Relvado: como amadores tornaram o futebol real em cidade do Rio Grande do Sul

Grupo do Veteranos iniciou em 1994 e mantém atividades no município do interior gaúcho

Relvado: como amadores tornaram o futebol real em cidade do Rio Grande do Sul
(Foto: Arquivo pessoal / Divulgação / Veteranos)

Amador, conforme o dicionário é aquele que não é profissional, e que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte. Amante; apreciador; curioso. Já a demonstração de zelo, dedicação e afeição profunda a outrem, estabelecendo um vínculo afetivo intenso, capaz de doações próprias, até o sacrifício, recebe a denominação de amor.

Não existe amador sem amor. E com estes dois atributos se faz até um time de futebol. Foi assim que nasceu o Esporte Clube Veteranos de Relvado. Uma composição de amadorismo e amor ao esporte.

O cenário do futebol do Veteranos é a cidade de Relvado, município gaúcho, localizado no Vale do Taquari, com aproximadamente 2.300 habitantes, a 180 km da capital Porto Alegre. É uma típica cidade interiorana, movida pelo alto impacto da agricultura, e com características marcantes das culturas italiana e alemã.

A iniciação futebolística se deu com a chegada do Padre Alberto Tremea, na cidade de Relvado, em 1994. O pároco se deparou com um grupo de amigos que jogavam futebol há mais tempo, porém, sem qualquer oficialização. Tremea cuidou, imediatamente, de dois assuntos, já em janeiro de 1994. Um foi a oficialização dos jogos, iniciando pelo futebol de salão. O outro foi sua vaga no time, onde durante alguns anos foi um corajoso zagueiro, fechando a linha defensiva dos Veteranos. 

Os jogos eram realizados sextas-feiras à noite, no Salão Paroquial de Relvado. Além de amistosos, também eram disputados campeonatos com equipes da região do Vale do Taquari, em partidas de ida e volta. Como não havia patrocínio, os jogadores ajudavam com R$ 5,00 mensais, para cobrir despesas com bolas, vestimentas e limpeza do salão. O diretor do time Veteranos era Ademir Pretto, que também fazia parte do plantel. Técnico não existia. Os jogadores se uniam em prol do time, com “pitacos” e o principal: vontade de jogar. Dessa forma, eram os próprios atletas que organizavam a escalação e esquema tático.

Com a introdução do salão, resolveu-se regularizar também o time para campo. Em 19 de março de 1994, definitivamente, a pequena Relvado passou a ter um time de futebol. Do ano inicial até 1997, os jogos eram disputados aos domingos de manhã. Em 1998 mudou para sábados à tarde, permanecendo nesse turno até o ano atual. As partidas em casa aconteciam no Estádio Municipal de Relvado, que abrigava jogos amistosos e de campeonato regional com times de Putinga, Anta Gorda, Nova Bréscia, Doutor Ricardo, Encantado e Lajeado. 

Ao término do ano é realizado um encontro de confraternização entre jogadores e amigos da comunidade. O primeiro encontro de Veteranos foi realizado no dia 10 de janeiro de 1999, numa iniciativa de Paulo Possenatto e Luciano Laude. Contou com o apoio de: Adroaldo Luís da Croce; Augusto Polese e Cia LTDA; Esporte Clube Relvado; Eusébio Lorenzini; Jatir José Radaelli; Marcenaria Pampa LTDA; Mercado Polesetti e Cia LTDA; Pedro Possenatto; Rafael Fontana; Roque Ferronatto e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Relvado. A festa, regada à música, churrasco e chopp, iniciou pela manhã e teve fim somente à noite. De 1999 até 2015, em todo final de ano esses encontros foram realizados. Afinal, partilhar felicidade também faz parte da essência do esporte. 

Os primeiros nomes que defenderam o time Veteranos foram: Antonio Polese, Luis Carlos Lardini, Nelcir Salvi, Padre Alberto Tremea, Leonar Strapazon, Waldemar Pretto, Paulo Possenatto, Adecir Venzo, Ademir Pretto, Adronaldo Pretto, Jatir Radaelli, Gilson Delazeri, Renato Defendi, Ildo Dallavechia, Gentil Taufer, Zilmar Moresco e Natalin Reginatto.

Mais adiante, outros moradores se juntaram ao time, eram eles: Jocelito Toniollo, Luciano Laude, Adalberto Spagnolo, Dilamar Maus, Marivaldo Canesso, Seli Giacomolli, Luis Fraporti, Ademar Marques, Reneu Siqueira, Armando Bica, Paulo Nardi, Adriano Spagnolo, Luiz Laude, Marciano Salini, Andre Teobaldi, Danilo Bocchi, Glauber Bocchi, Agostinho dos Santos, Francisco Pavan, Norberto Santin, Anderson Dallavechia, Ademar Pretto, Odenir Cassanelli, Alexandre Laude, Jocemar Ferraboli, Leonir Ongaratto, Gilmar Delazeri, Janio Fraporti, Genecir Bugante e Renato Defendi.

Nos anos 2000, comandado por Marios Benini, o Esporte Clube Veteranos de Relvado conquistou seu primeiro título da região. Foi campeão municipal diante do time de Linha Salvação, no Estádio Municipal de Relvado.

O time campeão era composto por: Renato Defendi, Paulo Possenatto, Janio Fraporti, Marivaldo Canesso, Reneu Siqueira, Luciano Laude, Andre Teobaldi, Adecir Venzo, Ademir Pretto, Leonar Strapazon, Glauber Bocchi, Anderson Dallavechia, Jatir Radaelli, Adronaldo Pretto, Márcio Pretto e Jocelito Toniollo. 

Pai, filho e neto: três gerações no mesmo plantel

Mais do que ter o mesmo sangue e compartilhar um amor incondicional, entrelaçados pela união, a família Pretto pode afirmar que joga no mesmo time.

Waldemar Luis Pretto, Ademir Antonio Pretto e Marcio José Pretto, respectivamente, pai, filho e neto, vestiram a camisa do Veteranos e tiveram o privilégio de atuarem juntos durante dois anos, de 1999 a 2000. Toda a ligação familiar também compartilhada em campo.

“Seu” Waldemar, que hoje tem 79 anos, contou emocionado que ter tido a oportunidade de jogar ao lado de seu filho e neto foi mais do que uma honra, pois perpetuar através de gerações uma tradição é um dos legados do futebol: “Foi uma grande emoção jogar junto com a família, pois é o amor ao futebol. É difícil três gerações jogarem juntas e nós conseguimos. O que eu posso fazer para incentivar a prática do futebol eu faço. Futebol para mim é uma alegria”.

Um dos motivos que orgulha “Seu” Waldemar é ter sido, enquanto jogava, um dos espelhos do time Veteranos. De acordo com o ex centro médio, o fato de nunca ter se envolvido em brigas o tornou referência: “Eles (jogadores do Veteranos) gostavam muito de mim pela maneira como eu agia com o time rival, sempre com respeito. Eu nunca recebi um cartão amarelo e nunca fui expulso em 40 anos de futebol. Tem que entrar em campo para jogar futebol e não para brigar. Eu sabia ganhar e sabia perder”.

Além de ganhar ênfase pela postura respeitosa, “Seu” Waldemar também era destaque pelo bom futebol: “Eu sempre era escolhido como o melhor da partida e isso foi fazendo história. Comecei a ser reconhecido. Se a gente faz alguma coisa, um dia a recompensa vem. E eu fui recompensado”.

Ademir, com 56 anos e Marcio, com 33, ainda atuam pelo Veteranos e talvez possam repetir novamente o feito de terem três gerações da família Pretto jogando juntas. Isso poderá ser possível, pois Marcio tem um filho homem, o pequeno Eduardo, de 5 anos.

“Quando eu jogo futebol é um tempo que os problemas somem da cabeça. Eu espero que meu filho tenha a mesma chance que eu tive, de jogar com meu pai e meu avô”, idealizou Marcio.

Veteranos na atualidade

Em março de 2016, iniciou a temporada de amistosos, aos sábados à tarde. Os jogos são disputados com os times: Botafogo de Nova Bréscia e de Roca Sales; Ouro Verde; Alvorada; Grêmio Serrano; Renegados; Lozama; SAN; Serrano; Operário; Colinas; 3 reais; Tiradentes; Palmense; São José; Caçador; Juventude de Colinas; Albatrós e Dr. Ricardo. Partidas em Relvado e na cidade do adversário.

O Campeonato Regional terá abertura no segundo semestre deste ano, no mês de agosto, também em jogos de ida e volta. A premiação é um troféu e dinheiro simbólico.

Nos jogos disputados no Estádio Municipal de Relvado vende-se cerveja, refrigerante, água e cachorro quente. Cada final de semana de jogo em casa, um trio de jogadores é escalado para organizar a copa e arrumar o campo. Além dessa arrecadação, o plantel paga R$20,00 mensais, para eventuais despesas. O tesoureiro do Veteranos é Paulo Nardi.

O plantel atual é composto por: Vando Tomaz; Lucas Frantz; Andrei Grando; Ezequiel Danni; Clério Rizzi; Deiver Reinoso; Fábio Siqueira; Victor Perin; Wilian Rodrigues; Ranielli Nardi; Gustavo Lorenzini; Nelson Rodrigues; Pedro Moresco; Glauber Bocchi; Eusébio Danni; Maikon Daltoé; Diogo Daltoé; Marcio Pretto e Ariel Lorenzini.

Jogando num sistema 4-2-3-1, Lucas Frantz é o dono da braçadeira de capitão. Quem assume o comando do time em campeonatos é Ademir Pretto, enquanto nos amistosos a responsabilidade é assumida por Deiver Reinoso.

O Esporte Clube Veteranos de Relvado faz valer a velha máxima: nunca foi e nunca será somente futebol. O Veteranos ultrapassa o visível de ser apenas um time amador. É um grupo de amigos atados pelo esporte, pelo lazer. Busca, com dificuldades, dar voz ao futebol, dar espaço ao tão antigo e popular espetáculo da emoção e negócio. Se a vida no interior não é fácil aos jovens de idade e de espírito e, talvez, Relvado não ofereça grande demanda de recursos e entretenimentos, pelo menos dentro de campo o fel das dificuldades dá espaço para o mel adquirido pelo toque dos pés. O Veteranos vive há 22 anos e, enquanto há vida, há grito de gol. Se há grito de gol, há vida e há amor.