O legado do 7 a 1

O futebol brasileiro não parece ter aprendido com o "Novo Maracanaço" e deixa a dúvida este é realmente o país do futebol

O legado do 7 a 1
Renato Augusto lamenta eliminação diante do Peru/ Foto: Tim Clayton/ Getty Images

Com a recente eliminação brasileira da Copa América do Centenário, depois de uma campanha pífia - com direito a derrota para o Peru, que não acontecia desde 1985, empate diante do Equador e vitória por 7x1 contra a seleção semi-profissional do Haiti - a indagação feita pelo cronista carioca Nelson Rodrigues, talvez não esteja totalmente correta. Talvez o problema de nosso futebol não seja somente o "Complexo de Vira-Lata".

Como aficionado por futebol, confesso que a goleada da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 causou um impacto tremendo em mim. Depois do final daquele torneio, passei por um período de quase seis meses sem sequer assistir a uma partida inteira de futebol, tendo em vista o tamanho que os sete gols representaram. 

No entanto, o segundo fracasso em casa não parece ter afetado tanto assim os brasileiros, em geral. Como acontece corriqueiramente no país, a derrota parece ter tido uma repercussão somente a curto prazo, sendo tratada como "somente mais um jogo, bola para frente". Porém, uma humilhação dessa dimensão não pode simplesmente ser tratada como uma derrota qualquer: foi mais uma chance perdida de conquistar o título mais importante do futebol em casa.

Na primeira delas, em 1950, a Seleção Brasileira foi derrotada na decisão devido ao gol do uruguaio Ghiggia. Oito anos depois, com a reforma na organização da CBD por Paulo Machado de Carvalho, o "Maracanaço" foi superado com a conquista da primeira estrela, no time que contava com Pelé e Garrincha. Após o título, o jornalista Nelson Rodrigues escreveu a famosa crônica decretando o fim do "Complexo de Vira-lata brasileiro".

Porém, atualmente, o anúncio do carioca parece ter sido precipitado. Considerando os últimos fracassos brasileiros na Copa do Mundo de 2014, na Copa América de 2015 e na Copa América do Centenário nesta semana, o futebol brasileiro parece não sofrer apenas do excesso de talento e pelo fato de nos colocarmos em uma posição proposital de inferioridade. 

A eliminação para o Peru representa bem isso: a derrota pelos pés, ou melhor, pelas mãos não só de Ruidíaz, mas de Ricardo Gareca -um técnico argentino com curta passagem pelo Palmeiras. Ou seja, ironicamente pelo time de um treinador que poderia estar no Brasil, mas foi retirado de seu cargo por conta de nossa cultura de demissão de técnicos em massa.

Essa desvalorização dos treinadores é, sem dúvidas, um dos fatores para a decadência que o futebol do país vive, uma vez que muitas vezes, eles são os principais culpados por uma sequência de maus resultados. Desse modo, assim como Gareca, perdem sem cargos e tem seu trabalho encerrado sem razões confiáveis. 

Nos últimos anos, na seleção brasileira pode-se observar a mesma cultura sendo aplicada: durante a última Copa do Mundo, o técnico era Luiz Felipe Scolari - o "Felipão" - um medalhão, que teve seu auge na conquista do Penta em 2002, mas que em doze anos depois, estava claramente desatualizado em relação às táticas atuais - utilizando o 4-2-3-1, com dois volantes marcadores e sem muita justificativa. Influenciando também a convocação, Scolari deixava de chamar jovens e revelações para escalar velhos conhecidos da torcida brasileira, como o lateral Maicon e o atacante Fred. Sem mencionar seu auxiliar, Carlos Alberto Parreira - que esteve à frente do time em 2006.

Porém, após a humilhante eliminação na Copa que foi disputada em casa, o pouco valor dado aos comandantes da seleção ficou ainda mais claro com a escolha de Dunga para suceder Felipão. Treinador com passagem no comando técnico do Brasil na na Copa da África do Sul, em 2010 e, que, não deveria ter voltado ao cargo ainda mais quando era necessária uma reconstrução do futebol brasileiro. Logo essa decisão se mostrou infrutífera, com a eliminação nas quartas de final da Copa América de 2015 e mais recentemente, na fase de grupos da Copa América do Centenário.

Depois de outro fracasso, a CBF - Confederação Brasileira de Futebol - parece estar mudando. Mesmo em meio aos escândalos de corrupção e com Marco Polo del Nero - acusado pelo FBI por corrupção - como presidente, passos importantes foram dados nos últimos dias com a demissão de Dunga.

Resta-nos agora, torcer para que o próximo comandante seja decente e por uma reforma na entidade máxima do futebol nacional, a fim de que o Brasil se torne, de fato, o país do futebol. E não deixe de ser somente a terra exportadora de craques, como afirmou o jornalista Arnaldo Ribeiro, da ESPN Brasil, no programa "Linha de Passe". Além, é claro, de apoiar a autonomia dos clubes através de ações como a Primeira Liga e o Bom Senso FC.