Brasileirão: Lesões Musculares afastam por rodada quase o número total da Premier League

Levantamento pode demonstrar que a diferença nos calendários afeta profundamente o rendimento das equipes

Brasileirão: Lesões Musculares afastam por rodada quase o número total da Premier League
Cazares sofreu lesão muscular grave e teve retomo aos gramados previsto para três meses. No Brasileirão ele apenas um dos vários casos.(Foto:Bruno Cantini/Atlético-MG)

Quem acompanha o futebol brasileiro sabe. A cada entrevista coletiva, um assunto em comum será pauta nos 20 clubes do Brasileirão, o calendário apertado e as lesões provocadas pela falta de tempo de recuperação entre as partidas.

A estrutura do Campeonato Brasileiro se assemelha com a maioria dos campeonatos ao redor do mundo. 20 equipes disputam entre si com turno e returno um campeonato decidido por pontos. A diferença está no espaço de tempo em que as 38 rodadas ocorrem. Nos grandes campeonatos europeus, por exemplo, as ligas nacionais duram 10 meses, de agosto até maio do ano seguinte, ao passo que no Brasil as partidas são divididas em pouco menos que 8 meses completos, de maio até dezembro.

Os treinadores reclamam da falta de tempo para treinar os times e sofrem quando as derrotas em sequência vêm acompanhadas da carta de demissão e os jogadores lidam durante toda a temporada com a premeditação de lesões musculares que, invariavelmente, atrapalham os clubes, que ainda têm de administrar o elenco para a disputa de outras competições simultâneas, como a Copa do Brasil, Sul-Americana e Libertadores.

O desgaste muscular é uma das principais demonstrações de que a agenda imposta aos clubes compromete o rendimento ideal planejado pelas diretorias, treinadores e jogadores quando montam o elenco para a temporada. Por isso a Vavel fez um levantamento para comparar o Campeonato Brasileiro e o Campeonato Inglês, a Premier League, em um parâmetro não muito comum, o número de lesões musculares.

 

Comparação do número de lesões

A empresa britânica PhysioRoom, especializada em medicina esportiva, faz um levantamento das contusões de todos os jogadores da Premier League, especificando a causa e o tipo de lesão. De acordo com seu site, durante toda a temporada passada, os 20 clubes participantes da elite do futebol inglês somaram 70 lesões musculares. O número leva em conta qualquer contusão que tenha afastado um jogador de ao menos uma partida.

No levantamento realizado pela Vavel, foi constatado que na 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, na data de 18 de julho, 55 atletas desfalcavam suas equipes na série A do Campeonato Brasileiro por conta de contusões musculares.

Em levantamento mais atual, após o fechamento do primeiro turno, o número de jogadores afastados dos gramados por lesões musculares diminui em dois atletas, somando 53 baixas para os clubes.  O número não ter aumentado com a andamento da competição pode estar relacionado ao fato de que exatamente no intervalo entre a 15ª e a 19ª rodada, em apenas uma oportunidade aconteceu de o campeonato ter partidas no meio e no fim de semana.

Vale recordar que a estatística referente ao Campeonato Brasileiro contemporiza apenas os jogadores que estavam de fora da 15ª e 19ª rodada, podendo, portanto, contabilizar os mesmos jogadores que não se recuperaram nesse intervalo, enquanto a que se refere ao futebol Inglês aborda toda a competição e cada lesão.

O número de jogadores afastados por questões musculares por rodada no Brasileirão é bastante próximo ao número de todas as lesões da Premier League somadas. O número pode ilustrar na prática o que sofrem jogadores, treinadores e dirigentes, na carne, estratégia e montagem de elenco, respectivamente.

Negueba, recém chegado ao tricolor gaúcho também engrossa a lista dos lesionados. (Lucas Uebel/Grêmio)

Análise do profissional

Não são só treinadores, dirigentes e, claro, jogadores, que sofrem com o grande número de lesões. O departamento médico e os preparadores físicos correm contra o tempo mais do que qualquer velocista do seu time para que os jogadores se recuperem mais rápido e se tornem menos propensos à novas contusões.

Leonardo Fagundes é preparador físico da equipe profissional do América-MG há cinco anos e recentemente foi convocado para compor a comissão da Seleção Brasileira sub-20 anos. Fagundes também tem no currículo o trabalho de transição com jogadores que estão se recuperando de contusões, como foi o caso do penta campeão mundial Gilberto Silva, que trabalhou com o profissional no ano passado.

Sobre a relação entre o calendário e desgaste muscular dos atletas, Leonardo Fagundes reitera a ideia de que os fatores estão intimamente ligados e ainda adiciona a questão da extensão territorial do Brasil:

“Acredito que o calendário do futebol brasileiro proporciona um aumento da incidência do número de lesões, pelo pouco tempo que o atleta tem de se recuperar entre uma partida e outra e por vivermos em um país que é continental. Então esse atleta é submetido a várias horas de viagem,  a poucos dias de descanso entre um jogo oficial e outro, e isso, realmente pensando em carga de treinamento, carga de jogo e pouco tempo de recuperação, causa um aumento da incidência dessas lesões musculares” afirma.

A disparidade no número de lesões já apresentada na matéria pode colocar em cheque a qualidade dos profissionais da preparação física e departamento médico dos clubes brasileiros. Leonardo Fagundes afirma que a qualidade dos profissionais brasileiros é referência internacional:

“Acredito que a preparação física no Brasil é referência mundial, isso na minha opinião. [...]. São questões de periodização de treinamento e questões, também, que envolvem o calendário de competições de diversas culturas. Então comparando o futebol brasileiro com o futebol europeu, percebe-se que o calendário no futebol brasileiro é muito extenso e com muitas competições, o que dificulta para nós, preparadores físicos, em um controle mais minucioso em relação ao tipo de lesão. A metodologia que se é aplicada no Brasil é de excelente qualidade, tanto nos treinamentos quanto, realmente, no trabalho preventivo, que é feito com muita maestria, e acaba que qualifica esse profissional para ajudar o atleta a não ter lesão durante a temporada.”.

O preparador físico ainda reforça a influência negativa do calendário brasileiro, e sugere que os dirigentes pensem em mudanças:

“O calendário do futebol brasileiro não favorece, então é uma oportunidade que os dirigentes e diretores têm que pensar, tentando estruturar um calendário competitivo no Brasil, para que as pessoas consigam ver um melhor espetáculo, com jogadores num processo maior de recuperação, diminuindo a incidência de lesão”, conclui.