Crônica: Brasil x Argentina e a verdadeira Copa América
Foto: Lucas Figueiredo/CBF

E finalmente chegamos às finais dos campeonatos de seleções que tiveram início em junho. Na Europa, a Inglaterra terá a chance de jogar em casa, em Wembley, contra a Itália, pela final da Eurocopa, neste domingo (11). Enquanto isso, no sábado, o Brasil também jogará em casa, no Maracanã, quando encara a sua arquirrival Argentina, pela final da Copa América.

Copa América esta que teve lá seus problemas com o público. Lá perto de seu início ela não tinha mais um lugar para acontecer, pois a Argentina e a Colômbia não poderiam sediar a competição. A Argentina por conta dos casos de Covid-19 que aconteciam no país e a Colômbia por conta dos protestos contra o governo, que colocavam em riso o acontecimento dos jogos.

Então a competição veio parar, mais uma vez, em terras canarinhas. Com um tempo recorde de resposta do governo para confirmar que o Brasil sediaria a competição, esse muito criticado governo, com protestos e cobranças, por conta da demora para respostas aos e-mails para negociações de vacinas. Para a Copa América encontrou-se tempo, para vacinas não.

Mas mesmo assim, ela começou e assim se seguiu a competição, com Brasil e Argentina passando por seus adversários e indo para as finais. Enquanto isso a Eurocopa também acontecia – e parecia um mundo completamente diferente. O primeiro ponto de um novo mundo na Europa era na própria competição. Seleções fortes, um jogo bem jogado e potencializado, com emoções e resultados que cativavam o público, enquanto a Copa América muitas vezes passava esquecida, com alguns resultados esperados e jogos não tão interessantes. Eu gostaria que fosse o contrário, como foi em 2019, mas foi assim que aconteceu.

E temos o segundo ponto. Os gramados. Olhar os campos onde os europeus desfilam seu futebol é um motivo para olhar para os nossos e pensar que isso é um fator primordial para o baixo nível aqui disputado. Em uma competição de seleções, onde os melhores jogam ter gramados como os que foram usados aqui é de se lamentar – para não dizer algo pior.

Messi, por exemplo, disse que o campo não ajudou, após o empate em 1 a 1 da Argentina com o Chile, onde o camisa 10 argentino marcou um golaço de falta. Pouco tempo depois, após a goleada brasileira sobre o Peru por 4 a 0, Neymar, camisa 10 do Brasil, também criticou o gramado do Estádio, o chamando de ‘belo’ em seu Instagram. Enquanto isso qualquer pessoa que assistisse a Euro poderia ver a qualidade da grama, seja em Wembley ou no Estádio Olímpico de Roma.

E por fim, mas não menos importante: um mundo completamente diferente onde o vírus que assola e ceifa milhares de vidas diariamente já está controlado, possibilitando o retorno de público nos estádios. Era comum ver torcidas em todos os jogos, alguns mais outros menos dependendo do país onde se estava sendo realizada a partida. Voltamos a escutar o grito de ‘gol’ quando a bola balançava as redes e podíamos ver a emoção nos torcedores, sejam boas com classificações, sejam ruins com eliminações.

Enquanto isso nós temos a fria e gelada Copa América, nas arquibancadas vazias com o silêncio de templos do futebol onde já se receberam milhares de torcedores por seus clubes ou por seleções. E não, isso não é uma crítica à falta de torcedores nos estádios ou alguma ideia negacionista de que quem organiza a competição deveria ignorar a atual situação do país e colocar público nos estádios. É um lamento dito em voz alta por pensar que existiu uma possibilidade de termos irmãos brasileiros, argentinos e quaisquer outros dentro dos estádios brasileiros para gritarem por suas seleções. Uma pena que essa chance foi inúmeras vezes descartada.

E além disso tudo, existe o fato de não valorizarem o produto. Explico isso: a Eurocopa acontece nas férias dos atletas, onde não tem jogos pelos clubes em andamento. O Barcelona por exemplo fez seu último jogo da temporada de La Liga em 22 de maio, enquanto a Eurocopa teve seu jogo de abertura no dia 11 de junho. Já a Copa América teve seu jogo de abertura dia 13 de junho. No dia 13 de junho aconteceram SETE partidas do Campeonato Brasileiro.

Logicamente será muito difícil conseguir parar o campeonato por conta da Copa América, mas algo deveria ter sido feito pois assim seguiu. Nos mesmos dias que o Brasil jogava, aconteciam jogos de Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Atlético Mineiro, entre tantos outros, tirando até mesmo o foco dos torcedores que poderiam estar na Copa América. Se tornou comum abrir qualquer rede social e se deparar com pessoas descobrindo que o Brasil estava em campo no momento onde saia um gol ou acontecia algo importante.

Dito tudo isto, a Copa América de 2021 perdeu seu charme, seu destaque e pouco apareceu, muito ofuscada por tudo dito acima e por um brilho maior da Eurocopa, com seus gramados, calendário e logística de dar inveja.

Mas clássico e clássico, e vice-versa, como diria o poeta. O acaso, a sorte ou os deuses do futebol nos presentearam com uma grande final da Copa América.

Brasil e Argentina. Uma final que mexe com corações, que mexe com milhões de torcedores, que gera engajamento, discussões calorosas e o mais importante que não havia acontecido em um mês de competição: destaque.

Destaque para uma competição centenária, que tem muita importância na América do Sul e que foi ofuscada por milhões de motivos nesse ano. Clássico é clássico e tem o poder de recuperar o charme e a emoção de uma Copa América que em todos os seus jogos não foi lhe permitida ter. Onde gramados esburacados, jogos de outras competições e arquibancadas frias tiravam seu destaque. Messi contra Neymar, Brasil contra Argentina e o mundo para. O mundo vai parar com o objetivo de assistir o embate entre dois gigantes do futebol mundial. Duas seleções, que juntamente com o Uruguai, ousaram bater de frente contra as poderosas seleções europeias e voltaram para casa com não uma, mas nove copas do mundo.

Nada do que foi dito acima, criticando a organização do torneio, os gramados, a falta de compromisso com a atual situação do país por parte do governo foi apagada ou esquecida, muito pelo contrário. Mas esse é o poder de um clássico. Ele faz com que por aqueles noventa minutos, aqueles cinco mil e quatrocentos segundos sejam um momento onde poderemos assistir dois rivais se enfrentando e fazendo história mais uma vez, apesar de tudo que conspirou contra. Lá estará a verdadeira Copa América. Com seu charme e carisma de sempre, apesar de tudo que fizeram de ruim. Lá estará ela nos fazendo esquecer, mesmo que por pouco tempo, de um Itália e Inglaterra na tarde do dia seguinte.

Vida longa à Copa América. Que ela seja bem tratada na próxima vez e, quem sabe num mundo recuperado do vírus maldito, ela volte para nossa terra, para mais uma vez nos fazer ter momentos incríveis como foi 2019 e como sempre deveria ser. E vida longa aos clássicos e rivalidades. Sem eles o futebol seria mais cinza e sem carisma.

Os jogadores no hino nacional em 2109, contra a Argentina (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
Os jogadores no hino nacional em 2109, contra a Argentina (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
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