecer no uniforme da Chape com patrocínios. Alguns eram pontuais, outros acompanharam o Verdão durante meses e já estão garantidos para 2021. Houve uma época em que as empresas locais não eram tão valorizadas no manto alviverde. Grande erro. Afinal, o que seria da Chapecoense sem a sua região? A mudança de postura do clube e da cidade também garantiam que eram novos tempos. 

Nas ruas de Chapecó, o humor já era outro. Quando o Verdão ganhava, era possível saber que havia um sorriso por detrás das máscaras. O entusiasmo dos comerciantes que fardavam o manto alviverde durante o horário de trabalho também era diferente. Aos poucos, de jogo em jogo, a Chape resgatou sua maior preciosidade.

Para sempre presidente

E, quando o discurso mudou de "acesso" para título e o Verdão comandava o topo da Série B, a cidade perdeu o chão mais uma vez. O silêncio voltou. Após aproximadamente duas semanas internado, Paulo Magro, presidente naquele momento, não resistiu às complicações da Covid-19 e faleceu em Chapecó. 

Ao andar pela cidade e ver sorrisos tão honestos, pessoas tão trabalhadoras e simples, é difícil acreditar que aquela terra já sofreu tanto. A perda dentro do clube é a dor de uma região inteira. A partida de Paulo Magro foi sentida, dolorosamente, por cada torcedor. A cidade amanheceu chovendo mais uma vez. 

Homenageado pelo clube, Magro está eternizado na história da Chapecoense e na "Estrela de Condá", pintada nas arquibancadas da Arena. Uma cadeira foi nomeada sua, ao lado de Sandro Pallaoro, que também se despediu da vida terrestre enquanto presidia o clube alviverde, na tragédia de 2016. 

Aos poucos, a torcida passou a perceber que o legado que Paulo Magro havia deixado também seria eterno. Nenhuma das pessoas que estavam envolvidas dentro do clube deixaria o time "sair dos trilhos" após a sua partida. Estavam todos comprometidos, afinal um dos pilares da gestão de Magro era a união. Nada era decidido somente por ele, mas em grupo, com cooperativismo. 

Céu se alegra toda vez que o time joga

Ainda não se sabe como a Chapecoense terminará essa temporada. Talvez a gestão de Paulo seja coroada com o primeiro título nacional da história do clube. Afinal, mesmo com o América-MG sendo um adversário forte, o Verde do Oeste já nos provou que não há como duvidar do poder que esse time tem em contrariar o provável. 

Enquanto isso, a cidade interiorana de Santa Catarina se prepara para receber, mais uma vez, a maior competição do futebol nacional. Não há duvidas que Chapecó será pintada de Verde e Branco, assim como era quando o clube não tinha divisão, até nos tempos atuais. Lado a lado, não há parceria maior do que a Chapecoense e sua torcida.

E os grandões do futebol devem se preparar novamente para retornar a Chapecó. A Arena Condá, mesmo vazia, carrega uma mística poderosa, onde foram escritas e vividas algumas das histórias mais heroicas do futebol catarinense. Os pênaltis contra a Chape se recusam a entrar, a bola procura os camisas verdes e o céu chora de alegria toda vez que o time joga. 

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