De Salvador para a história: Formiga é convocada para sua sexta Olímpiada

Meio campo mais velha na seleção brasileira feminina, Formiga driblou todos os preconceitos e fez história dentro de campo

De Salvador para a história: Formiga é convocada para sua sexta Olímpiada
Formiga em 1996, em Atlanta, com 18 anos, sua primeira participação (Foto: Reprodução)

Em entrevista coletiva realizada nesta terça (12), a seleção feminina de futebol foi convocada para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, e, a competição será histórica para a meio campista Formiga. A jogadora está na lista das 18 atletas convocadas pelo técnico Vadão e vai disputar uma Olímpiada pela sexta vez, igualando o recorde de vários esportistas de diferentes países.

Em 20 anos de seleção brasileira, Formiga participou das mais importantes competições e conquistas da seleção brasileira de futebol feminino. Na bagagem, tem seis Copas do Mundo, cinco Pan-americanos e cinco Jogos Olímpicos – neles, a prata veio em duas oportunidades: Atenas (2004) e Pequim (2008).

“Esta será a minha sexta e última Olimpíada. Estou me cuidando e me entregando 100% aos treinamentos para dar o melhor e honrar essa oportunidade de jogar dentro de casa e conseguir essa medalha de ouro tão importante para o futebol feminino do Brasil. Eu continuarei em clubes. Vou jogar mais uns dois anos. Depois, pretendo ser treinadora”, declarou Formiga, revelando seus planos.

O início:

O apelido dado à meio campista da seleção brasileira de futebol feminino não condiz com a grandiosidade de sua carreira e trajetória. Miraildes Maciel Mota, a Formiga, aos 38 anos, entra pra história ao ser a única jogadora de futebol do mundo com cinco participações em Olimpíadas - completará a sexta passgem pelos jogos na Olimóada do Rio de Janeiro -. Da capital baiana para o mundo, Formiga jogou nos Estados Unidos e na Suécia, além de defender, no Brasil, clubes como São Paulo, Santos, Portuguesa e São José, pelo qual disputou o último Brasileiro e foi vice-campeã.

Mas, engana-se quem pensa que seu caminho para o sucesso foi fácil. Para vencer nos gramados primeiro foi preciso escapar dos irmãos, que não a deixavam jogar na rua com os meninos do bairro Lobato, onde cresceu no subúrbio de Salvador e o preconceito, quando preferiu a bola à uma boneca.

“Os meus irmãos não me deixavam jogar bola com os meninos se nenhum deles estivesse presente. Como sempre fui fominha em bola, quando eles iam trabalhar ou saíam para fazer alguma coisa, eu escapava para jogar. Mas eles acabavam me encontrando e eu apanhava. A preocupação deles era que os meninos fizessem alguma maldade, me batessem, e eu não teria como me proteger. Tem muitos meninos que não gostam de tomar entre as pernas de mulher porque os outros ficam zoando. E sempre me destaquei”, contou.

Drible nos preconceitos:

Mulher e negra, o preconceito sempre esteve presente na trajetória profissional de Formiga, seja em função da cor da pele ou de seu gênero. Da infância até os dias de hoje.

“Uma vez, meu padrinho me deu uma boneca. Eu arranquei a cabeça, joguei o corpo longe e saí chutando a cabeça da boneca como se fosse bola. Os amigos dos meus irmãos ficavam dizendo que aquilo [jogar futebol] era feio, coisa de mulher-macho. Tinha esse lado, até porque sou a única mulher no meio de quatro irmãos”, recordou.

Nos gramados, infelizmente, a situação era parecida. O fato de ser negra já proporcionou cenas de preconceito dentro do estádio. Em entrevista, Formiga relembrou um episódio em que ela e uma companheira de equipe foram xingadas por um torcedor. No entanto, a meio campista não se abalou e soube lidar com a situação.

 “Quando o torcedor xingava a mim e a uma colega, eu pedia calma para ela. Disse para focarmos no que estava acontecendo em campo. Jogamos bem, vencemos o jogo e depois ele quis tirar foto com a gente. E eu tirei”, declarou.

Formiga se junta ao grupo seleto de esportistas que já disputaram a Olímpiada mais de uma vez. São 488. Cujo 369 homens e apenas 119 mulheres, tiveram a oportunidade de participar o maior evento esportivo pelo menos cinco vezes.

Além de Formiga, a convocação para os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, conta com mais 17 atletas e 4 suplentes. Confira a lista completa:

Goleiras – Barbara e Aline (seleção permanente)
Zagueiras – Mônica (Orlando Pride/EUA), Rafaelle (Changchun/China), Bruna Benites (seleção permanente) e Érika (PSG/França)
Laterais – Fabiana (Dalian Quanjian/China) , Poliana (Houston Dash/EUA) e Tamires (Rosengard/Suécia)
Meio-campo – Formiga (permanente), Thaisa (permanente), Andressinha (Houston Dash/EUA) e Marta (Rosengard/Suécia)
Atacantes – Debinha (Dalian Quanjian/China), Cristiane (PSG), Andressa Alves (Barcelona), Bia Zaneratto (Steel Red Angels/Coreia do Sul) e Raquel (Changchun)

Suplentes: Luciana (goleira), Camila (lateral), Darlene e Thais Guedes (atacantes)